domingo, 9 de janeiro de 2011

ROSAS DE AREIA

ROSAS DE AREIA I

É tua presença nas negras areias,
picotadas de azul, mornas de vento,
que transforma a ilusão de meu lamento
nessa teia sutil em que me enleias.

Só de te ver, a alma me incendeias;
contemplo de teus pés nascer portento,
rosas de mágoa crescendo num momento,
de estames e pistilos são tais teias.

E assim me quedo, o milagre contemplando,
dessa beleza que amo sem saber,
pétalas rubras da expressão mais gaia,

mais rubra a mente a tal prazer mirando,
de modo tal que só te posso agradecer
por tantas flores nascidas nessa praia...

ROSAS DE AREIA II

A praia é cinza, contra o lago azul,
envolta em permanentes pinheirais,
coníferas, carvalhos...  No demais,
montes altivos no horizonte exul.

Mas é gélido este lago que me expul-
sou para quimeras primordiais.
Não há ninguém na praia do jamais,
minhas pegadas apagou o vento sul.

Assim eu pairo, onívoro fantasma,
insondáveis as rosas dessa areia.
Nada me resta, senão o mastigar

desses grãozinhos na língua, que me pasma
pela pirraça interior... que me incendeia,
nessa recusa, enfim, de me acordar...

ROSAS DE AREIA III

As rosas que me deste são farelos,
amarelados entre as folhas do passado;
estranho o verde nessas folhas conservado,
com botões rubros tornados amarelos.

Eu construí de areia esses castelos,
em que te via reinar, sobre o encantado
sonho de amor, apenas revelado
por cinzas fotos de teus traços belos.

Rosas de areia são o meu destino,
escorrem pelos dedos, ampulheta,
cacos de ideal desfeito em realidade.

No momento em que as colho, as assassino,
rosas do espinho da ilusão secreta,
em seus grãos translucentes de inverdade.

ROSAS DE AREIA IV

Eu beijo a castelã, feita de poeira,
em miríades de sonhos reluzentes,
agregados na estátua, entontescentes,
numa película de água derradeira.

Abraço a castelã, prenda ligeira,
que aguardo esfarinhar-se, transparentes
os beijos que lhe tomo de infrequentes,
deusa da terra, sombra alvissareira.

Porém resiste firme entre meus braços
e me transmite a inesperada peia:
sou eu que me transmuto na ardilosa

armadilha de amor de seus abraços...
Corpo arenoso, o pênis feito areia,
que se esfacela ao contato dessa rosa.

ROSAS DE AREIA V

Eu sou a multidão dos esquecidos,
que não deixa de si qualquer lembrança!
Sou velho, sou adulto, sou criança,
sou filho de imigrantes mal vestidos.

Sou o senhor dos engenhos construídos
com meu sangue que de jovem não se cansa.
Sou escravo africano, sem bonança,
eu sou a grávida de filhos mal nutridos.

Eu sou os ossos semi-carcomidos,
nos túmulos sem cruz dos cemitérios.
Sou o mendigo que dorme seminu

e sou a esmola dos gestos distraídos.
Sou padre e sou ateu aos despautérios
e não te iludas: que também sou tu!...

ROSAS DE AREIA VI

E não penses, ao me leres, ser melhor
ou de outro modo, apenas diferente:
se é de amor o teu sonho mais pungente,
nenhum dos pesadelos é pior

que aquilo já vivido em grau maior
por qualquer que viveu anteriormente.
Juntos somos sob a pele: toda a gente
se encolhe em melodia em tom menor.

Assobiam em ti teus ancestrais
e ressonam os que ainda não vieram:
todo o que vive e todo o que viveu.

Na areia de teus ossos naturais,
gotas de cálcio dos crânios que o tiveram.
E não te iludas, que também és eu!...

ROSAS DE AREIA VII

As rosas se desfazem entre os dedos
como os cacos de crianças nunca tidas;
como o senso comum, são incontidas
realidades isentas de segredos...

Pois tão somente a água nos faz ledos,
quando evapora, as almas ressequidas
quebram-se em chispas de maciez despidas,
só restando a polvadeira de seus medos.

És o timão e a gávea desse barco
que singra o teu deserto pela quilha,
no esforço inútil de desfraldar sua vela.

Somente fica a esteira, como um marco,
por entre as dunas, uma estéril ilha
e não te iludas, que também és ela!...

ROSAS DE AREIA VIII

E não te iludas que eu descreva a mim:
também teu sangue é invadido pela areia,
que aguarda de tocaia e vem, certeira,
abrir-te as veias em talho carmesim...

Mas não se faz fecunda, mesmo assim:
de teus castelos em pó desfaz-se a teia,
não adubas a terra, em derradeira
escarlate golfada e morte, alfim...

Porque a areia ficará sanguissedenta,
por mais que te absorva a substância
e de outras vidas partirá empós,

que jamais sua secura se contenta
totalmente, com memórias de tua infância.
Mas não te iludas, que a areia somos nós...

ROSAS DE AREIA IX

Meu barco navega em vítrea gaiola;
eu sou piloto e sou o timoneiro;
faço périplo do oceano em meu roteiro,
nessa garrafa que me desconsola.

Minha derrota só encontra a gola
desse gargalo arrolhado por inteiro;
viro o barco até o extremo derradeiro,
que paisagem transparente desenrola.

Mas vejo ser apenas o fundo da garrafa;
até o mar em que vogo é pura areia,
meu sol não passa de tubo fluorescente.

E por mais que me esforce nesta estafa,
singrando as ondas numa longa teia,
sou envolvido num engano incandescente.

ROSAS DE AREIA X

Pois são de areia as paredes de meu mundo,
que todo vidro é orgia em silicone,
o alumínio da luz que me abandone!
Não há mais noite enquanto singro o fundo

dessa garrafa de areia, o barco imundo
é somente cerâmica e abalone
e por mais que desse leme assim me adone,
permaneço sem achar o mar profundo.

E para o amor também, que tanto abafa,
são só beijos de areia que recebo
e assim me iludo de guiar o meu destino...

Porque esse amor está arrolhado na garrafa,
ninguém liberta o gênio e apenas bebo
rosas de areia em que delícias imagino.

ROSAS DE AREIA XI

É assim que eu me sinto.  Uma redoma
de vidro ou plástico, quiçá de plexiglas,
me separa da vida e assim me faz
objeto somente de quem toma

a si a observação.  Vedante e goma
impedem a passagem, mesmo gás
não entra ou sai.   Talvez perfaz
a própria atmosfera que me doma.

Eu mesmo sou de areia, como a rosa
ou como o barco que voga sem destino,
porque há vidro só e areia a meu redor.

E embora seja a garrafa luminosa,
vai pelas trevas meu tanger de sino,
buscando um eco em vão, que grite: "amor!"

ROSAS DE AREIA XII

Ou, quem sabe, estou num prato de Petri,
sob a luz de um microscópio, refletor
de cada movimento, o meu senhor
que me move com pinças que nem vi.

Apenas ecos de suspiro ouvi,
atribulados pelo próprio ardor
dessa lâmpada halógena, fervor
de dissecar a vida que perdi.

Reduzida a provação bacteriana,
inspecionada para uma experiência,
enquanto a areia a meu redor é conservada,

como meio de cultura que se irmana,
única água o frescor de minha vivência,
até que a lâmina venha a ser lavada.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

LAMPARINAS I

LAMPARINAS I

Minha luz é fraca, mais como uma vela
do que archote ou tocha no mural.
Não que não haja o suporte do torchal
ou um alicerce pronto para a estela...

Mas é que a luz que emito se congela,
por não possuir espelho natural.
Não se espalha potente por canal,
é somente luz dourada e bem singela...

Ela se expande por pequeno espaço,
porque não se reflete ou reproduz,
apenas minha mortalha é que me embalma.

Fico restrito à cor do teu abraço,
ciumento de mim, se estamos nus,
escutando o teu som dentro em minha alma.

LAMPARINAS II

Porque minha luz é pouca: titubeia,
quando se adensa a treva ao derredor;
pouco ilumina, pouco pode expor,
à menor brisa, fraca, bruxuleia.

Mas se enxerga de noite, pois permeia
largos espaços em gentil pendor;
prometo, ao longe, um pouco de calor
e o olhar do viandante se incendeia.

Porém, de perto, já não dá impressão:
não passa de luz morna e bem difusa,
por mais que os traços do rosto suavize.

Todos preferem a elétrica visão,
que uma longa distância logo cruza,
sem que deixe passar qualquer deslize.

LAMPARINAS III

Não é pois de espantar que me desprezem:
não estou no palco e nem sou refletor,
mas mesmo um fósforo causa algum queimor
e melhor fora que melhor sopesem,

pois nesse seu descaso, talvez lesem
a si próprias, não a fontes sem calor:
pavio pequeno que apenas corredor
pode mostrar aos passos que lhe pesem.

Mas é o brilho que atrai a mariposa,
não a fragrância opaca de uma rosa,
não o tanger suave de uma lira...

E a tíbia luz que nos meus dedos pousa,
com que a escuridão ainda conspira,
gera um arco-íris, que dentro em mim repousa.

LAMPARINAS IV

Mas sendo arco, a corda que se estira
usa um íris em projétil, como flecha
e, quando se distende, então desfecha
as sete cores com que o mundo fira...

Pode ser flébil a luz que se desfira,
mas corta a noite qual certeira mecha,
pode canhão tornar-se e causar brecha
em cada olhar que de soslaio mira...

Minha luz é turva, porém é permanente:
quem em mim confia, sabe que não falho,
que sempre estou disposto a iluminar,

como o pavio de vela, em tom ardente.
em tua tristeza eu abrirei um talho,
de que toda a escuridão possa jorrar.

LAMPARINAS V

Precisa toda luz de teu espelho,
como o sinal de uma repetidora;
que um satélite captasse, melhor fora
e a golpeasse com força, qual um relho.

Mas esta luz provém do mundo velho,
é de modelo antigo seguidora;
nem anda de avião, no corpo mora,
se movimenta ao pisar de cada artelho.

Bem longe está das modas a mensagem
que pelo mundo transmite meu farol:
busca dizer o que jamais foi dito.

É luz de brisa, o sopro de uma aragem,
estrela pálida de longínquo sol
que há milênios já lançou da morte o grito.

LAMPARINAS VI

Se tens olhos para ver a antiga flama,
percebe que precisa de carinho:
alimentada com musgo e com raminho,
a velha voz em fogueira se reclama.

Só depende de ti que a rubra chama
se difunda pelo mundo, como vinho:
não a escondas entre a palha de teu ninho,
tampouco a ocultes por baixo de tua cama.

Guardada no teu ninho, queimará
e te fará ferver o coração...
Nesse assomo de egoísmo, espantará

para longe de ti a escuridão...
Mas logo a alma também consumirá,
empapada no ardor desse lampião!

LAMPARINAS VII

Se guardares a candeia sob a cama,
sua luz se extinguirá ao desalento;
e, se assoprares o morrião da chama,
terás assassinado este portento...

Mas quem apaga a centelha de um momento
é que não tem a verdadeira flama;
não era para si meu sentimento,
lançado algures a um coração de dama...

Como a estrela que morre e a luz perdura,
só contemplada séculos depois,
assim se espalharão as minhas centelhas,

simples, singelas, de harmonia pura,
mas no fundo cruéis como os anzóis,
porque a alma te prendem se as espelhas. 

LAMPARINAS VIII

Mas se souberes os versos repetir,
espalhá-los pelo mundo, com afeto,
muito maior a luz sob teu teto,
muito maior de tua alma o reluzir.

Nada mais faço que uma função cumprir:
vem a mensagem e a missão completo,
não sou sujeito, apenas objeto,
escriba a registrar o quanto ouvir.

Expeço apenas, de forma rotineira,
a uns quantos amigos e parentes,
pois de que serve o verso ao não ser lido?

Mas permanece a incerteza derradeira:
se, afinal, tocarei algumas mentes,
se nem eu mesmo, às vezes, tenho crido...

LAMPARINAS IX

Porém, se crês, já fazes mais do que eu,
que somente registro e nem evito
esse mistér de refulgir maldito,
esse dever igual ao do judeu

errante, que este mundo percorreu
setenta e sete vezes.  Por contrito
que esteja, não sou assaz aflito,
e nem me importa saber se alguém me leu.

Sou tão somente escravo da poesia,
que jorra como límpida cascata
e deveria refrescar a minha cabeça.

Mas não se bebe o som que nos trazia,
recebo a inspiração como chibata,
gemendo cantos numa calda espessa. 

LAMPARINAS X

Esse talento por deuses concedido
já me encheu até mesmo de esperança:
que carvões me trouxesse sem tardança
ou então, achas de amor correspondido.

Brilhando a lenha em fogo consumido,
compartilhado em tal loucura mansa,

queimando ideias numa longa trança
até que amor seja a cinzas reduzido...

Pavio de vela, que branco foi um dia,
mas que agora se retorce em agonia,
tão negro e inútil quanto este morrião,

perdido assim, tentando ser neblina,
na luz mortiça da pobre lamparina,
que nunca conseguiu ser um lampião!

LAMPARINAS XI

A forma do soneto, reconheço,
pertence ao tempo do lampião de gás;
só uma lembrança que a memória traz,
sobre a qual livros li desde o começo

de minha infância, porque não mereço
que me julguem ter vivido tão atrás,
que visse a luz que um tal lampião desfaz,
perdida num desvão de treva espesso;

hoje essa coisa que chamam de poesia
são fiapos de versos retilíneos,
sem métrica, sem ritmo e nem rima;

só conservam a cadência e a melodia,
que encaixam com meneios curvilíneos
e o povo aceita, na onda dessa mima...

LAMPARINAS XII

Mas eu... Sou filho de um antigo sol,
que derramava luz por toda parte:
"Se a tanto me ajudar engenho e arte",
os passos de Camões, pelo arrebol,

eu seguirei, tentando ser farol
ou ao menos refletir, vermelho marte,
antes que a luz da Lua me descarte,
compondo sempre o desprezado rol

destes meus cantos.  Sou fósforo de luz,
que se apaga num brilho intermitente
e nem sequer persiste como isqueiro...

E como é breve a centelha que reluz!
Talvez na Web se torne permanente,
mas que em meus dedos escorre bem ligeiro!