quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

GRÃOS VAZIOS



GRÃOS VAZIOS I

Na vida coletei pequenos nadas:
sorrisos, bagatelas, três suspiros,
talvez só dois... E a sobra desses giros
são flores, em meus livros amassadas,

ressequidas e murchas, mas trançadas
em mechas de cabelos...  Quase círios
são as gotas de suor de meus martírios,
na estupidez das ocasiões fanadas.

São os restos esgarçados dos encontros
que esvaíram depois, rostos benditos,
são tantos lábios e beijos que esqueci.

Um fardo de lembranças, desencontros
propositais às vezes, ou malditos...
Só não consigo é me esquecer de ti.

GRÃOS VAZIOS II

A mansa aranha faz a tessitura.
No orvalho é um resplendor: tece alimento.
Em minha linfa, das feridas banimento,
tecem plaquetas do coágulo à feitura.

Os meus fagócitos, reunidos em mistura,
devoram-me inimigos, num portento.
Travam combate de comandante isento,
numa estratégia cuidadosa e pura.

No coração não tenho tropa igual:
os ferimentos prolongam-se, dolentes;
de certas dores jamais eu me esqueci.

Nesse banquete... falta o prato principal:
os leucócitos enfraquecem os meus dentes,
mas não conseguem devorar a ti...

GRÃOS VAZIOS III

Eternamente te amo e tu bem sabes:
ao som humano da blasfema prece,
meu ser todo desnudo se embranquece,
odiando tais vazios...   Só tu cabes

em seu preenchimento.  Ah, menoscabes
embora meus flagelos, sei não esquece
a mente tua da mente que padece,
em desvelos tiritantes.   Não te gabes

de que és senhora minha.   Nada és.
Eu sou escravo teu, mas relutante
e não me entrego a ti por te dever...

É somente no altar de antigas fés
que deposito, em oblação constante,
este holocausto em bruma a se perder. 

GRÃOS VAZIOS IV

A mácula de ti dorme em meu peito,
como fungo entranhado na minha pele.
Não há unguento ou poção que a mancha dele,
nem tisana que da mangra o negro preito

possa afastar.   És sintoma sem defeito,
hifas profundas em lesão que sele
e te insidiaste ao ponto que só expele
esta úlcera, um corte tão perfeito

que consiga retirar a carne interna
e me deixe malferido e moribundo:
ferida és tu, que inteiro me recobre.

Se me esfolar de ti, em morte eterna,
serei dilacerado ao mais profundo,
sem que resíduo sequer ainda me sobre.

GRÃOS VAZIOS V

Nem é que queira de teu ventre o gosto
proclamar para todos neste instante.
É que hoje brota o verso extravagante:
sonho de ópio temperado a mosto.

Haxixe e coca, cachimbos de desgosto,
alucinado fiquei, sem nunca, arfante,
ter ingerido os festins que me garante
esta farmácia ilegal à qual exposto

me encontro a cada dia, no ardor bélico
do dealbar em mim, psicodélico
nem do deus que concede a embriaguez.

Não preciso de drogas, sou freguês
do fumo de ti mesma, és marijuana,
lembrança pura que a mente me engalana.

GRÃOS VAZIOS VI

Um besourinho se prende ao meu cabelo:
mensagem tua, sem dúvida, um bilhete
que a murmurar em meu ouvido inflete,
amor perdido em recado de atropelo...

Ouço o sussurro, réstia de desvelo;
pelas antenas a insinuação se mete,
de gesso e de argamassa... Numa enquete
de sinovial sondagem me enovelo.

Um pouco eu busco, à luz de minha vidraça
o farfalhar senil do magro escaravelho:
mostra-me o vidro um rosto taumaturgo.

E uma faixa de cetim por mim perpassa,
mensagem refletida em meu espelho,
não mais do que um crisol, que aflito eu purgo.

GRÃOS VAZIOS VII

São nove vagalumes e um desenho
se destaca no chão ao céu noturno;
são estrelas de giz em dom soturno
e quanto menos olho, mais me atenho.

Não é deste verão que em busca venho;
eu sou de um outro tempo, de outro alburno,
eu sou de um outro espaço e aqui me enfurno,
perdido do universo que retenho.


Nem sei que língua falo neste instante:
o código esqueci dos pirilampos,
do vasto resplendor tornei-me escravo.

De vista aberta, em lágrima brilhante,
enfrento essa esquadrilha em canto bravo
e novos códigos decifro pelos campos.

GRÃOS VAZIOS VIII

Existe sempre um círculo vicioso,
em que amores se transmitem, em ciranda,
sem que o real amor, por mais que expanda,
não esbarre no desejo vigoroso

daquela por que anseia e que, teimoso,
se prende a um terceiro, em outra banda,
atrás do amor da quarta... E a sarabanda
continua nesse mundo caprichoso.

Mas olhe em torno: talvez seja essa quarta
que lança um olhar firme e bem lhe vê,
como o parceiro ideal que tanto quer.

Amor não se controla e não se farta,
mas não precisa dominar você...
Deixe a ciranda agora.   Ou assim que der...

GRÃOS VAZIOS IX

Amor não significa segurança,
nem garantia representa a companhia:
primeiro veja que emoção sentia
a sua parceira; só depois crie esperança.

Mesmo ao dizer que o ama, em esquivança
pode negar-se, por coisas que fazia
e não lhe participa... Assim, o que queria
será de amor somente uma lembrança.

Beijos não são contratos, já foi dito;
muitas vezes, sua esperança se dilui:
todos queremos alguma solidão.

Quem insiste em estar perto, até maldito
poderá ser, que o beijo que se frui
só foi um beijo e não pura emoção.



GRÃOS VAZIOS X

Vou calcular minha vida em três alqueires:
o primeiro é bem grande e nele ponho
os cereais que devolvo a esse medonho
coletar de meu sangue por impostos...

O segundo é o maior desses deveres;
a grande tulha em que cereais deponho:
alimenta a família.  E então, eu sonho,
em guardar a semente de meus gostos

nesse terceiro alqueire, pequenino,
em que não cabe mesmo muito trigo
e tanta vez nem se enche por metade.

É nesse alqueire que guardo o som do sino
que conserva a esperança, em que me abrigo,
de um dia enchê-lo poder, à minha vontade.



GRÃOS VAZIOS XI

Já estou cansado de recontar amores
que me escorrem dos dedos, grãos de areia,
que o fulgor do crepúsculo incendeia,
nas palmas de minhas mãos, em mil temores.

Já estou cansado de relembrar sexores:
a minha quota já tive, que me enleia
na lembrança desses corpos, pele e veia
encadernados em tantos estertores...

Apenas deixo escoar por entre os dedos
essas lembranças minhas (e as de outros),
filtradas por meus ossos, no abandono...

Quanto revelo em meio a tais segredos!
Os relinchos fogosos desses potros
que cavalgam incontidos no meu sono!...





GRÃOS VAZIOS XII

Eu como o Sol a cada refeição,
que é dele que provém todo o alimento;
porém, para emoção e sentimento,
eu busco a Lua, em taças de ilusão...

Eu olho a noite pelo coração,
que tem olhos para ver nesse momento,
bem mais sensatos que o fraco rendimento
dos olhos baços de comum visão...

Assim, eu bebo o Sol e como a Lua,
que me dão seu vigor e nutrição,
melhor que trigo ou carne de animal.

Assumo a natureza, toda nua,
que nos meus braços se faz revelação
desse amor, que sei bem ser irreal.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

DESVAIRANÇA



DESVAIRANÇA I

nessa arcana atração que o corpo tem
da mulher sobre mim, eu não me iludo
com jovenzinhas belas, em que tudo
é a busca fácil de seduzir também...

são inseguras, em geral; porém,
sabem brincar com quem desejo agudo
apenas mostre, mundéu de que me escudo:
não passam de meninas, pouco veem

dos valores verdadeiros desta vida,
não são mais que bonecas de novelas;
prefiro muito mais mulher madura,

que já sofreu, que sabe como é dura
essa armadilha atrás das coisas belas:
quão curto o amor na solidão comprida.


DESVAIRANÇA II

que a górgona me inspire sem tardança!
eu vou brandir espelho de cristal
contra esse olhar que causa tanto mal
e criar esculturas de esperança.

eu vou roubar-lhe a vista, em abastança
e verei pégaso, branco como cal,
sair de seu pescoço, o inatural
cavalo alado da lenda que não cansa.

as serpentes deixarei para perseu:
só quero o olhar de pedra, que perdura
na coda de meus versos, sangue e fonte

e para o mundo inteiro tornar meu,
comporei uma elegia de cor pura,
sobre a sela que furtar a belerofonte!

DESVAIRANÇA III

não tomei qualquer vinho, mas dionyso
embriagou-me hoje e vejo o chão
espelhado e refletindo a multidão
dessas estrelas que a bel-prazer repiso

e nessa bebedeira de meu riso,
torna-se etílico somente o coração,
não que se faça dupla minha visão:
apenas troço de todo o humano siso.

meu sorriso é apenas incisivo:
meus caninos já perderam o seu gume,
meus molares desgastados pela idade.

mas nesse esgar incerto ainda revivo
o quanto existe de doce no azedume
e o quanto é verdadeira a falsidade!


DESVAIRANÇA IV

colinas mornas dos lençóis na alvura,
amarfanhadas pelo amor recente,
marcadas as colinas: ruga quente
nas dobras de lençóis contra a brancura

e o matagal, coloração escura,
que recobre-me o pescoço, em reverente
proteção contra beijos, insistente
o companheiro dessa mata pura

e o riacho que desliza, lentamente,
por sobre essa planície cor de leite,
até perder-se entre as duas colinas,

e o suor aperolado e alvinitente
escorre para o leito, meigo aceite,
perfume dessa união de nossas sinas.


DESVAIRANÇA V

até o ponto que o devaneio alcance
eu serei teu e ainda serás minha:
teu corpo diariamente se avizinha,
para que a angústia, a pouco e pouco, amanse.

e que essa nova atração jamais se canse!
que não haja afecção, não haja tinha
que nos afaste da emaranhada linha
desse abraço em que um corpo  no outro dance!

e que tua pele se abra para mim
e me revista, inteiramente teu:
serei teu filho, como sou amante.

e que minha carne igual se abra assim
e que teu corpo se aconchegue ao meu,
carne com carne, em ritmo incessante.


DESVAIRANÇA VI

sempre que tive uma mulher nos braços,
para sempre guardei um pouco dela:
em cada escuridão, luziu-me a vela
dessa tênue maravilha dos abraços...

se bem nas trevas não recorde os traços
eu a revejo, no espelho da aquarela,
no fundo de meus olhos vejo a estrela,
que me acolheu um dia em seus regaços. 

que nenhuma esqueci; as dadivosas,
tampouco as que não deram nenhum bem:
em minhas narinas conservo seu perfume

e gostaria que de mim fossem saudosas:
lá no fundo de seus olhos eu também,
nessa doçura cingida de azedume.


DESVAIRANÇA VII

quando a Lua se reflete sobre a fonte,
amor desperta, muito facilmente,
de fato, um sentimento independente
de quanto ao coração se nos desponte.

amor não tem alcance que se conte,
nem dimensão, nem força equipolente:
brinca conosco, alegre, tão somente,
sem que as batidas do coração reponte.

a luz da Lua nos entra pelo olhar,
sobre as pupilas se instala firmemente
nos grava um rosto como ferro em brasa.

acha essa imagem permanente lar,
por mais que seja apenas transparente
reflexo vazio em poça rasa...


DESVAIRANÇA VIII

pelo canto dos olhos, um jardim
ou as ruínas de castelo antigo,
talvez a lousa a recobrir jazigo,
quiçá suspeita olorosa de jasmim,

não mais que uma ilusão, que cria assim
um ambiente propício a sonho amigo:
no devaneio, à luz da flor, bendigo
e a cor do vento me percorre, enfim.

talvez até não passe de fantasma
essa mulher que minha mão segura,
uma esperança gravada em água-forte.

mas, para mim, o delírio me entusiasma:
mais que qualquer, essa mulher é pura,
no ocaso breve que me trouxe a sorte.


DESVAIRANÇA IX

talvez, ao proferir o juramento,
o amor repercutisse sem tardança:
tambor a caluniar falsa esperança,
sombra de lua no vazio do firmamento.

depois do sonho, em seu falecimento,
a remanchar somente a desvairança,
o remorso mesclado de esquivança,
a mágoa parda do quebrantamento.

mas a recordo ainda, essa macia
sombra em minhas mãos, toque bem leve,
gravado a sangue no meu coração

e sei que ainda me lembra, em nostalgia
por tudo o que se foi e que foi breve,
concreto apenas na recordação.



DESVAIRANÇA X

um meteoro me rasgou tranquilidade,
um tsunami a recobrir as praias,
um terremoto zurzindo como vaias,
uma avalanche de irrestibilidade.

tal é o amor, instante de vaidade,
em que vaidade esconde as verdes raias,
em que rancores descansam em suas baias
e em que o próprio ciúme é opacidade.

mas depois, eles vêm, quando a torrente
se transformou em fino riachinho
e se tranquilizou o coração.

porque é na calma que borbulha a mente,
efervescente à luz do burburinho,
que emudece a voz meiga da canção.



DESVAIRANÇA XI

porém dizer que amor seja infinito,
perene a luz de sua perseverança,
é uma tolice que a alma nos alcança,
apenas eco do lastimável grito

da criança no berço, o som aflito
de quem procura na mãe a segurança,
pois quem adulto for, sem mais tardança
reconhece que por mais seja bonito

esse ardor que o corpo inteiro invade,
não pode conservar sua persistência,
de forma inteiramente perdurável,

porque qualquer que ao tempo sobrenade,
saberá, consultando sua consciência,
que por um só momento é interminável.



DESVAIRANÇA XII

pois sempre existe um fim para a canção
e nem por isso se torna menos bela.
o crepúsculo não some se a janela
foi fechada por tédio ou por paixão.

assim o amor, em sua exaltação,
no desvario pleno, é caravela
que enfrenta as ondas em qualquer procela
e encontra no naufrágio sua razão.

que seja amor assim a desvairança,
a corrida veloz para a miragem,
a busca inútil pela eternidade...

ainda o buscarei, onde se alcança,
na primavera pressuposta da paisagem,
a cada ano que o inverno nos invade.