sábado, 24 de março de 2012

O TERCEIRO HÓSPEDE


(Folclore Mexicano, recolhido por B. Traven)
                                 (Versão poética de William Lagos, 15/12/12)


O TERCEIRO HÓSPEDE I

No velho México, há uns duzentos anos,
habitava um pobre e triste lenhador,
que se esforçava no seu árduo labor.

Todos os dias até a noite trabalhava
e lá no fundo das matas procurava
as árvores caídas, sem enganos,

cuja madeira já se achava ressequida
e com machete era fácil de cortar,
sem precisar em demasia se esforçar.

Nunca pudera um machado adquirir:
aquela lâmina de aço, a reluzir,
custar-lhe-ia muitos meses de sua vida.

De fato, por muito tempo só pudera
catar os galhos secos e vender
os grandes feixes que podia entretecer

com as lianas encontradas pela mata,
porém um dia, enquanto andava à cata,
vira o facão que alguém por lá perdera.

O TERCEIRO HÓSPEDE II

De certo modo, fora preservada
a lâmina de aço, sem ferrugem,
o cabo desfizera-se em penugem...

Mas com uma navalha, foi serrando
um galho rijo e um cabo afeiçoando,
sua vida desde então facilitada.

O lenhador, cujo nome era Macário,
teve sua obra bem depressa melhorada,
muito mais lenha logo era cortada...

Ele dispunha de uma pedra de amolar,
que achara, pela estrada a caminhar:
servia bem para seu uso diário.

Ele afiava o machete com carinho,
a lâmina brilhando pouco a pouco,
pois se esfalfava no trabalho feito louco.

Prendeu o cabo firme com embira,
trançada bem, amarrada como tira,
mas a lâmina cedia ainda um pouquinho...

O TERCEIRO HÓSPEDE III

Então Macário encontrou um galho duro,
mas de haste bem fina e foi serrando:
fez dois tarugos e depois foi empurrando

nos buracos em que um dia houvera pregos
e no cabo que cortara, abriu dois regos,
enfiando uma cavilha em cada furo,

para cortar depois, pacientemente,
de cada lado, a ponta que sobrara;
fizera inchar o pedaço que ficara,

pondo-lhe água até ficar bem preso,
deixando o cabo perfeitamente teso
e capaz de aguentar golpe potente.

Foi desse modo que Macário conseguiu
um excelente instrumento de trabalho,
com que podia cortar um grosso galho

e aumentou suas cargas, bem contente,
vendendo, por um preço diferente,
cada acha grossa que agora produzia...

O TERCEIRO HÓSPEDE IV

Mas embora sua renda melhorasse,
seus filhos aumentaram mais depressa:
teve dez, teve doze; e depois dessa,

procurou ficar longe da mulher:
não poderia sustentar, com seu mister,
mais nenhum filho que ela lhe gerasse.

Todos os dias comia raízes e frutinhas
e fizera uma vasilha de taquara,
comprida e grossa, carregada numa vara,

que de água enchia; e assim, a toda hora,
a fome se enganava e ia embora,
enquanto mastigava umas folhinhas.

E às vezes, conseguia roubar mel,
enxotando as abelhas da colmeia,
que levava para a esposa, Rosicleia,

com as frutas que pudesse carregar,
e que seus filhos vinham logo disputar,
breve consolo para o amargor de fel...

O TERCEIRO HÓSPEDE V

Já em casa, depois de se banhar,
ia sentar-se, finalmente, à mesa.
Sua mulher lhe servia, com certeza,

uma tigela de batatas com feijão,
mas via os filhos e só de compaixão,
a maior parte acabava por lhes dar.

E enquanto as crianças disputavam
e a mulher o olhava, consternada,
ele fazia uma prece apaixonada:

“Ai, meu Deus, eu queria só pra mim
um peru inteiro, para comer assim,
sem precisar dividir com os que me olhavam!”

Depois, ia dormir, louco de fome,
mas o ditado diz: “Quem dorme, janta...”
E antes da hora em que passarinho canta,

vai ele encher no poço sua taquara,
prender ao cinto o facão por uma apara,
e logo, logo, pela mata some...

O TERCEIRO HÓSPEDE VI

E a história se repete, diariamente:
ele traz o quanto pode para casa,
mas a panela fica sempre rasa...

A comida nunca chega para tantos
e ele lenha, por trancos e barrancos,
dando o dinheiro a Rosicleia inteiramente.

Mas na hora de comer, a criançada,
que comeu pouco e ainda está faminta,
nada lhe pede, mas fazem que ele sinta,

com a força de seus olhos esgazeados
e ele cede sua tigela aos esfomeados,
comendo muito pouco ou quase nada!

E sempre ergue seus braços para o céu:
“Ai, meu Deus, eu queria só pra mim
um peru inteiro, para comer assim!...”

Logo em seguida, se joga a ressonar,
a fome adiando, sem poder matar,
nessa tristeza que o envolve como um véu.

O TERCEIRO HÓSPEDE VII

Um dia, ao acordar de madrugada,
Sentiu um cheiro de peru assado,
Mas a seguir se virou para o outro lado...

É só um sonho bom... fica a pensar.
Pouco depois, quando vai levantar,
chega sua esposa, com jeito de cansada

e lhe entrega alguma coisa bem pesada,
envolta numa toalha: “Vai embora,
antes que acordem as crianças nesta hora.”

“Este é o peru que tanto desejavas:
eu fui juntando o dinheiro que me davas,
come-o inteiro e não deixes dele nada...”

“Mas e tu, não comes um pedaço?”
“Se eu tirar, não será um peru inteiro.
Eu me esforcei e levantei primeiro...”

“Quero que o comas todo, integralmente.
Há muitos anos quero dar-te este presente:
vai comer, com meu amor e meu abraço!...”

O TERCEIRO HÓSPEDE VIII

“Mas, e as crianças?” perguntou Macário.
“É teu trabalho que lhes dá comida;
é muito justo, que uma vez na vida,

possas comer o teu peru inteiro.
Mas agora, pega logo e sai ligeiro,
tens de cumprir o teu labor diário...”

Macário agradeceu, profusamente,
e despediu-se da esposa, com um beijo.
Andava rápido, movido por desejo...

O peru estava quente no seu braço:
“Ah, comeria, sem deixar um traço!
O seu estômago cheio, finalmente!...

Assim pensando, se embrenhou no mato,
até chegar à clareira, muito urgente,
em que estava trabalhando, ultimamente.

O seu peru pendurou firme num galho
e passou toda a manhã no seu trabalho,
água na boca, pelo peru em seu prato!

O TERCEIRO HÓSPEDE IX
 
Depois, lavou-se na água do riacho
e então sentou-se para abrir sua toalha:
o alimento recompensa a quem trabalha...

Ficou sentindo o cheiro delicioso.
Nunca vira peru assado mais formoso:
Nem no espeto, nem no forno e nem no tacho!

Examinou seu peru, antegozando
o sabor de sua carne e seu tutano,
para guardar na lembrança mais de ano.

Ergueu as mãos para dar graças a Deus,
que cedo ou tarde ajuda os que são seus
e com uma folha foi a lâmina limpando.

Mas no momento em que ia dar-lhe um talho,
apareceu perante ele um peregrino,
blusa branca de peão, seu rosto fino...

E lhe pediu, bastante meigamente:
“Meu amigo, corro a terra diariamente:
dê-me um pedaço de peru por meu trabalho...”

O TERCEIRO HÓSPEDE X

Macário logo viu não ser qualquer
o viajante que surgira de repente:
era o próprio Jesus, ali presente.

Descia à Terra, para fazer o bem
e que decerto auxiliara também,
na compra do peru, a sua mulher...

Andava esfarrapado e quase nu
e parecia estar com fome, realmente,
mas Macário não estava complacente.

“Para eu poder comer esta ave inteira,
minha esposa se esfalfou, trabalhadeira:
não posso dar-lhe um pedaço do peru!”

El Peregrino suspirou de compaixão:
“Está certo, meu amigo, passe bem,
que algumas frutas eu acharei, também.”

“Dou-lhe minha bênção e todo o meu carinho;
Aproveite o seu peru; não sou mesquinho.”
E deu-lhe as costas, em comiseração. 

O TERCEIRO HÓSPEDE XI

Sentiu algum remorso o lenhador,
mas Rosicleia se esforçara tanto!
Podia ver-lhe as lágrimas de pranto,

quando lhe pode entregar o seu presente
e como ele ficaria indiferente?
Preparara-lhe o peru com tanto amor!

Ergueu os braços para a Deus agradecer
e levantou bem depressa o seu facão...
Mas uma sombra lhe cobriu a mão!...

Ergueu os olhos, cheio de surpresa:
chegara outro, de oposta natureza,
bem alto e magro, de estranho parecer...

Como a de um Charro era sua vestimenta:
um salteador, que percorria a Terra,
todo de negro, vestido para a guerra,

moedas lhe pendiam do chapéu
e bem depressa, dissipou-se o véu:
era o diabo, que todo o cristão tenta!

O TERCEIRO HÓSPEDE XII

“Estou com fome, meu querido amigo,
dê-me um pedaço desse seu peru!”
Macário percebeu-lhe o olhar cru,

sua maldade refletida em ameaça,
porém julgou possuir de Deus a graça
e não mostrou temor ao inimigo...

“Lamento muito, mas vai-me desculpar;
minha esposa passou a noite cozinhando,
para eu comer sozinho se esforçando.”

“Não reparti com ela ou com meus filhos:
volte depressa a seus estranhos trilhos,
pois nem um pedacinho vou-lhe dar!...”

El Charro praguejou e foi-se embora,
ameaçando fazer-lhe grande mal.
Sabia Macário que tal ser infernal

só poderia vencê-lo em tentação
e com fervor, dirigiu nova oração
para que os céus o protegessem nessa hora!

O TERCEIRO HÓSPEDE XIII

Mas no momento em que o peru ia partir,
uma terceira figura apareceu
que, num relance, logo conheceu,

com sua sotaina negra e sua gadanha,
que mil vidas cortara na sua sanha,
que ele era a Morte pode logo deduzir!...

“Eu sou El Magro,” disse-lhe a figura.
“Vai querer dar-me um pedaço de peru?”
A ambição lhe marcava o rosto nu

e Macário já não podia recusar,
porque, no mínimo, poderia adiar,
por algum tempo, sua morte já segura...

“Pois venha, então, para me acompanhar,”
falou o lenhador, logo em seguida.
Se ele morresse, quem daria comida

a tantas bocas que em casa o aguardavam?
E logo todos dois se banqueteavam,
cada um a sua metade a mastigar...

O TERCEIRO HÓSPEDE XIV

Meio peru, na verdade, lhe bastou:
seu estômago era pequeno e encolhido
e a ave inteira nem teria comido

e alegrou-se seu estranho companheiro,
após comerem os dois peru inteiro
e na sotaina as mãos ele limpou...

“Há muitos séculos não comia tão bem!
Vocês, humanos, me tratam muito mal.
Que tenham medo de mim, é natural,

pois nunca sabem o que espera do outro lado;
cada um teme o castigo do pecado
e muitos deles têm razão também!...”

“Porém você tratou-me hoje diferente.
Para você, morrer seria descanso,
de mim seu medo realmente é manso...”

“É por seus filhos sua preocupação
e só por isso, vou mostrar-lhe compaixão
e lhe darei um tesouro bem potente!”

O TERCEIRO HÓSPEDE XV

“Dê-me a taquara em que guarda sua água!”
Macário obedeceu, sem nem pensar.
De um só trago viu El Magro a esvaziar.

Podia enchê-la no riacho, facilmente,
mas o outro tinha intenção bem diferente
e o contemplou com expressão de mágoa.

“Vai-me levar ao Paraíso, em recompensa?
E quem irá cuidar de minha mulher
e de meus filhos, sem este meu mister?”

“Ou quem fazer com que morram de fome?
São jovens vidas que você mais come!...”
Disse-lhe El Magro: “Não é o que você pensa.”

E levantou-se, batendo com o pé,
aqui e ali e pelo chão cuspindo...
Macário persignou-se.  Estava findo

Esse breve adiamento que alcançara;
pensava ver que El Magro se zangara
e encomendou-se a Deus, com muita fé.

O TERCEIRO HÓSPEDE XVI

Mas de repente, viu quando jorrou
uma fonte na clareira, de água pura:
nela inclinou-se a estranha criatura

e sua taquara encheu inteiramente.
A fonte cessou de fluir, incontinenti!
E o viajante para ele retornou.

“Nem toda morte tem de ser obrigatória,”
disse ele, com os olhos reluzindo.
“Eu sei que poucas vezes sou bem-vindo.”

“Sempre apareço em caso de doença
e dependendo do poder da crença,
as almas levo para o Inferno ou a Glória!”

“Mas agora, eu lhe dou a Água da Vida!
Caso me encontre postado à cabeceira,
a morte da pessoa é bem certeira...”

“Mas se estiver aos pés, eu posso adiar:
basta uma gota e posso me afastar
e conceder-lhe uma certa sobrevida...”

O TERCEIRO HÓSPEDE XVII

“Porém da água se aproveite bem,
que é quanto lhe darei por seu peru.
Só você poderá ver-me a olho nu.”

“Se me encontrar parado aos pés da cama,
num copo uma só gota se derrama.
Encha depois com mais água também.”

“Pois quem bebê-la, logo sarará!
Mas veja bem onde está seu benefício:
nunca cobre, porque será um vício!...”

“Porém todos presentes lhe darão
e à porta de sua casa lhos trarão
e facilmente, você enriquecerá...”

“Mas de novo, se me achar à cabeceira,
diga logo à família, francamente,
que vão chamar o padre, prontamente,

Para que lhe administre a extrema-unção.
Não desperdice água, que esses vão,
bem certamente, à sua morada derradeira...”

O TERCEIRO HÓSPEDE XVIII

O seu Terceiro Hóspede partiu
e Macário até pensou ter sido um sonho.
Olhou os ossos do peru, tristonho...

Comera, realmente, só a metade?
Mas na barriga sentia saciedade
e os ossinhos na toalha ele reuniu.

Pois serviriam para engrossar a sopa.
Durante a tarde toda, cortou lenha,
pois come bem quem energia tenha.

Pôs na cabeça um feixe muito grosso,
sentia estar uns dez anos mais moço,
músculos fortes a lhe esticar a roupa...

Mas na viagem de volta, duvidava,
pensou até em beber aquela água,
pela metade do peru sentindo mágoa.

Mas era inverno e sua sede era pouca.
Chegando em casa, viu a esposa quase louca
e perguntou-lhe por que ela chorava...

O TERCEIRO HÓSPEDE XIX

“É o Reginito,” disse ela, em desespero.
“Está doente, acho que vai morrer!...”
Chegando à esteira, pode logo perceber.

El Magro estava perante os pés parado!
Por um instante, ficou atarantado
e o outro o contemplou, de olhar severo...

Pediu uma cuia d’água e lha trouxeram
e dentro dela um pouco da água derramou;
deu-a à criança, que logo após sarou...

Contudo, o olhar de El Magro lhe fez ver
que água demais ali fora verter
e bem depressa ambos se entenderam.

Foi Macário cortar outra taquara,
que encheu inteira, tirando água do poço;
guardou a outra em seu telhado grosso.

Que era feito de bambu e de sapé.
Na água mágica, agora tinha fé:
“Não mexam nela!” falou, com voz bem clara.

O TERCEIRO HÓSPEDE XX

Mas os vizinhos que em sua casa estavam,
para a pobre Rosicleia consolar,
viram o menino depressa se curar.

E entre si ficaram cochichando...
Já no outro dia, o estavam procurando:
em sua rua outros doentes se encontravam.

Macário, no começo, recusava,
mas sua mulher se pôs a insistir tanto,
que teve pena de escutar-lhe o pranto.

Foi visitar as outras casas em sua rua.
Parado aos pés de cada esteira nua
El Magro sorridente se encontrava.

Macário então pedia um recipiente,
caneca ou xícara ─ e nelas derramava
uma pequena gota e a misturava

com qualquer água que por ali tivessem,
porque depois que os doentes a bebessem,
sempre sua cura chegava, de repente.

O TERCEIRO HÓSPEDE XXI

Todos ficavam muito agradecidos
e lhe traziam os presentes que podiam,
pois a cura quase todos conseguiam.

Porém se via El Magro à cabeceira,
ele dizia que a morte era certeira
e recusava todos os pedidos...

Passou-se o tempo, seus filhos estudaram,
Macário comprou nova moradia,
a cortar lenha nem sequer mais ia...

Pois a promessa de El Magro se cumprira!
E o pagamento que ele jamais pedira,
esses presentes amplamente compensaram.

Sua fama se espalhou pela cidade,
pela província e no país inteiro.
Diziam os médicos que era um feiticeiro.

Mas ele ia à missa com frequência
e os padres lhe mostravam deferência,
pois contribuía com regularidade...

O TERCEIRO HÓSPEDE XXII

Chegou-lhe a fama até o governador,
que tinha o título, então, de vice-rei
e governava o país com dura lei!...

Os cirurgiões se queixavam de Macário,
porque lhes reduzia o numerário
e o vice-rei os escutava, sem rancor.

Mas quando viu sua filha se enfermar
e os médicos não podiam fazer nada,
sua esposa fez-lhe súplica, alarmada!

“Você me pede ir chamar um curandeiro?
Que quer você com esse feiticeiro?”
“Acho que pode a menina nos salvar!”

Então, o vice-rei fez convocar
Macário, a que viesse à capital...
Este sabia não ter feito nenhum mal.

Porém tremeu de medo o lenhador:
levou consigo a taquara, com temor;
só um restinho no fundo a chocalhar...

O TERCEIRO HÓSPEDE XXIII

E lhe disse o vice-rei, severamente:
“Não acredito em sua bruxaria!
Mas minha filha se acha em agonia.”

“E minha esposa está desesperada.
Pois muito bem: se a deixar curada,
Dou-lhe grandes riquezas de presente.”

“Porém se ela morrer, como se espera,
saberei que não passa de um farsante
e o queimarei na fogueira nesse instante!”

“E seus bens eu irei todos confiscar.
A sua família prenderei para julgar!...”
Macário, só de ouvir, se desespera...

E ao ser levado ao quarto da menina,
o seu maior temor se realizou:
na cabeceira El Magro ele encontrou.

Que balançou-lhe a cabeça, em negativa.
“Esta menina não mais pode ficar viva,
está escrito que morrer será sua sina!...”
O TERCEIRO HÓSPEDE XXIV

Pediu Macário para ficar sozinho,
porque El Magro era só ele que via:
a mãe saiu, em grande gritaria...

E o vice-rei outra vez o advertiu:
as ameaças o próprio El Magro ouviu,
mas abanou sua cabeça, de mansinho...

Macário várias vezes suplicou,
pois perderia tudo o que lhe dera!
Zangou-se então, igual que besta-fera.

Virou a cama, bem rapidamente,
para deixá-lo aos pés, mas velozmente,
à cabeceira, El Magro se encontrou!

Ele tentou de novo, sacudindo
a cama inteira, até deixá-la torta!
Mas a menina já se achava morta...

E cada vez que a cama ele virava,
na cabeceira El Magro já pulava
e o vice-rei o barulho estava ouvindo!
O TERCEIRO HÓSPEDE XXV

E de repente, Macário percebeu
que a taquara na disputa se quebrara!
E que todo o conteúdo se esvaziara...

Então, exausto, caiu no chão, chorando.
Ficou El Magro, com pena, o contemplando
e seu velho coração se confrangeu...

“Meu amigo, fiz mal em lhe ajudar...
Nem mesmo eu posso vencer o Fado,
por mais que eu estivesse do seu lado...”

“O Destino sempre vem a se cumprir
e foi tolice sua, ao persistir,
depois que eu disse que não iria adiantar...”

“Mas eu sei bem o que irá lhe acontecer
e não quero que esse duro vice-rei
faça cumprir a sua perversa lei...”

“Não quero vê-lo queimado na fogueira.
Mas a morte da menina é verdadeira,
só há uma coisa que posso lhe fazer...”
O TERCEIRO HÓSPEDE XXVI

Então El Magro tocou-o sobre a testa
e tudo a seu redor se dissipou...
Macário na clareira se encontrou,

bem no momento em que partira seu peru.
E mesmo achando que ficara um pouco cru,
comeu-o inteiro, em verdadeira festa...

E só então El Magro apareceu...
Por um momento, Macário se lembrou;
logo depois, sua vista se apagou.

Cheio de pena, ele o tocou com a foice
e para vida melhor Macário foi-se,
mas com o estômago cheio ele morreu...

É sempre assim, quando nos chega a hora.
A maldição de El Charro se cumpriu,
de El Peregrino a bênção o nutriu...

Pois foi levado direto ao Paraíso,
nesse lugar em que há alegria e riso
e do qual nunca mais se vai embora...

EPÍLOGO

Reginito, porém, nem adoeceu
e a família inteira se criou:
cada vizinho um pouco os ajudou.

E quando acharam Macário na clareira,
comera até a migalha derradeira
o peru gordo que sua mulher lhe deu...

sábado, 17 de março de 2012

DADOS VICIADOS




DADOS VICIADOS I  (9/12/2008

Não esperava que este final de ano
aborrecido se tornasse assim.
Muito já fiz durante o ano, enfim,
sem resultar-me mais que desengano.

Soma-se a tudo o mais que desumano
calor que em nada serve para mim,
senão para amurchar o meu jardim
e despertar em mim verso profano.

E a todas essas, ela me dá carinho,
como não dava há anos, surpreendente
o seu afeto gentil e a sua paciência.

Será o preço a pagar?  Que veja o ninho
desfeito ramo a ramo inconsequente,
queimado pelo gelo dessa ardência?

DADOS VICIADOS II (17 abr 11)

Por estranho que seja, não é a primeira
vez que isso comigo me acontece.
Esse inverso resultado de uma prece,
essa malícia que me surge derradeira.

Esse preço a pagar, flecha certeira,
sempre me surge quando bênção desce.
Uma fatura, talvez, que a teia tece
e um pagamento bem maior requeira.

É como se estivesse na balança
e num prato depusesse todo o amor,
ficando o outro a pesar prosperidade,

que a cada vez que mais valor alcança,
requer diminuição do outro vigor,
tal qual arcana contabilidade...

DADOS VICIADOS III

Já muitas vezes encontrei no outrora
isso que chamam de felicidade,
quando em amor se transforma uma amizade,
nesse prazer inesperado de uma hora.

Ao mesmo tempo, o dinheiro vai-se embora:
cessam as fontes da prosperidade.
A balança sente o peso da vaidade
e o peso do trabalho assim desdoura.

Então surge mais trabalho, mas o amor
escoa devagar... e sobe o prato,
muito mais raras as mostras de carinho.

Como se alguém sopesasse, em seu rancor,
o meu destino, sem permitir de fato
um incremento dentro em meu ninho.

DADOS VICIADOS IV

Mas não se trata, certamente, de justiça:
o efeito é muito mais de zombaria,
tal qual se meu guardião só ironia
demonstrasse pelo esforço de minha liça.

Sem respeitar a norma mais castiça
de que riqueza a gente mesmo cria,
pela força do labor em que se fia,
porém se atrasa a gente mais remissa...

Diz o ditado: "Ajuda-te a ti mesmo
e Deus te ajudará" -- pérfida ética.
Sei que trabalho bem mais que a maioria.

Não deveria, portanto, pôr a esmo
os resultados de minha dialética,
para ajudar a quem favor pedia...?

DADOS VICIADOS V

Será essa a lição?  Que vire egoísta,
que me recuse a com os outros repartir?
Que buscar deva somente o meu porvir
e guardar para mim toda a conquista?

Que a cada outeiro de que galgar a crista
eu deixe para trás, sem permitir
que me acompanhe quem busca seu nutrir?
Que não exista lugar para o altruísta?

Pois ao redor de mim, vejo ambição,
a maioria aos outros explorando,
para poder a si locupletar...

E a mim enoja essa competição:
vou facilmente aos outros ajudando,
sem o menor retorno a lhes cobrar...

DADOS VICIADOS VI

Mas me rebelo contra este julgamento.
Não se trata de culpa, nem castigo,
de karma ou dharma sem qualquer abrigo:
eu só recebo a indiferença do momento.

A boa ação sempre traz um pagamento
na peculiar doçura que consigo
ou no amargor, quando a fazer me obrigo:
somente o mal não cai no esquecimento.

E assim eu sei que a balança me é infiel.
Ninguém me disse que o mundo seria justo,
nem acredito me atendam qualquer prece

que já não pretendessem... e que o anel
do arco-íris não compensa o alto custo
dessa enxurrada em que um amor perece.                

segunda-feira, 5 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO




CALEIDOSCÓPIO  I  (16 abr 11)
(para Iracy e Mimosa Germano)

Antigamente, quando era menino,
tinha brinquedos que chamavam de "teteia":
eram caleidoscópios, com sua teia
de espelhos e pedrinhas coloridas...

Quando girava o tubo pequenino,
esses vidrilhos percorriam odisseia
e a cada movimento, nova aleia
se formava em suas imagens repetidas...

O fundo era de vidro e entrava luz.
E ali ficava, por horas entretido,
até que esse brinquedo era perdido.

O tubo se amolgava e então se abria,
quebrava o vidro que a mágica conduz
e toda imagem no passado se escondia.

CALEIDOSCÓPIO II

Tive várias "teteias".   Em geral,
uma senhora me trazia do Uruguai,
em busca dessa luz que do olhar sai
de uma criança em êxtase final...

Mais tarde, essa magia artificial
busquei para meus filhos. "Contemplai,
por este óculo, uma visão que vai
a todos distrair sem fazer mal..."

Eu pretendia dizer, em minha vaidade
de partilhar o passado com o futuro:
cessou-me a busca em desapontamento.

Nunca mais vi "teteias", na verdade,
nem no comércio ou artesanato puro,
só sobrevivem no meu pensamento.

CALEIDOSCÓPIO III

E ao contemplar esta libélula pousada,
sobre uma poça, em tensão superficial,
de uma lâmina de água, fantasmal,
a gravidade como que anulada,

as quatro asas em imagem espelhada,
duas azuis, duas salmão, cor estival,
num movimento constante e natural,
na superfície sua beleza retomada,

em suavidade mansa como um leque,
um abanico de plumas e de seda,
sem receio qualquer de se afogar,

sem precisar sequer que as patas seque,
caleidoscópica memória então me enreda,
seus grandes olhos a me fascinar...

CALEIDOSCÓPIO IV

E ela me olha, em lenta avaliação:
são duas contas de fulgor arredondado.
O sentimento por mim foi emprestado,
mas me parece, em minha projeção,

decifrar nelas melancólica visão,
uma tristeza de teor atarantado,
vistas brilhantes, em suplício alado,
quase implorando por minha compaixão.

Mas mostra a boca dentinhos recortados...
Talvez o brilho seja só o do flash...
Tem uma mitra tricolor em sua cabeça.

Quiçá calcule os botes apressados,
enquanto o corpo inteiro mal se mexe,
salvo essas asas de textura espessa.

CALEIDOSCÓPIO V

E me contempla, com rosto de duende,
na mitra multicor, sabedoria.
Sacerdotisa de uma antiga orgia,
o longo corpo para trás estende...

E tal olhar mesmérico me prende:
ouço a mensagem que minha mente cria,
nessa insistência de minha desvalia
que a busca vã das fadas ainda atende.

Será mágico afinal o quadrialado
serzinho desprovido de pecado,
que, como um deus, caminha sobre o mar?

Ou vejo apenas miragem do luar...
Não há mensagem, apenas um enfado,
que já projeta essa libélula no ar...

CALEIDOSCÓPIO VI

Essa libélula é reflexo da vida:
sem o bater das asas, vai afundar.
Após molhada, não pode se safar:
é seu castigo por ser tão atrevida.

Bem no fundo de meu peito tem guarida
um coração, que bate sem parar...
Somente um susto poderá afetar
a ritmada percussão dessa batida...

Sem o pulsar do coração, porém,
há de cessar meu próprio atrevimento
de esvoaçar pelo mundo material.

E, qual o inseto, afundarei também,
deixado em verso só mais um pensamento,
para depois me dissolver em sal.


Veja também minha "escrivaninha" em Recanto das Letras > Autores > W > Williamlagos e o site Brasilemversos > Brasilemversos-rs, em que coloco poemas meus e de muitos outros autores.
Edição e postagem: Andréia Macedo