quarta-feira, 7 de setembro de 2022


 

 

NIMROD E ABIRAM

Texto Poético de William Lagos,

inspirado pelo livro de Gênesis

 

NIMROD E ABIRAM 1

4 FEV 2022

 

NÃO SE PODE ESPERAR QUE NIMROD, O CAÇADOR,

FLECHAS LANÇASSE CONTRA O SUPREMO DEUS;

TINHA, AFINAL, TANTOS ÍDOLOS ENTRE OS SEUS,

QUE PODERIA DESAFIAR EM SEU ARDOR;

MAS CERTAMENTE, PELO ORGULHO NO PENDOR,

NÃO TENTARIA A MARDUK, SENHOR DA TEMPESTADE,

ATACAR, POR MAIS QUE CRESSE DE VERDADE

PODER FLECHAR O VENTO FRIO, SIBILADOR?

 

MAS SUA MANEIRA DE AO VENTO DESAFIAR

FOI BEM DIVERSA, GRANDE TORRE CONSTRUIU;

MESMO POTENTE, MARDUK NÃO A DERRUÍU:

REUNIDO O POVO, ELE A FAZIA ELEVAR

E AOS MERLÕES DA TORRE ELE SE ALÇAVA

E DAS AMEIAS LANÇAVA SEUS RECLAMES,

DAS MAIS ÍNGREMES ALTURAS DOS ANDAIMES

CONTRA AS RÁFAGAS RIA NIMROD E DECLAMAVA!

 

MAS O VENTO SIMPLESMENTE O IGNORAVA,

POR MAIS BUSCASSE SEU PODER DESAFIAR,

LIMITOU-SE O DEUS MARDUK A ASSOPRAR

E SEUS CABELOS E BARBAS ARREPIAVA;

EM VÃO NIMROD A LANÇAR SETAS AO VENTO,

QUE SE ABRIA E SIMPLESMENTE AS DESVIAVA

SOMENTE AO ENTORNO DA TORRE SIBILAVA,

TRANSPARENTE E MELANCÓLICO PORTENTO...

 

MANDOU NIMROD SEU ZIGGURAT MAIS ERGUER,

SUAS BASES PRECISANDO DE AMPLIAR,

JÁ OCUPANDO POR DEMAIS LUGAR,

CASAS E PRAÇAS DESTARTE A DESFAZER

E LÁ DO ALTO AINDA MARDUK INDIFERENTE

 NEM TEMPESTADE ESBATIA NAS PAREDES,

SÓ ENVOLVENDO SEUS TIJOLOS COMO REDES,

ASSOVIANDO EM SEUS OUVIDOS, INCLEMENTE.

 

ENTÃO NIMROD CONTEMPLOU, AO LONGE, A TERRA,

NIMMURSAYA DESPERTANDO SEU DESEJO,

FLECHAS LANÇANDO A SEU REDOR SEM PEJO,

SEM CONSEGUIR ATINGIR SEQUER A SERRA;

SEU BRAÇO ERA POTENTE E ADMIRÁVEL,

MAS NIMMURSAYA, A GRANDE MÃE DO SOLO,

SOMENTE O ENCARAVA SEM CONSOLO,

SEM QUE JULGASSE SUA FACE CONDENÁVEL.

 

ENTÃO NIMROD DESCEU DA GRANDE TORRE

SEUS ESCRAVOS MAIS A TORRE A ELEVAR,

E FOI AO DEUS DA ÁGUA DESAFIAR,

TOMANDO UM BARCO QUE SOBRE AS ONDAS CORRE,

MAS APENAS PODE ARPOAR ALGUNS PEIXINHOS,

ERAM DEZENAS DE FATO E SABOROSOS,

ALIMENTO PARA SEUS SERVOS FERVOROSOS,

MAS AS ÁGUAS A SE AFASTAR DE SEUS CAMINHOS.

 

ENKI, O DEUS, DELE RIA ZOMBETEIRO,

POIS QUALQUER SETA QUE NAS ÁGUAS DISPARASSE,

NÃO IMPORTA O PODER COM QUE A LANÇASSE,

LOGO PERDIA O SEU RITMO CERTEIRO;

E NEM SEQUER TENTOU-O SOSSOBRAR,

MAS AS ÁGUAS DO RIO LÁ CONTINUARAM,

A SUA BARCA APENAS BALOUÇARAM,

EM SEU DESTINO CONSTANTE PARA O MAR.

 

VOLTOU À TERRA, JÁ DESCOROÇOADO,

MAS NO ENTRETANTO, ENKI SEDUZIA

A NIMMURSAYA E JÁ A TERRA PRODUZIA

OS ANIMAIS QUE HAVIA DESEJADO

E ENTÃO NIMROD BUSCOU DESFIAR

AO DEUS DUMUZI, QUE CHAMAVAM DE PASTOR,

MUITAS PRESAS ABATENDO EM SEU ARDOR,

COM SUAS FLECHAS AS INDO ASSASSINAR!

 

NIMROD E ABIRAM 2

5 FEV 2022

 

TAMBÉM DUMUZI, DE IGUAL MODO, O IGNOROU

E PARA CADA GAZELA QUE ABATIA,

MAIS DE UMA DÚZIA DE OUTRAS PRODUZIA

E NIMROD, FINALMENTE, SE CANSOU;

SEU ZIGGURAT CADA VEZ MAIS ALTO,

JÁ DUVIDAVAM SEUS HÁBEIS ENGENHEIROS

QUE OS TIJOLOS QUE QUEIMAVAM NOS TERREIROS

DAS OLARIAS SUPORTASSEM TAL RESSALTO.

 

MAS NIMROD DE NOVO SUBIU ALACREMENTE,

A PROCURAR PARA SI UM NOVO ALVO,

LA ESTAVA SHAMASH, LOURO E A SALVO,

PARA SUAS FLECHAS DEMASIADO QUENTE

E AO CONTEMPLAR DE NOITE A ISHTAR,

A EXTREMAMENTE FORMOSA LUA DE PRATA,

NENHUM DESAFIO CONTRA A DEUSA DESATA,

IGUAL SABIA NÃO A PODER TOCAR...

 

RESTAVA OUTRO DEUS PASTOR, SIN DAS ESTRELAS

E BEM NO ALTO DA ORGULHOSA CONSTRUÇÃO,

DISTENDEU O ARCO COM SUA FORTE MÃO,

MIRANDO EM DIREÇÃO DAS TRÊS MAIS BELAS;

MAS DESTA VEZ AS ESTRELAS FEZ SANGRAREM,

VIU SUAS CHISPAS DE LUZ NA ESCURIDÃO,

CADA FLECHADA A PRODUZIR CLARÃO,

SUAS AMBIÇÕES DESMEDIDAS A MARCAREM!

 

FOI ASSETENDO ASSIM, UMA POR UMA,

O CÉU POVOANDO DE ESTRELAS CADENTES!

SIN ACORDOU-SE E OS RAIOS SEUS, FREMENTES,

PREPAROU CONTRA O REI QUE A AÇÃO RESUMA

E NUM RELÂMPAGO, ATINGIU DIRETO O CUME,

O EDIFÍCIO A ABALAR DOS ALICERCES,

DE NIMROD OS MANTOS A CHAMUSCAR BEM CERCES,

SUA BARBA E SEU CABELO ENVOLTO EM LUME!

 

MAS ERA ISSO JUSTAMENTE QUE QUERIA

E SUAS FARPAS NÃO CESSAVA DE LANÇAR,

ATÉ UM NOVO CORISCO O ATRAVESSAR,

QUANDO SUA TORRE INTEIRA DERRUÍA!

SEU POVO E SEUS ESCRAVOS DESLOCANDO,

CADA QUAL A PARTIR PARA SEU LADO;

O ATREVIDO, MESMO AINDA DESPENCADO,

DURANTE A QUEDA O CARCAZ TODO ESVAZIANDO!

 

E SIN MOSTROU-SE ATÉ MESMO ADMIRADO,

POIS AS ESTRELAS OFENDIA EM TAL AÇÃO

E O ARREBATOU SEM MAIS CONTESTAÇÃO,

POR SUA CORAGEM EM SEU MANTO COLOCADO!

E ATÉ HOJE, QUEM MIRA O CÉU NOTURNO,

LOGO PERCEBE SEU DESENHO DISCERNÍVEL:

É O CAÇADOR FEITO AGORA INATINGÍVEL:

O GREGO ÓRION, COM SEU OLHAR SOTURNO!

 

PORÉM SEU POVO VIU-SE TODO DISPERSADO,

ALGUNS SUMÉRIOS, OUTROS ACADIANOS,

ALGUNS HITITAS, OUTROS IRANIANOS,

POR CADA QUAL UM NOVO IDIOMA ASSIM FALADO,

NÃO DE IMEDIATO, MAS EM BREVES ANOS,

CADA POVO A DAR FORMA AO PRÓPRIO IDIOMA,

CONFORME ESSES DESTINOS QUE ENTÃO TOMA,

POR RIVALIDADES IMPELIDOS SEM ENGANOS.

NUNCA MAIS FOI OUTRA TORRE ASSIM ERGUIDA,

TAL QUAL ESSA QUE CHAMARAM DE BABEL;

OS QUE RESTARAM NESSE INICIAL QUARTEL,

SÓ A INVEJARAM, SUA IRA AINDA ESCONDIDA;

MAS COMO SEMPRE OCORRE COM OS HUMANOS,

O MESMO EVENTO DE TAL DESTRUIÇÃO

CUMULOU POR ACENDRAR SUA RELIGIÃO

E OS SACERDOTES SE AFIRMARAM SOBERANOS...

 

NIMROD E ABIRAM 3

6 FEV 2022

 

SEMPRE AFIRMAVAM PODER INFLUENCIAR

A VONTADE DOS DEUSES COM SUAS PRECES,

JÁ OS ALTARES REERGUERAM EM ALGUNS MESES,

PEQUENOS TEMPLOS DE TÍMIDO PREGAR!

MAS NOVOS REIS SURGIRAM NO LUGAR,

QUE AO ESCUTAR SEUS ESPERTOS SACERDOTES,

SOBRE AS RIQUEZAS A VISAR SEUS BOTES

E NOVAS TORRES ALI FORAM SE ELEVAR!

 

NEM DE LONGE COMO AQUELA DE NIMROD,

FORAM SOMENTE PEQUENOS ATOS DE LOUCURA,

A MÃO-DE-OBRA JÁ BEM MENOS SEGURA:

SOMENTE O MEDO DOS DEUSES OS ACODE

E FACILMENTE COMEÇARAM A GALGAR,

PARA DAS TORRES OBSERVAREM AS ESTRELAS,

AS DE NIMROD REALMENTE MUITO BELAS,

SEUS SACRIFÍCIOS LÁ NO ALTO A CELEBRAR!

 

MAS ENTREMENTE, UM CERTO ABIRAM,

QUE SE ENCONTRAVA ENTRE OS SERVOS DO OPRESSOR,

DECIDIU NÃO SER MAIS CULTIVADOR,

MAS OVELHAS CRIAR POR BOA LÃ!

E COMO A TERRA DE SINEAR ANTIGA

PARA SEU GADO NÃO TERIA MAIS LUGAR,

PARTIU EM BUSCA DE PASTAGENS ALCANÇAR,

TOMANDO A IMAGEM DE NIMROD COMO AURIGA.

 

NAS LONGAS NOITES, NO MEIO DO DESERTO

OU NAS ESTEPES ESCASSEANTES DE PASTAGEM,

ENQUANTO SEGUIA EM FRENTE, COM CORAGEM,

MOSTRAVA AOS DEUSES SEU CORAÇÃO ABERTO!

PENSOU PRIMEIRO EM REZAR À DEUSA-TERRA,

DE QUE BROTAVA TODA A VEGETAÇÃO:

PORÉM SEM CHUVA, NÃO HAVERIA BROTAÇÃO!

ENKI É QUE EXPLODE A SEMENTE QUE ELA ENCERRA!

 

MAS POR QUE SERVIR A ESSE DEUS DA ÁGUA,

QUE NADA PODERIA FAZER SEM NIMMURSAYA?

ERA PRECISO QUE A ÁGUA DOCE CAIA,

CONTUDO A TERRA A RECEBER SUA FRÁGUA!

NENHUM DOS DOIS A MERECER SUA ADORAÇÃO,

PENSOU EM VENERAR ISHTAR, A DEUSA LUA

QUE TODA NOITE SE MOSTRAVA NUA,

MAS FRIALDADE SÓ LHE DAVA O SEU CLARÃO!

 

QUEM SABE AO SOL, SHAMASH, REZARIA,

MAS A CADA NOITE ELE SE OCULTAVA,

NINGUÉM SABIA SE ERA O MESMO QUE VOLTAVA!

ISSO SEM DÚVIDA SEU PODER LIMITARIA...

E O DEUS MARDUK, SENHOR DA TEMPESTADE,

QUE IRREQUIETO SOPRAVA DESDE O NORTE

OU ENTÃO DESDE O SUL ZUMBIA FORTE,

TAMPOUCO ERA DEUS PODEROSO DE VERDADE!

 

E MUITO MENOS ADORARIA A SIN,

QUE SE MOSTRARA CRUEL E VINGATIVO

E ATÉ NIMROD AGORA TINHA POR CATIVO:

SÓ NAS ESTRELAS DOMINAVA ASSIM...

ENTÃO PENSOU EM ANNU, O PODEROSO,

PAI DOS DEUSES, QUE DE SI GERARA

CADA DEIDADE QUE ABIRAM CONSIDERARA,

A DIMINUIR SEU PODER ANTES GLORIOSO!

 

NÃO, CERTAMENTE, ALGO MAIOR HAVIA

QUE TANTOS DEUSES, EM SUA LIMITAÇÃO

E CERTA NOITE, EM SUA MEDITAÇÃO,

À SUA MENTE NOVA IDEIA CHEGARIA;

FOI ENTÃO QUE CONCEBEU O DEUS ALTÍSSIMO,

EL-SHADDAI, O SENHOR UNIVERSAL,

A COMANDAR DA VIDA O BEM E O MAL,

NO FIRMAMENTO E NA TERRA O MAIS BELÍSSIMO!

 

EPÍLOGO

 

E TAL DEUS ÚNICO HABITOU EM SUA MENTE:

COM GRÃ FREQUÊNCIA O SEU COMANDO OUVIU,

QUE PARA KANAAN ENTÃO O DIRIGIU,

OS SEUS REBANHOS A CRESCER IMENSAMENTE!

E O ALTÍSSIMO, EM QUEM BUSCARA PROTEÇÃO,

TAMBÉM LHE PROMETEU: TU ME ESCOLHESTE,

NOS TERAFIM SÓ TU NÃO TE PERDESTE, (*)

POIS TE DAREI INUMERÁVEL GERAÇÃO!

(*) Imagens de deuses ancestrais; em Hebraico já é plural.

 

DE TEUS LOMBOS MUITOS POVOS NASCERÃO,

QUE A TERRA INTEIRA HÃO DE PREENCHER,

SEM OUTROS DEUSES ANTE MIM INTROMETER,

MEUS MANDAMENTOS TÃO SÓ OBEDECERÃO!

FICOU ENFIM ABIRAM RECONFORTADO

E DO ALTÍSSIMO GANHOU O NOME DE ABRAÃO,

COM REVERÊNCIA A GUARDAR NO CORAÇÃO

O DEUS SUPREMO QUE POR SI FORA INVOCADO!

PORQUE DO ALTÍSSIMO ELE TINHA PRECISÃO,

MAS TERIA DEUS DESSE PASTOR NECESSITADO?

 

terça-feira, 6 de setembro de 2022




 

 Lamento a demora, estive bastante adoentado

Sorry for the Delay, was rather sick.

(Yvonne de Carlo, Hollywood Golden Age)


PARADOXO DO PEDIGREE I

19 NOV 2020

 

Corre em nossa família lenda antiga:

que no século dezenove, um marinheiro

embriagou-se no Porto e bem ligeiro

fugiu para o interior da terra amiga.

 

Consideraram desertor esse estrangeiro,

Padraic Geddes é o nome a que se liga;

e temendo a marinha que o persiga,

refugiou-se em um lar hospitaleiro.

 

A barba ruiva e seus cabelos louros

não eram raros por demais em Portugal,

terra de Godos, antes que de Mouros;

trocou seu nome para Patrício Guedes,

sendo comum essa forma desigual,

a diferença de umas letras só o que pedes.

 

PARADOXO DO PEDIGREE II

 

Foi bem na época de Napoleão nas guerras:

os arquivos de batismo eram queimados,

os nobres portugueses refugiados,

cruzando o mar às brasileiras terras.

 

Patrício Guedes mudou-se para as serras

de Trás-os-Montes; seus ares educados,

fortes músculos ao trabalho dedicados

deram-lhe esposa em portuguesas barras.

 

Criou família no interior de Villa Rica,

em Villarinho de São Romão, pequena aldeia,

aliado ao velho tronco dos Teixeiras;

foi avô me meu avô, tudo me indica,

ou talvez bisavô, na antiga teia

dessas velhas raízes pegureiras... (*)

(*) Montanhesas

 

PARADOXO DO PEDIGREE III

 

Foi desse modo que, por capricho do destino,

que esse velho irlandês, um bom católico,

conseguiu inscrever-se no bucólico

registro paroquial como inquilino...

 

Foi o medo da forca e o desatino

de bebedeira de caráter hiperbólico

que nova vida lhe deram no apostólico

cadastro de batismo em trato fino.

 

Talvez sessenta anos depois, três descendentes,

dois irmãos e uma irmã, para o Brasil

se transferiram, em busca de fortuna;

e aqui me encontro, o filho dessas gentes,

se é que houve o irlandês, toque sutil,

numa noite escapando de sua escuna...

 

PARADOXO DO PEDIGREE IV – 20 nov 20

 

De outro lado da família, corre a lenda

de um diplomata suíço, destacado

para Beirute, pela Cruz Vermelha,

em que os Maronitas outra senda,

 

diversa do Corão, nesta agenda

por Cristianismo Ortodoxo controlado,

um firme grupo que antiga crença espelha,

a contrariar a Muçulmana tenda...

 

Deste modo, uma jovem Maronita,

de sobrenome Karan, muito instruída,

foi trabalhar justamente no escritório

a que fora destacado, nesta escrita,

Ernst-Dieter Hartmann, de conhecida

família dona de importante empório...

 

PARADOXO DO PEDIGREE V

 

Apaixonou-se, enfim, perdidamente,

o diplomata pela secretária

e ela por ele, nessa consuetudinária

expressão que se empregava antigamente...

 

A família da menina, infelizmente,

não concordou com o casamento: era nefária

a opinião Maroniya, tendo por ordinária

a religião Católico-Romana dessa gente.

 

E o diplomata convenceu a sua amada

para fugir com ele, era abastado,

num barco comprou passagem de antemão

e certo dia, em plena madrugada,

encontraram-se no porto, com cuidado,

sendo casados pelo próprio Capitão!...

 

PARADOXO DO PEDIGREE VI

 

Muito romântica essa lua-de-mel,

num navio a cruzar o Mediterrâneo,

coisa pouco comum no coetâneo

mundo forjado por época cruel.

 

Para surpresa do Suíço, no enxaimel

da casa que tinha em Frauenfeld sua família,

foram mal recebidos, na homilia

de um preconceito Católico sem quartel.

 

Casar com “Turca” ainda pior do que Judia,

essas ao menos entendiam o alemão

e conheciam os costumes europeus;

e de nada adiantou a explicação

de que Latifa era cristã na ortodoxia:

o diplomata foi expulso pelos seus!...

 

PARADOXO DO PEDIGREE VII – 21 nov 2020

Mas Latifa Karan Hartmann uma tia

tinha em Pelotas, no Brasil do sul;

Ernst vendeu seus bens e o par, exul,

em outro barco empreendeu do mar a via...

 

Cruzaram três semanas, noite e dia,

até chegarem pelo Oceano azul,

a uma cidade do Rio Grande do Sul,

que acesso fácil a Pelotas permitia.

 

Lá o Suíço abriu uma ferragem

e zangado com a família, ele trocou

o sobrenome para Duro; e gravidez notou

em sua jovem esposa, ainda na passagem;

e no devido tempo, essa menina

teve uma filha, a quem chamaram Ernestina.

 

PARADOXO DO PEDIGREE VIII

 

Muito depois, já chegada à puberdade,

Ernestina conheceu a Dário Humberto,

um homem viajado e bem esperto,

na Sorbonne diplomado Summa com Laude!

 

Namoraram e casaram de verdade,

logo ganharam um nenê, por certo,

fruto do amor que aos dois trouxera perto,

foi Alayde, minha mãe, minha saudade...

 

Mas pouco tempo depois, veio o destino

passar a foice na feliz trindade,

pois Ernestina morreu num acidente,

Dário Humberto deixado em desatino,

que entregou a filhinha, em tenra idade,

á guarda de suas tias, bem contente!

 

PARADOXO DO PEDIGREE IX

 

Meu avô, com os lucros da ferragem,

comprara um conversível, ou “barata”,

assim chamado por troça bem gaiata,

pelo povo que invejava a sua linhagem.

 

Carro longo e vermelho e, com coragem,

meu avô o dirigia, nessa data

em que os carros eram raros; só a nata

da juventude a ter neles passagem.

 

E foi assim que a tragédia aconteceu:

Ernestina no banco da direita

e meu avô correndo em desafio;

a porta mal fechada então cedeu,

minha avó foi lançada à rua estreita,

o crânio a rebentar no meio-fio!...

 

PARADOXO DO PEDIGREE X – 22 nov 2020

 

Meu outro avô viera já de Portugal,

com irmão e irmã;  era alfaiate,

para fugir das guerras ao combate,

que assolavam o seu país natal.

 

Logo seguiu a senda natural,

abriu um armazém, lançou-se ao embate,

comprou casas, fazenda e até um abate; (*)

casou-se em boa família, mas fatal

(*) Matadouro, açougue

 

foi seu destino, pois era diabético

e ninguém ainda descobrira a insulina:

uma ferida em seu pé nunca fechou;

operado várias vezes, qual morfético,

cortaram-lhe aos poucos, triste sina!

Aquela perna que aos poucos gangrenou!

 

PARADOXO DO PEDIGREE XI

 

São essas lendas que ouvi de meu avô,

mas é a história de minha mãe que me fascina;

Libanesas sendo as tias da menina,

sempre o apelido de “turca” ela escutou.

 

E fez meu pai jurar, quando mudou,

que na cidade a que agora se destina

não contasse a ninguém a antiga sina

e somente o nome do pai ela adotou.

 

Foi meu pai que me contou sobre Ernestina:

sendo a troca de nome então difícil,

foi simulada uma hipotética adoção;

só com o nome do pai ficou a menina,

até adotar o do marido, coisa fácil,

não sendo o nome de minha predileção.

 

PARADOXO DO PEDIGREE XII

 

E aqui estou eu, William Lagos:

sou Luis por meu avô, do outro Humberto

e meu padrinho William Thomas foi esperto,

introduzindo seu nome em nossos pagos.

 

Sou assim herdeiro destes três Reis Magos,

sem ganhar deles qualquer cofre aberto,

tão somente o seu dom de amor incerto

por tantas coisas que ganharam meus afagos...

 

Amei mulheres, sim, amei a história,

a arte e os livros, a música e a poesia,

toda a ciência, toda a tecnologia,

que nos trouxe até esta época de glória,

mas a razão de meu perpétuo afeto,

é que minhalma eu derramei neste soneto!