sábado, 28 de maio de 2022


 

 

O MATADOR DE DRAGÕES XIII – 7 JAN 2022

 

Yadranka então espantou-se por demais

ao vê-lo devorar todo o jantar!

“Ai de mim, Bauck depressa vai chegar

 e sem ter sua refeição, o que dirá?”

“Não te preocupes, eu falarei com ele!”

“Não, irmão, ele te matará e esfolará!”

“Tenho poderes para defender a minha pele!”

“Mas Bauck não te perdoará jamais!”

No mesmo instante uma lança sibilou

e ainda no ar, Stoisha a empolgou!

 

E a mandou de volta até o dragão,

que igual aos demais, muito se surpreendeu:

logo chegou e a Stoisha acometeu,

em sua fúria a rugir e a bufar,

porém o príncipe, qual nas outras ocasiões,

rapidamente o pôde derrotar,

dele exigindo as melhores intenções,

antes que o soltasse em compaixão,

quando Bauck, extremamente agradecido,

bateu palmas para ser logo atendido!

 

Vieram cem monstros piores que os demais,

mas que logo preparam um festim,

recamado com mil grãos de gergelim;

e convidou Stoisha para se hospedar

em seu castelo o quanto desejasse;

certo dia, em que estavam a passear,

a curiosidade fez que ele perguntasse

o que era uma caverna com fundos abismais

e o dragão lhe respondeu, envergonhado:

“Com Prekawatz, rei dos dragões, tenho lutado.”

 

“Junto com meus irmãos, há muitos anos,

mas embora nos batamos com coragem,

por não querer mostrar-lhe vassalagem,

ele é, de fato, um grande estrategista

e acaba por vencer cada combate...

Para evitarmos que complete sua conquista,

aqui nos escondemos, antes que nos mate,

nesta caverna e então lhe suplicamos

que poupe nossos bens e nossas vidas:

só nos atende cobrando taxas desmedidas!”

 

“E tão logo nos podemos reaprumar,

ele quebra o tratado com desonra

e nos ataca outra vez. Você nem sonha

como esse Prekawatz quebra a paz!”

“Mas já que estou aqui, posso ajudar!”

Um convite a seus irmãos depressa os traz

e foram os quatro uma embaixada apresentar

ao tal rei dos dragões, mas de repente,

os três fugiram e o abandonaram totalmente!

sexta-feira, 27 de maio de 2022


 

 

ARREBATAMENTO I – 25 MAI 2022

(Eleonor Tomlinson, atriz britânica)

 

Amor é gota do espaço sideral

que nos pinga na medula e nos envolve,

depois ao espaço o coração devolve,

sem precisar sequer de ser sensual;

porém amor é essa pena universal,

esse mistério que nunca se resolve,

que se julga ter ido e que nos volve

e de algum modo nos domina a cada qual.

 

Quando nos chega, se faz nosso senhor

e sem querer nos leva ao riso e ao pranto,

cristal de cor que tudo transcendia;

pois talho fundo nos deixa o Grande Amor,

que todos sentem em si e no entretanto,

nenhum de nós compreendeu o que sentia!

 

ARREBATAMENTO II

 

Contudo, quando vem, nos arrebata,

rosas pisamos sem causar-lhes mal,

as nuvens descem de forma natural,

nelas flutuamos como em branca nata;

farfalham sinas e alegrias nessa mata,

que vão e vem em troca só conceptual,

dores de amor que não nos ferem, afinal,

mil alegrias em que a alma se desata...

 

Mas se pensarmos, por que seria controlada,

essa tortura usufruída em penitência,

gaiola feita de ardor e complacência,

essa vaga sensação de tudo e nada,

que até o cóccix nos desceu pela medula

e o total do livre-arbítrio nos anula?

 

ARREBATAMENTO III

 

E como é vago quando o amor se vai,

maior que fosse sua satisfação,

menor que fosse qualquer desilusão

e o sangue dalma nos retira quando sai!

Mas não se olvide que o coração contrai

quando a recusa nos morde em ocasião

e o ser amado transita outra paixão,

em descaso da emoção que em nós recai!

 

E enfim sabemos só os sintomas da ilusão,

que a garganta nos sufoca como um véu,

num entrecortado quase de esternutação,

esse trauma que nos veio desde o céu,

sideral desde  o princípio a contusão,

que então se perde por mil mundos ao léu!...

quinta-feira, 26 de maio de 2022


 

 

O MATADOR DE DRAGÕES XII – 6 JAN 2022

 

“Mas vem comigo agora para nossa mansão:

Azhdaya me trata bem, mas sou sua prisioneira

e a tarefa do lar sobre mim recai inteira.

Os seus servos são camponeses e soldados,

não podes vê-los, porque são invisíveis

e é até melhor, porque esses desgraçados

são monstruosos, com aspectos horríveis!”

Chegaram juntos até a casa do dragão.

A mesa estava posta e Stoisha sentiu fome:

”Essa comida toda o dragão é que a consome?”

 

“Quando ele chega, está sempre esfomeado,

come dois bois assados, duas cestas de pão

e ainda todo o vinho que cabe num jarrão!...”

“Pois desta vez, quem vai comer sou eu!”

“Não faças isso, vais sua raiva provocar!”

Mas Stoisha facilmente a refeição comeu,

bem a tempo de se ouvir um sibilar:

um machado de guerra fôra arremessado

e Stoisha o lançou de volta facilmente!

Azhdaya se espantou: “Mas quem é assim potente!”

 

“Quem conseguiu jogar de volta meu machado?”

Ele o jogava para anunciar que já chegava

e que o jantar à mesa posto desejava.

Assim Azhdaya avançou com rapidez

e logo entrou pela porta principal:

“Quem é esse humano de tal desfaçatez?”

“É meu irmão e nada fez de mal...”

“O meu jantar foi por ele devorado?”

“Sim, querido, já vou outro preparar!...”

“Não é preciso, ele vai me alimentar!”

 

E Azhdaya sobre Stoisha se lançou,

mas este fora dotado pelas três fadas

e o enfrentou com um brandir de espadas,

depois a corpo a corpo e o dragão caiu;

com o joelho Stoisha lhe cortou a respiração;

que a vida lhe poupasse, a fera lhe pediu!

“Eu só te poupo mediante a condição

de não mais me atacares!” E o dragão jurou.

Batendo palmas, cem monstros do seu lado

o atenderam e foi banquete preparado!

 

Embora bastante tivesse antes comido,

Stoisha alimentou-se com prazer

e a seguir de Azhdaya quis saber

onde se achava a sua terceira irmã.

“Ela está com Bauck, meu terceiro irmão,

mas será inútil todo o teu afã,

ele é mais forte e mais feroz de compleição

e por certo por ele serás vencido!”

“Não importa,” disse Stoisha, “qual estrada

devo seguir para ver minha irmã amada?”

 

Azhdaya então o caminho lhe indicou.

Tinha certeza de que seria destroçado

por seu irmão mais feio que o pecado!

Stoisha agradeceu, montou a cavalo

e pela longa vereda então partiu;

defendido por levadiça e largo valo,

um castelo portentoso à frente viu;

estava aberto e sem medo penetrou,

até encontrar somente uma mulher:

mostrou-lhe o lenço e reconhecê-la quer.

 

“Tu és Yadranka, minha irmã perdida:

por vocês três eu saí a procurar,

cada dragão novo caminho a me indicar...”

“Sim, sou Yadranka e tenho dragão por carcereiro.”

Ai, meu irmão, que coisa perigosa!

Bauck é o pior, mesmo sendo só o terceiro,

vai te matar e deixar-me desgostosa!...”

“Primeiro mostra-me onde há comida, irmã!”

Ela mostrou três bois assados e três jarrões

de vinho e mais três cestas de pão e biscoitões!...”

 

quarta-feira, 25 de maio de 2022


 

 

LUZES PERDIDAS I – 24 MAIO 2022

 

Em cada olho eu tinha uma menina,

muito curiosa, à espia do universo,

porém seu cosmos foi ficando terso

e das meninas o crescimento foi a sina.

A adolescer cada qual delas se inclina,

à sua maneira escolhendo o próprio verso;

tiveram sonhos, eu neles fui imerso

e o contemplar do mundo ainda as fascina.

 

Mas essa fase passou-lhes bem depressa,

tive de usar fortes lentes de contato,

cada menina submetida a tal recato;

por trinta e sete anos, usei o mesmo par,

minhas meninas o mundo viam, sem ter pressa,

até que o computador fui encontrar...

 

LUZES PERDIDAS II

 

Minhas meninas assim envelhecendo

mais depressa do que seria de esperar,

três vestidos tiveram de trocar,

por embaciado o mundo estarem vendo.

A menina direita acabou querendo

ver o mundo em luzeiro singular,

véu amarelo no semblante a colocar,

mas para mim qual mancha aparecendo.

 

E desse modo, decidi-me, finalmente

a sepultar as meninas que eu amava

e os dois olhos submeti a operação;

sem dúvida já consigo mais potente

observar cada coisa que encontrava,

porém perdida está a antiga comunhão.

 

LUZES PERDIDAS III

 

Essas meninas que guardavam minhas vistas

foram deixadas para trás num hospital,

não que as pedisse guardar, mas afinal

tais solicitações não seriam benquistas.

De seu paradeiro sequer terei as pistas...

Perdas ocorrem de modo natural,

sempre que ocorre algo intervencional,

sou estatística das modernas listas...

 

E agora eu vejo sem minhas duas meninas,

um implante colocado em seu lugar,

mas realmente, não sei se estou melhor;

eram diamantes de contato as velhas minas,

sempre a deixarem-me o mundo desvendar,

sem precisar me desfazer de um velho amor.