sexta-feira, 4 de junho de 2021


 

 

OS OLHOS DA PRINCESA

CAPÍTULO NONO – 04 JUNHO 2021

 

Assim o Mago Serpente, desde então,

o seu olho reafixado no lugar,

foi um pacto de amizade celebrar

com as lebres e grilos na ocasião

e com sua língua lambe mil formigas,

com que já tinha antiga inimizade,

dormir nunca o deixavam, na verdade,

mas as lebres se demonstraram suas amigas.

 

Sete horas depois disso se passavam

até conseguirem chegar até o castelo;

em desespero, lágrimas de gelo

os olhos da princesa derramavam...

Maugan chegou até a presença do rei.

“Onde se encontram os olhos da princesa?”

“Meus dois eu tenho, com toda a certeza,

mas com o Mago do Céu já combinei.”

 

“Tão logo seja celebrado o casamento,

me enviará os olhos da princesa.”

“Mas como espera que eu tenha certeza?”

“Se não os entregar nesse momento,

pode cortar-me a cabeça de imediato!...”

“Você devolve meus olhos, se eu casar?

Sequer seu rosto eu consigo enxergar...”

“Case comigo e o saberá de fato!...”

 

Pensou o rei: “Assim que os devolver,

mandarei degolar esse bandido!”

Nessa noite o matrimônio foi cumprido

e Maugan os devolveu, sem tal traição temer!

Porém o Mago Céu já se acordara

e trovejava o seu ressentimento!...

O Mago Serpente circulava num portento,

em favor de Maugan toda a corte acreditava!

 

E Peito Branco, que revelou ser também mago

ficou adejando acima do castelo,

tornou-se imenso, qual o condor mais belo,

sob suas asas demonstrando afago

ao jovem Maugan, que os olhos colocou

nas órbitas vazias da princesa,

que em gratidão, ao recobrar a sua beleza

também por Maugan igual se apaixonou...

 

Assim, meio por medo dos três magos

e pelo amor que Flor de Espinho então sentiu,

no casamento ninguem interferiu,

um pelo outro mostrando tais afagos,

que ser a vontade divina acreditaram,

não mais malvada a linda Flor de Espinho,

porém bondosa por força do carinho...

Por muitos anos os dois felizes continuaram.

 

EPÍLOGO

 

Maugan tornou-se o rei, eventualmente,

com a princesa fundando nova dinastia,

em cujo escudo se contemplaria

nobre figura de um falcão potente:

Peito Branco, com aspecto gigante,

numa das garras segurando uma serpente,

na outra um pano de estrelas reluzente,

numa panóplia conservada doravante.



 

 

OCEAN OF THE BLIND – Translated on 06/04/2021

 

I watch mankind as an ocean in vast motion,

where we can see each other side by side,

a body to the next will therein always abide

in the fleshy shackles down from each generation.

 

Physically far, but there’s a fabric of contention

of gold tissue and burlap that us all guide,

a tapestry in which everyone of us must ride,

from the noblest thread to the filthiest tension.

 

And in that vast carpet, the bones of old

turn into chalky lines to conform our present

and the present ones will into the future bound.

 

But we are blind to all these waves cold,

that keep us apart and give the minds no bent

to listen to the dead that all of us surround.

 

THIS IS MY ORIGINAL SONNET WRITTEN IN

PORTUGUESE THE ABOVE WAS TAKEN FROM.

 

OCEANO DOS CEGOS

 

Eu vejo a humanidade em vasto oceano,

em que nos contemplamos, lado a lado;

um corpo a cada corpo está encadeado

e a geração se sucede ano após ano.

 

Fisicamente longe, mas em pano

de ouropel e de estamenha é nosso fado;

tapeçaria em que tudo é registrado,

desde o mais nobre até o mais insano.

 

E nesse vasto tapete, os velhos ossos

se tornam fios de giz para o presente

e o presente do futuro é gestação.

 

Mas somos cegos diante destes fossos

que nos afastam, sem abrir a mente

para escutar os mortos que aqui estão.

 



 

 

IMITAÇÃO DE UM ERRO I – 3 JUN 21

 

Da semântica a sema é a unidade,

representação menor de um significado

e ali buscam os gramáticos verdade,

após tal grupo terem isolado.

 

Da fonética a fona é a unidade,

representando um som que é escutado,

mas só a comunicar com seriedade

dito som para que seja interpretado.

 

E da mimética a mima é a unidade,

que induz o povo a toda a imitação,

a maioria só a fazer o que outros fazem...

 

Quanto a mim, busquei originalidade

neste gênero desdenhado com paixão

pelos medíocres que em maus versos jazem.

 

IMITAÇÃO DE UM ERRO II

 

Surge agora uma nova imitação,

posto de lado o vocabulário antigo:

a uma péssima tradução se dá abrigo,

qual não houvesse outra interpretação.

 

Por que hoje dizem meme em profusão,

quando esse termo, mima, está contigo

há tantas décadas?   Por mim, eu só consigo

lamentar tal mendicante solução,

 

mal traduzida e pior pronunciada

por essa gente que não sabe português

e que pretende fluente ser em inglês,

 

quando de fato não conhece nada

e nessa pretensão tão malfadada,

fica imitando um erro que outro fez!

 

IMITAÇÃO DE UM ERRO III

 

Já foi dito que amor eterno dura

não mais que a floração de um girassol;

o ser amado nos atrai como um farol

e a ausência sua se torna em noite escura.

 

Da noite à alvorada se costura

a união dos tempos, como se o arrebol

e o anoitecer fossem as faces desse sol,

mais como um túnel que a lanterna fura.

 

Que os olhos desse amor iluminassem

as horas nuas da ausência em esplendor

com tal presença sempre pressentida

 

e que encanto e calidez sempre gozassem

quaisquer amantes envoltos no calor

de um girassol ao longo de sua vida.

 

IMITAÇÃO DE UM ERRO IV

 

Contudo amor costuma ser lembrança,

que mais não seja ao fundo da memória,

no devaneio ocasional da antiga história,

mesmo que em lástima de desesperança.

 

Enquanto a nova semântica só alcança

a geração da imitação inglória,

logo seus filhos desprezam tal escória,

algo de novo imitando sem tardança.

 

Destarte, esse meme me incomoda,

mas é possível que dentro de alguns anos,

ninguém recorde sequer de o pronunciar,

 

enquanto o girassol do amor em roda,

como o heliotrópio a namorar o sol,

ainda se abre no iniciar de outro arrebol.


 

 

OS OLHOS DA PRINCESA

CAPÍTULO OITAVO – 02 JUNHO 2021

 

“Mas onde fica o tal de pedregulho?”

“Logo ali adiante, a cem passos daqui...”

Megan e o falcão já escutaram desde ali

do Mago os silvos no maior barulho...

E em lá chegando, Maugan indagou:

“É o Mago Serpente que está aí embaixo?”

“Sim, sou eu e quase não me encaixo,

tire essa pedra!” – o Mago lhe ordenou.

 

“E por que pensa que pode me mandar?

Retiro a pedra só em troca de um favor...”

“Qualquer coisa, mas me livre deste horror!”

“Ao Mago Céu conseguirá enfrentar?

Vejo que é cobra bastante pequeninha

e o outro mago é realmente imenso...”

“Quando sair, eu crescerei, fico distenso,

só me liberte deste buraquinho!...”

 

Maugan afastou a pedra facilmente

e o Mago Serpente se pôs logo a crescer,

a boca aberta, querendo já o comer!...

“É assim que me agradece, seu malevolente?”

“Estou com fome, se não como, vou morrer!

Sou agradecido, mas preciso devorá-lo!...”

Peito Branco se avançou e num estalo,

um olho lhe arrancou, sem conseguir se defender!...

 

“Desgraçado, quer me deixar cego?”

“Devolvo o olho, depois que me ajudar!”

“Pois bem, farei o quanto possa realizar,

seja o que for, prometo que não nego!”

“Quero que me leve até o Mago Céu,

buscar os olhos da Princesa Flor de Espinho!”

“Ora, isso é fácil, sei bem qual é o caminho,

agora é dia, ele dorme sob um véu...”

 

Maugan sentou-se no pescoço da serpente

e Peito Branco colocou o olho arrancado

sobre a pedra em que estivera ele encerrado

e alçou voou atrás da cobra, velozmente.

De fato, estava o Mago Céu adormecido,

logo avistaram os dois olhos da princesa;

 Maugan os pegou, com a máxima presteza,

e o Mago foi ficando aos poucos encolhido.

 

Quando chegaram ao lugar em que o olho estava,

viram as lebres e os grilos defendendo

de um batalhão de formigas, pretendendo

picar o olho e o levar para sua cava!...

O Mago Serpente começou a lamber

as tais formigas famintas, aos milhares!

O falcão levou Maugan, sem quaisquer azares

até o castelo, após também crescer!...

quinta-feira, 3 de junho de 2021


 

 

SÓIS PARALELOS I – 1º JUN 2021

 

O Sol se põe mais cedo nas cidades

e já se ergueu mais cedo.  Suas muralhas

cobrem réstias iniciais de luz sem falhas,

do crepúsculo a apressurar opacidades.

No verão, menos denotam-se  essas veleidades,

mas cresce a fumaceira em maravalhas,

de escapamentos a sair como navalhas,

dando  incremento às periculosidades.

 

No atual período o clima faz-se estranho,

um pouco é quente e noutro faz-se frio,

o das residências  em oposição ao exterior,

assim um dia abro a janela para o banho,

no outro a fecho, evitando um calafrio,

na pelúcia das toalhas a deixar o meu calor.

 

SÓIS PARALELOS II

 

Mas se sorrís, como teus olhos bailam!

Têm seu lampejo cálido e inocente,

que me denota a impressão frequente

de réstias puras de um virginal presente.

Na comissura dos lábios se resvalam

pequens dobras de estranhas formosuras,

percebo em tais sorrisos coisas puras,

de uma novel alvorada em cinzeluras.

 

Assim te vejo, a sorrir quase menina,

qual nos caprichos de alguma adolescente,

sem discernir tua verdadeira idade,

numa beleza quase peregrina,

meu próprio olhar refletindo translucente

de teu olhar a luminosa  intensidade!...

 

SÓIS PARALELOS III

 

Assim o Sol nunca adormece inteiramente,

sempre que chegas para bem perto de mim,

jamais vejo opacidade em tal jardim,

de teu olhar o florilégio é permanente,

sempre da época do ano independente,

outra é a mudança que se percebe assim,

mesmo em desânimo não murcha teu jasmim,

o teu sorriso branda luz traz permanente.

 

Só quando dormes contemplo essas muralhas

das pálpebras cerradas em corrente,

suas levadiças sendo os cílios alongados;

porém do sono, quando se mostram falhas,

em teu olhar me banho, complacente,

sem nada opaco em tuas vistas descerradas.


 

 

OS OLHOS DA PRINCESA

CAPÍTULO SÉTIMO – 31 MAIO 2021

 

“O meu falcão executou um encanto

e sem dano retirou os olhos da princesa,

sem prejudicar de forma alguma a sua beleza;

subi esta árvore até atingir o canto

do Mago Céu, que os olhos me tirou

e os pregou, como se fossem outro enfeite

de seu manto para seu próprio deleite

e com sua tosse, a árvore inteira derrubou!”

 

“Só não morri, porque desci agarrado

e sobre um lugar macio caí enfim...”

“Na minha barriga, meu nariz, pobre de mim!

Vou dar ordem para que seja executado!”

“Se me matar, Senhor Rei Majestade,

nunca mais verá os olhos de sua filha!

Só o meu falcão é que conhece a nova trilha

e o Mago Céu venceremos de verdade!”

 

“Espere um pouco.  Você quer dizer

que as duas estrelas novas lá em cima

são os olhos de minha filha e que se anima

a ir buscar, mesmo depois do apoio se perder?”

“Sim, Majestade, mas fácil não vai ser,

ninguém mais será capaz de conseguir

e dessa forma, sou obrigado a lhe pedir

que a mão de sua filha me possa conceder!”

 

“O que não tem remédio, remediado está...

Mas se não devolver seus belos olhos,

mando matá-lo e jogá-lo nos escolhos,

por mais que fuja, não me escapará!”

Maugan saiu da floresta com o falcão,

indo à procura do Mago Serpente,

que era o mais velho e também o mais potente,

para o problema lhes dar a solução...

 

Contudo, o Mago Serpente não acharam

nos lugares que costumava frequentar

e foram então às Lebres indagar,

porém estas em nada os informaram:

“Perguntem aos Grilos, que devem saber.”

Foram em frente até ouvir um cricrilar,

tampouco estes os puderam informar:

“Só as Formigas lhes poderão dizer...”

 

Assim chegaram até um formigueiro:

“O Mago Serpente fez uma bobagem,

escondeu-se sob uma pedra de passagem,

quando o estávamos picando bem ligeiro...

Nós roemos a pedra dos dois lados,

ele encolheu, mas não pôde mais sair...

Quando morrer, nós vamos conseguir

picar sua carne e ser por ela alimentados!...”