LARVAS DE ARROZ I (2007)
(Cacilda Becker, atriz epítome brasileira)
Perdi uma semana e pus a vida
qual oferta no altar dos sacrifícios.
Não pude me finar em meus solstícios:
sou forçado a mim mesmo dar guarida.
Será uma longa marcha e perseguida
por fantasmas de meus próprios malefícios.
Muitos monstros domei, em meus ofícios
mas a ilusão, reconheço, foi perdida,
porque esses versos lúgubres, tiranos,
que não provém de mim, vêm lá de dentro,
mas quanto mais estranhos, mais são meus.
Somos tantos e um só, nós, os humanos
e na periferia se acha o centro,
em que fecundo e gero um novo deus.
LARVAS DE ARROZ II
(15/2/2009)
Não há mistério nessas nossas vidas:
somos poeira de deuses esmagados,
em átomos aos bilhões esfacelados,
no pluriverso das deidades distribuídas.
Assim, os fragmentos de acolhidas,
interligados estão em seus legados;
por mais distantes, estamos abraçados
e as mil legiões de mortos, ainda lidas
executam em meu peito, que universos
coabitam nossos cérebros, dispersos
nos cacos cintilantes dessas almas.
E nossos próprios cacos têm lugar
nos turbilhões e nas maiores calmas:
cada gota de chuva o próprio mar.
LARVAS DE ARROZ III
Nós vos criamos, deuses! Sois mortalhas
das projeções inconstantes destes sonhos
que a raça devaneia... Maravalhas
de grandes construções, desde os bisonhos
pedidos de crianças, aos medonhos
gritos de desespero nas batalhas.
Dos sentimentos mais frágeis e tristonhos
as tentativas de encobrir as falhas...
Se não morrêssemos e apenas o sucesso
coroasse nossos atos e os remorsos
não nos ferissem fundo, quem lembrava
de esculpir seus deuses, para acesso
a um grau de transcendência, nos esforços
com que sua própria morte contemplava?
LARVAS DE ARROZ IV – 28 set 2023
Certas coisas revoltam certa gente
e as fazem duvidar da divindade
e essa é a condição da humanidade,
com tantas dores a afligir o crente!...
Mas duvidar de Deus, por dor de dente,
é se dar muita importância... Além
da idade
vivemos muito acima, na verdade
do que nosso organismo, inicialmente,
poderia perdurar. Lares
urbanos
nos preservam facilmente das agruras
que dizimavam nossos antepassados.
E se morrêssemos no vigor dos trinta
anos,
nossas caveiras mostrariam dentaduras
com os dentes totalmente conservados!
LARVAS DE ARROZ V
Hoje é o dia em que as formigas levam flores
para seus cemitérios, em carreira antiga...
Algumas, simplesmente, fazem figa
para que seus habitantes, seus temores
não venham reforçar, nos estertores
dos piores pesadelos... Em outra liga
vêm as formigas que a tradição bendiga,
a demonstrar que ainda sentem mil amores
pelos que não veem mais; outras ainda,
só o fazem por temerem comentários
de seus vizinhos, vendo túmulos despidos.
E só por mais formigas é bem-vinda
a multidão das flores... Lapidários
que as carregam a seus lares escondidos.
LARVAS DE ARROZ VI
Disse e repito: desejo ser cremado
e em farinha de cinzas espalhado,
menor trabalho dando a tais formigas
para o monturo de seus lares carregado,
seguindo o exemplo das fábulas antigas,
na Via Appia contemplado por aurigas,
o seu olhar só de leve desviado
e que minhas cinzas nem sequer persigas,
sem perturbar a Deus com vinte missas,
trabalho dando a sacerdotes e alimento,
que só conservem os versos que escrevi,
sem que sejam queimados nessas liças
de digital e ascético portento,
sem cortarem essas plantas em que cri.
LARVAS DE ARROZ VII – 29 set 23
De fato, cada vez que um livro é impresso,
são cadáveres de árvores formados,
para a vaidade humana desgastados,
por um momento de efêmero sucesso!
E nesse lançamento têm ingresso
as formiguinhas com que são aparentados
e os amigos que foram convidados
e que se obrigam a mostrar o seu apreço,
nas longas filas das dedicatórias,
que nas páginas de face, tantas vezes,
nesses sebos com frequência já encontrei,
na brevidade de tais perpétuas glórias,
guardam-se livros talvez por poucos meses,
sem que os abram, sequer mandando o rei!
LARVAS DE ARROZ VIII
Talvez sejamos todos nós larvas de arroz,
quando suas cascas se transformam em
papel;
em minha casa, a milhares dei quartel,
em minhas estantes foram deixados sós,
sem nem traças nem carunchos, só os pós
da ambição e vaidade em ouropel;
guardo meus livros como outros guardam
mel,
em suas despensas, durante um vasto após,
em que consomem o tesouro ali guardado,
há muito tempo já cristalizado,
talvez perdida boa parte do sabor,
que a mil abelhas defuntas foi roubado,
para vendê-lo por bem menor valor
que o sacrifício executado em seu amor.
LARVAS DE ARROZ IX
Larvas de arroz julgando-se importantes,
erguendo altares para tantos santos,
a falsos deuses consagrando cantos,
os seus louvores tolices delirantes!
Pobres larvas, peregrinos tão constantes
nesses santuários regados com seus prantos,
calor humano condensado nos seus mantos,
até que o gesso chore em tais instantes!
Larvas de arroz por certo Deus criou,
para alimento humano despertar
ou de alimento assumirem o lugar;
sua proteína muito prato reforçou,
enquanto a nossa escondem nas gavetas,
lá carcomida por multidões secretas!
LARVAS DE ARROZ X – 30 set 2023
Larvas de arroz os filósofos famosos,
tão dedicados a compor seus calhamaços,
sempre deixando do pensamento os traços,
influenciando outros carunchos duvidosos!
Larvas de arroz violentos sediciosos,
jovens chamando para seguir seus passos,
na sociedade a distribuir seus embaraços,
sangue e metralha em panfletos ponderosos!
Larvas de arroz os nobres generais,
a emitir ordens do dia em valentias,
em seu cálculo de “perdas reparáveis”,
seus soldados a gastar assim no mais,
como os gastaram nas antigas vias,
com resultados igualmente superáveis.
LARVAS DE ARROZ XI
Larvas de arroz os teóricos cientistas,
quando cansados de expor as suas ideias
nos quadros-negros de antigas assembleias,
o seu orgulho a levantar-lhe as cristas!
Na juventude completam suas conquistas,
a ciência alevantando em epopeias,
os consagrados a levantar-lhes peias,
de suas teorias a recusar-lhes pistas!
E agora, suas ideias já provadas,
erguendo objeções aos iniciantes,
que as avançaram e mesmo as podem contrariar.
Nos artigos de jornais são publicadas,
aos esgotos a lançar itinerantes,
novo periódico amanhã a publicar!
LARVAS DE ARROZ XII
Ah, se larvas de arroz apenas fôssemos!
São renovados anualmente os arrozais,
mas somos larvas dos grandes matagais,
das velhas árveros que o machado
trouxe-nos!
Seu cerne em polpa para que expuséssemos
certificados nas paredes como ideais,
ou redigíssemos sonhos mortos sem finais
e nosso orgulho assim satisfizéssemos!
Tão só por mínimos instantes de vaidade,
que ainda bem são hoje em dias
reciclados,
para as pretensões de outros mais
satisfazer!
Antes papiros de egípcia acuidade
ou pergaminhos de ovelhas arrancados,
antes que as larvas pudéssem-nos comer!
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