SOBRANCELHAS SALGADAS I (20/10/2009)
(Fay Wray, diva do cinema mudo)
Hoje sentei-me ao lado de uma dor
que nunca deveria ter havido;
não fossem desencontros, teria sido
bem ao contrário, um meigo e suave ardor.
Não que essa pena desventrasse amor
ou pranto blandicioso, que afinal
foi pouco mais do que um colateral
o efeito dessa mágoa em meu fervor.
O que doeu não foi a desilusão,
porém que precisasse de ter-se revelado
por tentativa quiçá de manipulação.
Só divisei a emocional chantagem,
sentado calmamente do seu lado,
enquanto ela chorava por bobagem...
SOBRANCELHAS SALGADAS II
Posso lembrar que ela chorava tanto
que ensopou os lenços de papel
de um pacote inteiro, tanto fel
que ardia e sufocava no seu pranto.
Fui tolo em consolá-la e nesse entanto
não passou para mim favos de mel,
fui eu que repassei bens a granel,
pelo retorno de um vazio espanto.
Assim, a consolei: tirei de mim
tranquilidade e afeto, na porfia
de nela despertar nova magia;
porém nem o destino quis assim:
tão logo consolada, foi-se embora
e apenas eu hoje recordo dessa hora.
SOBRANCELHAS SALGADAS III -- 4 abril 2023
Não foi uma só vez no meu passado,
talvez por meu aspecto paternal,
já escutei muitas a se queixar do mal
que lhes ferira o coração atribulado.
Não apenas mulheres, mas até cansado
coração masculino, o manancial
de um coração ferido em marginal
conversação foi sobre mim lançado
e a todos recebi com igual paciência,
muitos até com qualquer benemerência,
quando de fato os julgava merecer,
mas não ouvi aos aproveitadores,
a demonstrar-me seus falsos horrores,
querendo tempo e atenção só me reter.
SOBRANCELHAS SALGADAS IV
O que estranho é que em geral mulheres
não me pedem outro auxílio que escutar
e me disponho o ombro a lhes mostrar
como um porto seguro aos desprazeres.
Talvez algum me julgue todo, os quefazeres
deste consolo sem em troca aproveitar
qualquer favor que me pudessem partilhar,
mas dou apenas meus livres dispenderes
deste meu tempo, por si só já escasso;
há quem me busque ao longo da Internet,
há quem deseje na rua conversar
e aos quais atendo, ao suspender o passo,
sempre descrente de qualquer confete
de elogios que pretendam me lançar.
SOBRANCELHAS SALGADAS V
Algumas vezes enxuguei as sobrancelhas
com meus dedos, em suave palpitar;
não quero o sal das lágrimas provar,
antes guardá-lo junto a lembranças velhas;
em alguns pontos da mente eu ergui telhas
sobre um balcão de meigo sussurrar,
cada lágrima ali deixei a murmurar...
(Já a desconfiança para mim espelhas?)
Será tão raro assim que um conselheiro
a alguém escute sem segundas intenções?
(Ou tendo até terceiras, certas vezes.)
De qualquer modo, guardo em meu telheiro
o morno líquido de tais obtenções,
como água pura de regatos montanheses.
SOBRANCELHAS SALGADAS VI – 5 abril 2023
Tais lágrimas me bastam, realmente,
algum cílio talvez nelas misturado,
um fio superciliar embalsamado,
para guardar em bilhas, bem contente,
ao sofrimento talvez indiferente,
por mais tivesse simpatia demonstrado;
sendo sincero em tal momento asado,
máscara usando sobre o rosto, transparente...
Talvez existam de pele fragmentos,
esparzidos por entre grãos de poeira,
onda salina a habitar na comissura;
talvez revelem ali seus sentimentos,
obtemperados por confissão ligeira,
em suprassumo de pudor tornada pura.
SOBRANCELHAS SALGADAS VII
E assim confesso segundas intenções
nessa coleta de lágrimas num lenço,
cada careta e cada esgar mais tenso
ali colhido no ceifar dos corações;
são as mais contraditórias sensações,
algumas delas verdadeiro contrasenso,
outras de fato em sentimento denso,
umas às outras em objurgações...
O que eu desejo é conservar
no bojo
desses meus frascos de atenções neurais
as mil tristezas que vêm do nunca-mais,
as peremptórias revoltas do seu nojo
por aqueles que seus ardores desprezaram
a descartar depois que os consumaram!
SOBRANCELHAS SALGADAS VIII
Será como se guardasse em cem bujões
essas pequenas lágrimas retidas,
pelo meu próprio ardor reproduzidas,
até encherem por completo tais cambões
de vidro transparente de paixões,
leves retratos de tais alheias vidas,
em suas leves confissões assim colhidas,
para as guardar além das mutações.
De tantas delas os nomes já esqueci;
algumas outras mesmo ultrapassaram
os limites carnais de meu sacrário,
mas permanecem parcialmente ali
restos mortais que meus dedos roubaram,
antes que fossem prosseguir em seu fadário!
SOBRANCELHAS SALGADAS IX – 7 abril 2023
Assim às vezes, no ceifar de inspirações,
eu me dirijo a tal lagrimoteca;
tocar os vidros por fora em nada seca
os sentimentos das velhas prospecções;
por suas paredes me chegam percepções;
minhalma empresto apenas e não peca,
tal qual o pó de minha biblioteca,
em mim provocando só esternutações
que para o mundo explodem em sonetos:
guardo os bujões em olvidado canto,
talvez nas brenhas de meu hipotálamo;
às vezes beijo por fora os mais diletos
receptáculos dos femininos prantos,
para depois copiá-los com meu cálamo!
SOBRANCELHAS SALGADAS X
Que eu saiba, até hoje não quebrei
sequer um só de tais receptáculos;
não preciso por enquanto andar de báculos,
se bem bengala, só por farra, já usei!
Quando era adolescente, me adonei,
na inocência de meus tímidos cálculos
de meu bisavô a bengala, em animálculos
vagares com que o mundo desafiei.
Mas faz um quarto de século se queimou,
só seu castão de prata conservei,
reduzido, porém, a massa informe.
Mas meu depósito cada vidro ainda guardou
dentro da mente aonde os coloquei,
onde se agita cada sonho que ali dorme!
SOBRANCELHAS SALGADAS XI
Qual será então o mais infame sedutor?
Aquele que consegue amor carnal
e logo desfrutado, tal como animal,
já se retira em busca de outro ardor
ou aquele que só tem esse pendor
de guardar para si o espiritual
e que pretende, mais além do temporal,
conservar como tintas de pintor
e o empregar no tempo que se esfia,
como motivo para seu gentil labor,
tal multidão de sonhos esfaimados,
sem a qual, em verdade, nada cria,
por mais artificial sendo esse amor,
pelos farnéis de quimeras desfrutados?
SOBRANCELHAS SALGADAS XII
Destarte deixo para ti a decisão,
se por acaso arriscares chegar perto
desse que tem o coração aberto
para a menor promessa de emoção
e que faz de só palavra o galardão
e lírios faz brotar em seu deserto,
bem mais temendo achar um bom acerto
que uma recusa que lhe parta o coração.
E assim confesso sofrer de leucemia
pelas hemácias que de outrem furtei
e que na mente conservo ainda escondidas,
pois preferi recolher cada agonia
que as palavras de alegria que escutei
e transformei nas estrofes mais sofridas.
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