terça-feira, 22 de abril de 2014





BEIJOS DE ANTANHO I – 16 MAR 14

Lembro teu beijo com sabor de chuva,
Gotas aladas na língua desmanchando,
Toda a poeira da amargura despachando
Para o passado, qual descartada luva.

Lembro teu beijo, doce baga de uva,
Contra o céu de minha boca se roçando,
Ao verdadeiro céu me transportando,
Mas depois me corroendo qual saúva.

Por não se repetir, passados anos,
O mesmo ácido frequente me retorna,
A língua seca de em si mesma se roçar,

Meus lábios a mortalha desses danos,
Por queimadura de tua boca morna
Que só outro beijo teu pode abrandar.

BEIJOS DE ANTANHO II

Lembro teu beijo com sabor de amora,
Doce no início, mesclado de acidez,
Beijo perdido quando amor se fez
Na tarde oculta de distante outrora.

Lembro teu beijo em cheiro de demora,
Por empoeirado o retorno, em sonho e pez;
Tornou-se apenas nas palavras que hoje lês,
Triste ressaibo de tão distante hora.

Passam as décadas, sem dúvida, e a lembrança
Retorna ainda, de certo engalanada,
Por tanta vez no passado recordada.

Deixou teu beijo de ser uma criança,
Adolesceu, fez-se maduro, se casou
E na minha boca só o ressaibo me ficou.

BEIJOS DE ANTANHO III

Lembro teu beijo com sabor de fada,
Mescla potente de alegria e solidão,
Inesperado beijo, sem paixão,
Pequeno beijo, sem conduzir a nada.

Lembro teu beijo de condão, em cada
Cerrar de olhos no cansaço da estação;
A palma cobre da tarde sua invasão,
Nesse usufruto da memória inesperada.

Mas já se foi tanto tempo, que receio
Seja o teu beijo tão somente devaneio,
Cria e colheita desta imaginação,

Numa lembrança que apenas figurei
De tanto repetir do sono ao meio,
Que até acredite que algum dia te beijei.

BEIJOS DE ANTANHO IV

Lembro teu beijo como um vagalume
Que minha boca enxergou, mas não o olhar;
Beijo teu beijo em constante meditar,
Por onde quer que minha lembrança rume.

Beijo teu beijo como o quente cume
Da adolescência, num passado milenar,
Lembro a frescura que soube despertar
De sensações brilhantes como lume.

Lembro teu beijo no estridor que desce
Pela garganta e me enche o coração,
Descendo ao ventre em nova sensação.

Mais difícil descrever do que uma prece,
Súbito choque forjado de surpresa,
Metade susto, metade uma incerteza.

ONIROMANTE I – 16/7/2006

Eu me acordei de um sonho, em que deitavas,
Sobre meu peito; as ondas dos cabelos
Me acarinhavam, na vaga dos desvelos:
Mesmo ao ver que eu não queria, me beijavas.

E quantas vezes busquei que me abraçasses
E recusaste, por qualquer pretexto...
Mas sempre que fugi desse contexto,
Algo fazia com que retornasses...

Depois de tudo que tinha acontecido,
Não foi estranho que eu, um sonhador,
Por me ver desse modo entristecido,

Em consequência de teu querer despótico,
Por grande fosse a potência desse amor,
Me contentasse afinal, com um sonho erótico.

ONIROMANTE II – 14 mar 14

Sonhos eróticos a todos acometem,
Se bem que muitos não os queiram relembrar:
Censura onírica costumam mencionar,
Vergonha ou medo do que os sonhos nos remetem.

Ressentimento, porque os sonhos se intrometem
Em nossa vida de consciente planejar
Ou na aquiescência do tranquilo conformar,
Por tais inquietações que nos projetem...

Ou então se aceita o que os sonhos nos prometem,
Talvez com um certo sorriso de ironia,
Nessa armadilha que, quiçá, nem se queria,

Quando erotismos reais se nos repetem
Ou que se os julga para sempre ultrapassados,
Melhor nos sendo que sequer fossem lembrados.

ONIROMANTE III

Mas quem em versos se agita e se emaranha
Recebe bem tais sonhos gritadores:
Da inspiração são fiéis agitadores;
Cada erotismo de poemas se acompanha.

Quando assaltado, o cérebro se assanha,
Sem ter, na real vida, iguais amores;
Sem dúvida, são diversos seus ardores:
Por que sonhar o que se tem e o que se ganha?

Pois muita vez, são os sonhos esquecidos,
Mas no consciente deixaram impressão
E por falta de pudor, então se escreve

Não o retrato fiel dos sonhos tidos,
Mas essas lascas cravadas de emoção
Antes que o vento da manhã as sopre e leve.

ONIROMANTE IV

Sonhos eróticos são bem mais que fantasia
E não nos servem para masturbação;
Sob o disfarce do amplexo, inspiração
Se impõe aos dedos em mortalha de elegia.

Que importa surjam por fantasmagoria,
Se nos provocam mental menstruação
E nos preparam para a nova geração,
Nesses mil óvulos de versos que se cria?

Sem dúvida, é um pendor de bruxaria,
Que invoca espíritos de fragor distante:
Escrever versos é dos sonhos a magia...

Muito mais que charlatão ou quiromante,
E sem buscar nada ganhar, eu só queria
A nebulosa do mister de oniromante!...

SOMBRAS CLARAS I – 15 MAR 14

A dor eu sinto quando entredevoro
as mil palavras de alheio desafeto,
cuja adesão em mim jamais completo,
porém se tornam em minha pena quando choro.

A pena é minha quando o tema afloro,
não obstante, meu não é seu objeto:
pena da pena e não do meu afeto,
não é minha pena que ao coração deploro.

Alheia a pena dentro ao coração,
que tão somente descrevo em empatia,
é minha a pena que me brande a mão,

mais que essa pena que ao peito nem sentia
por apenas compreender tal emoção
mas não a mágoa em que se desfazia. 

SOMBRAS CLARAS II

Porque essas penas que com penas descrevia
não eram mais que sombras entrevistas
na minha vaidade, ao vezo das conquistas
de estranhas mágoas que apenas entrevia;

e se me escapavam dos dedos, em folia,
nalma deixando tão somente leves pistas,
sombras fugazes que em teu suor avistas
sempre que idêntica emoção te afetaria.

E em tal calor que pelo rosto sobe
nesse rubor que te poreja a testa,
não há palavras de pedra, mas de adobe.

Sonhos de barro ressecado ao sol,
que se recolhe na mais branda festa
e se projeta e se amplia qual farol.

SOMBRAS CLARAS III

São como as sombras ao cair da tarde,
meio indecisas, difusas no crepúsculo,
meio ocultadas pelo lusco-fusco,
pobre fervor que sequer na pele arde.

Mas recolhidas por quem bem as enfarde,
são emoções de pérola e corpúsculo,
presas em nervos, sem vigor de músculo,
em fios de penas que a memória encarde.

São claras sombras tais alheias penas,
quase indistintas no solar do egoísmo,
contra as paredes encolhidas em empenas,

tortas, coitadas, em tal desprezo alheio,
até a surpresa feita de altruísmo
que inda as recolha sem qualquer receio.

SOMBRAS CLARAS IV

Mas se tiveres o dote da empatia,
poderás compreender estes singelos
versos opacos, que até pareçam belos
que mais não seja por seu véu de nostalgia.

Porque tais sombras recolho em simpatia
e em novas penas simples de desvelos
quero torná-las visíveis em meus zelos:
talvez não as sintas igual como eu queria

penas idênticas às que tens no coração,
pois ao espaço eu lanço minhas gavinhas
para sonhar de ti mágoa e tristeza;

mas caso te comova esta emoção,
é de tua própria sombra que avizinhas,
vogando assim em tais penas de leveza...

BEIJOS DE SOL I – 17 MAR 14

O sol brilha dourado, mas só teus olhos vejo,
castanhos e leais, como no antigo fado,
a brilhar mais do que o sol iluminado,
mesmo nas pálpebras fechadas para o beijo.

Durante a noite, mais líquido é esse ensejo:
teus olhos me iluminam, do meu lado;
pestanas nutrem o farol para onde nado,
desnudo para ti, livre e sem pejo.

Meus lábios sopram a brincar assim contigo,
iguais que lamparina os olhos que respiro,
a luz tremula em resplendentes íris;

em última busca, alcanço o teu abrigo;
teu rosto contra o meu, em tal carinho viro
e me aqueço à flama azul de teu arco-íris.

BEIJOS DE SOL II

O beijo é fim em si ou só caminho
para outro beijo em boca mais profunda,
lábios carmim de esperança mais jocunda
(dizem que a rosa anseia pelo espinho).

O beijo é cálice do mais rubro vinho,
feito do sangue e suspiro mais fecundo,
tal beijo sem censura, beijo fundo,
nessa troca de gênero e azevinho.

Quando teu beijo de singulares traços,
já desde o início feito esquecimento,
semiadormece desde o despertar,

prelúdio apenas para mais abraços,
feroz prefácio para o esgotamento,
para outros beijos mais suaves provocar.

BEIJOS DE SOL III

Teus beijos queimam, sem dúvida, qual sol,
pois toda a vida do ontem carbonizam;
meus recordares se apagam e deslizam,
nessa luz longa que espalhas qual farol.

E assim toda a escuridão lança em crisol,
em tal memória de túnel que improvisam:
somente as bocas e os olhos que se visam
nesse cone de luz qual arrebol...

Todo o restante da vida feito em treva,
enquanto a luz do beijo, hospitaleira,
nos ilumina e nos ferve, num momento,

e para instante de luz maior nos leva,
até se apague a vela derradeira
desse beijo em baixamar de esquecimento.

Amor de rosário i – 18 mar 14

“SÓ QUEM AMOR NÃO VENCEU, O AMOR CONHECE”,
NOS DISSE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT;
EMBORA PROSA FOSSE, É BOM QUE O IMITE
ESTE SONETO QUE TAL FRASE NÃO ESQUECE.

AMOR, SEM DÚVIDA, É NOVELA E PRECE,
AVEMARIAS A REPETIR QUE A MÃE INCITE
PARA ATENDER AO PEDIDO E QUE SE AGITE
AO REPETIR DA FÓRMULA QUE AQUECE.

BEM RARAMENTE TEM RESPOSTA A ORAÇÃO
OU QUANDO A TEM, DIFERE DO ESPERADO:
A GENTE GANHA O QUE PEDIU E NÃO QUERIA.

E ASSIM AMOR, EM SUA NOVELA DE PAIXÃO,
PERDIDO O OLFATO INICIAL DE SEU PECADO,
TAMBÉM SE ESGOTA EM SABOR DE NOSTALGIA.

Amor de rosário iI

HÁ MUITOS SÉCULOS, DIZIAM OS ROMANOS:
“PENSA BEM, QUANDO ESTIVERES SUPLICANDO;
ALGUM DEUS TALVEZ ESTEJA TE ESCUTANDO
E TE ATENDA AOS PEDIDOS MAIS INSANOS.”

POIS TEUS DESEJOS SÃO BUQUÊS DE ENGANOS;
PENSA BEM, AO FICARES TE AJOELHANDO
OU NOVAS VELAS SOBRE O ALTAR ILUMINANDO:
PRODUZ-SE A LUZ POR CAUSAR À CERA DANOS.

POIS TODO O AMOR É FEITO DE ESPERANÇA
E SE DESEJA TÃO SÓ O QUE NÃO SE TEM:
AMOR EXPLODE ENQUANTO AMOR NÃO VEM

E SE DERRETE DEPOIS QUE AMOR ALCANÇA,
SEM MAIS TEMOR OU QUERER DO CONHECIDO,
ANSIANDO ENTÃO POR NOVO BEM QUERIDO.

Amor de rosário iii

A CADA VEZ QUE POR AMOR SE ANSEIA,
POR ENTRE OS DEDOS SE ARREDONDA CONTA;
AS MESMAS LÁGRIMAS SÃO DE POUCA MONTA
EM MIL COLARES DE SALGADA VEIA.

A CADA VEZ QUE AMOR NOS ARRECEIA,
SALTA DO PEITO A ALMA EM FÚRIA TONTA:
PARA O FULGOR DO AMOR A FRECHA APONTA
E NESSA FLAMA O PEITO INTEIRO SE INCENDEIA.

MAS QUEM O AMOR NA VIDA ASSIM VENCEU,
SEM AO CONTRÁRIO, DO AMOR SER O VENCIDO,
AMOR CONFUNDE COM SEU NOVO SENTIMENTO

E PENSA ENTÃO SER AMOR APENAS ISSO,
PRESO NA TRAMA PERPLEXA DO CASTIÇO,
DEIXANDO AMOR FUGIR DO PENSAMENTO.

BEIJOS ÁVIDOS I – 19 MAR 14

de madrugada, as fantasmas me visitam,
mesmo do sono estando já acordado,
de meus sonhos sexuais bem despertado;
para outro nexo é que as larvas vêm e incitam.

para outras eróticas imagens não concitam,
pois delas vivo perpetuamente aparelhado,
em seu balé diuturno, lado a lado,
razão de ser desses poemas que me ditam.

mas as fantasmas me beijam, avidamente,
nos olhos e na nuca e sobre os dedos,
escorrem a límpida saliva dos segredos

e ao desvendarem o quanto complacente
fica meu ânimo a seus assentamentos,
escravo e amo de alheios julgamentos.

BEIJOS ÁVIDOS II

caso seus beijos deixassem em minha boca
essas lâmias furtivas e famintas,
a minha vida pautariam noutras tintas:
não é meu sêmen que essa tribo deixa louca,

pois cada súcubo que a carne me provoca
outras sementes espreme por suas fintas,
que não te cause pejo enquanto pintas
no imaginar o que o desejo aloca...

pois não me vêm roubar suor ou sangue
para levar a qualquer íncubo impotente;
é mais o cérebro que tornam quase exangue,

porém que sinto ser assim exercitado,
igual que músculo de expressão frequente
mais forte fica quanto mais solicitado.

BEIJOS ÁVIDOS III

pois vampiros, em geral, perdem o sexo,
por mais que busquem conservar tal qualidade;
são intangíveis ao comum da humanidade,
que nem sequer pressente o seu amplexo.

bem diferente é a força do seu nexo,
querem ainda pertencer à humanidade,
nessa avidez de beijos sem maldade,
em que o sexual nunca passa de um anexo.

assim, é mais meus dedos que perseguem
e do antebraço controlar a musculatura,
para expressar seus derradeiros pensamentos

e aonde vou tais espíritos me seguem,
intermediário da avidez mais pura
desses seus beijos de tranquilos sofrimentos.

OLHAR DIVINO I – 20 MAR 14

PELO BRILHO SEMPITERNO DAS ESTRELAS
SÃO MIL OLHOS DE DEUSES QUE ME VEEM
É CERTO CONTEMPLAREM A TI TAMBÉM
MAS EU PERCEBO MELHOR AS SUAS CANDELAS
NEM TODAS FORTES, PORÉM PÁLIDAS VELAS
CONTRA O VELUDO DO MANTO SE SUSTÊM
SÃO MIL TRAÇAS QUE O FURARAM COM DESDÉM
SOBRE NÓS A LANÇAR SUAS ESPARRELAS
CHAMAS DE RAIOS CÓSMICOS AS FAGULHAS
QUE BROTAM DESSES OLHOS, INCESSANTES
QUE A VIDA NOS CRIARAM E A DESTROEM
EM ILUSÃO, NOS ENREDAMOS NAS PAMPULHAS
ENQUANTO FOGOS NOS CORTAM, TRIUNFANTES,
TÃO SÓ TALVEZ PELO PRAZER
COM QUE NOS ROEM

OLHAR DIVINO Ii

AQUI NOS ACHAM SUAS VISTAS REBRILHANTES
DARDOS QUE CORREM MILÊNIOS SILENCIOSOS
FÁLICOS SÍMBOLOS SEUS FACHOS PODEROSOS
QUE NÃO SE EXTINGUEM,
POR MAIS SEJAM DISTANTES
ADORADOS POR HUMANOS INCONSTANTES
DORMEM ALGUNS NOS TÚMULOS UMBROSOS
ENGOLIDOS POR DEMÔNIOS INVEJOSOS
NO CAOS E NA ENTROPIA VIGILANTES
PORQUE AS ESTRELAS SÓ BRILHAM PARA NÓS
ENQUANTO FOREM POR NÓS RECONHECIDAS
DOS GRANDES TEMPLOS ESCUTANDO A VOZ
PORÉM CESSADAS SALMODIAS ESQUECIDAS
MENOS DE AMOR QUE DE TEMOR ATROZ
ASSIM SE APAGAM SUAS VISTAS RESSEQUIDAS.

OLHAR DIVINO Iii

POUCO IMPORTA O QUE FALEM OS CIENTISTAS
AS SUAS TEORIAS GÉLIDAS FARFALHAS
NENHUM DELES ASCENDEU A TAIS MEDALHAS
SÓ TELESCÓPIOS A AMPLIAR SUAS VISTAS
E SE ESTENDEREM AOS MONTES AS CONQUISTAS
VERÃO SOMENTE CEM IMGENS FALHAS
QUE AMPLIAÇÕES NÃO PASSAM DE ACENDALHAS
SÃO BEM DIVERSAS PARA QUEM
LHES SOBE ÀS CRISTAS
POR QUE SERIAM AS ESTRELAS SÓ FOGUEIRAS
QUE SE ACENDEM SEM FÓSFOROS OU ISQUEIROS
SERÁ QUE QUEIMAM A PRÓPRIA ESCURIDÃO?
ANTES QUE SEJAM FACES MAIS FAGUEIRAS
QUE NOS CONTEMPLEM DOS IMORTAIS LUZEIROS,
EM CADA QUAL A PALPITAR UM CORAÇÃO!

O TRUQUE DO CEGUINHO I – 21 MAR 14

Amor é um ceguinho bem guloso,
que anda tateando, de alumínio com bengala
e em cada coração depõe sua gala,
porém não por qualquer ato amoroso...

Amor é antes um ogro tenebroso
que pela escuridão erra e resvala;
o seu suporte encrava em cada fala,
buscando apenas um apoio poderoso.

         E quando vê que só há fragilidade
         em cada alma e peito dos humanos,
         deixa um buraco em cada coração

                   e vai cravar sua bengala, sem maldade,
oca, afinal, já que foi feita de canos,
em qualquer alma de que espere proteção.

O TRUQUE DO CEGUINHO II

Porque Amor não vem trazer-nos benefício,
pois sendo cego, só quer em ti apoiar-se;
caso fracasse, só deseja levantar-se,
pouco lhe importa ter causado um malefício...

         Amor é apenas um mendigo sem ofício;
         dos corações quer tão só apoderar-se
         para bem fundo sua muleta assim cravar-se,
         caolho ciclope a perpetuar seu vício.

                   É assim que nos machuca sem ter pena,
                   mesmo porque não é mais que uma criança:
                   Amor é forte apenas no começo,

                            quando a ponteira nova senda acena,
                            tal qual se houvesse ali uma esperança
                            e não sua dança indiferente e sem apreço.

O TRUQUE DO CEGUINHO III

Ninguém devera por isso se espantar
que o coração, depois de perfurado,
bem facilmente possa ser quebrado
ou antes, partido, como a gente ouve falar.

         E igualmente, é bem difícil estranhar
         que o coração, remendado e revestido
         por bondade ou por carinho bem nutrido
         não mais deseje outra vez se enamorar!

Mas o menino cego e tão antigo
também dispõe de pequeno par de asinhas
e então retorna, parecendo até voar...

e sua bengala perfurante traz consigo,
bem oculta entre as penas pequeninhas,
os corações a iludir para flutuar!...

O TRUQUE DO CEGUINHO IV

E no momento em que se baixa a guarda,
suas asas para, bem depressa, de abanar
e sua muleta de alumínio vem cravar
nos corações, qual aguilhão de carda

e uma nova paixão então não tarda
em azul e ouro e rosicler brilhar...
Desilusão vem de novo, sem tardar,
coberto o quadro de camada parda...

E então Amor, o ceguinho sem vergonha,
ao ver que sua bengala ali já afunda,
bate as asinhas e logo vai-se embora...

Deixando o furo no coração que sonha,
a alma curvada ao peso da corcunda,
a dor lembrando que já sentiu outrora!

DESLUMBRAMENTO I – 22 MAR 14

Que seja amor espanto, já foi dito,
lugar-comum da mágoa e do desdouro,
a frase feita ao tiracol de couro,
a balançar por sobre o peito aflito.

Que seja amor o sonho mais bonito
a perdurar na alma, qual tesouro,
já se disse também; e o quaradouro
em que desbota o julgamento mais contrito.

Que seja amor assim borra de anil,
polvilhada de leve, à luz do sol
ou as lascas estilhadas a buril

do coração a sonhar demais ao alto,
que foi lançado na cratera do crisol,
por se deixar levar de tão incauto!...

DESLUMBRAMENTO II

Que seja amor egoísmo e sofrimento
de quem anseia tê-lo sempre para si;
que seja amor o descuidar do bem-te-vi,
que nos previne em prévio julgamento;

que seja amor votado ao esquecimento
de quem não busca usufruí-lo aqui,
mas só gozá-lo igual que o colibri,
que apenas beija e se afasta num momento,

certo é que amor pode pairar no espaço
ou então pousar no alto da paineira,
pois não o podes agarrar, rápido o passo

que seja o teu, pois mais veloz se esvoa
e desse tronco cada espinho se aligeira
para o atrevido rasgar e o não perdoa!...

DESLUMBRAMENTO III

Porém amor é sonho de neblina,
em mil gotas refletindo a luz do Sol
ou te rodeia em rede de farol,
deslumbramento nos olhos da menina.

Afundamento no pantanal da sina,
mil sensações de multifário rol,
cem armadilhas para súbito crisol,
poça de cal que a carne rói e afina.

E no entretanto, a quem amor afeta,
por esse egoísmo que a si mesmo nega,
pouco lhe importa satisfação completa,

pois o que busca é a maior desfaçatez,
que o endorfina e deixa a alma cega,
pisando em falso no véu da embriaguez!

APÓLOGO I – 23 MAR 14

Existem poetas às centenas por aí,
muitos mais do que se pode imaginar,
cada um surpreso do próprio versejar,
bicando versos no adejar do colibri.

Entusiasmar a alguns já me sofri,
os meus modelos, porém, a lhes mostrar,
sem verso livre, que qualquer pode montar:
figueira brava cujos frutos não colhi.

Fui escolhido pelos deuses do soneto
e a eles me ajoelhei, em devoção,
sem pretender praticar apostasia,

embora, às vezes, algum formato mais dileto
empregue para história ou narração,
a que o soneto não se prestaria...

APÓLOGO II

E não me sinto preso em tal formato;
pelo contrário, dá-me liberdade,
muito mais que essas linhas de vaidade
com que se expõem os outros, sem recato,

por ser mais fácil o gingar do pato
do que o vogar do cisne, na verdade,
ainda que eu busque a marmórea qualidade
no quartzo, na mica e ao feldspato.

Não me prendi aos temas harmoniosos
de um amor cuidadoso e nada ousado,
que explicitei o sexo em poemas,

nem limitei-me aos tons voluptuosos,
mas invadi o religioso, apressurado,
e discuti filosofia em minhas verbenas.

APÓLOGO III

Que segue, pois?  Que a minha indumentária
se coaduna às paredes do salão.
Seria até capaz de usar fardão,
se a Academia não me chamasse pária.

Mas roupagem usaria até bem vária,
dependendo do formato da ocasião.
De mangas curtas afundado na emoção
ou de casaca em situação hilária.

Na falta de chapéu, uso boné,
sem meu verso transformar em operário,
nem usar sobrepeliz em auto-de-fé,

pois sou eu mesmo e aceite quem quiser
esse meu jeito um tanto ou quanto atrabiliário,
sem que plagie a ninguém no meu mister.

APÓLOGO IV

Apenas deixo que a palavra flua
e se acaso alguma linha reconheço,
aspas coloco, a demonstrar apreço:
acho obscena a citação mais nua.

E caso alguém detestar palavra crua,
sinto muito, mas delas não me esqueço;
só as mais grosseiras com cuidado meço,
sem permitir que pernoitem em minha rua.

Mas trato as coisas por seus próprios nomes
e descrevo sem temor quaisquer ações,
igual que as lembro ou como me mostraram;

ás pornográficas apenas ergo os cones
alaranjados, nas esquinas das paixões,
que até o presente nunca me cruzaram.

LENOCÍNIO I – 24 MAR 14

Os passos andam pela rua escura,
qualquer ventre a buscar, desocupado;
amor não anda aqui: foi alijado,
só se demanda a impudicícia pura;

a carne longa à funda se mistura,
num movimento veloz e sincopado
ou então lento, meio a medo do pecado;
nada é gentil ou carinhoso nesta altura.

Grandes cidades tais coitos favorecem,
na mais casual e breve excitação:
o leito, às vezes, é só uma parede.

Anjos de carne que na Terra descem
para atender, despidos de emoção,
passos furtivos movidos pela sede.

LENOCÍNIO II

Hoje que é fácil ter, sem compromisso,
bocas promíscuas no canto da balada,
em qualquer canto, sem levar a nada,
ao custo apenas da entrada a preço fixo,

os ouvidos a estourar ao som prolixo,
bebida forte em moeda inflacionada,
um comprimido aqui, pastilha alada,
qualquer fungar de pó, boca de lixo,

em que meninas, sequer adolescentes
competem, na maior promiscuidade,
para ver quem pega mais na agarração,

seria até de esperar que poucas gentes
fossem às ruas para o ardor de opacidade
e assim entrasse em moratória a profissão.

LENOCÍNIO III

Mas muito embora a balada, em luz difusa,
ensurdecidas a mente e a audição,
bocas e mãos perdida a direção,
permita a semibreve ação escusa,

na proteção da plástica camisa,
na segurança de anticoncepcionais,
em que as drogas descontrolam ainda mais
a alma rasgada que ao prazer apenas visa,

existe o velho, o feio e o pervertido
e pelas ruas anda o desajustado,
buscando simples ou complexo tratamento

em tais lugares onde tudo é permitido,
o preço pago conforme combinado
e então os passos vão-se embora, num momento.

OFERENDA I – 25 MAR 14

À beira-praia ela se abre por inteira,
Lábios e ninfas demandando sal.
O mar avança, em sua maré total
E ela recebe a investida hospitaleira.

É de Posêidon a marcha alvissareira,
Ela se estende, aberta para o mal,
Vazia a praia, lua nova de estival
Penetração de onda em cordilheira.

Não lhe bastam os homens, afinal,
Ou talvez já os tenha tido em demasia:
Ela se deita qual oferta a Iemanjá

E assim se lava, nesse empenho divinal;
Ergue-se antes de beijar a maresia,
Recolhe as roupas e aonde vai? – sabe-se lá!

OFERENDA II

Ou talvez, apenas deite sobre a areia,
Semidesnuda para que a quiser ver,
Indiferente, quer a Apolo pertencer;
Se coliformes fecais muito receia,

Do crepitar do Sol porém anseia,
Julga ser bela a pele a escurecer,
Apenas deita junto ao mar, a oferecer
Pernas e ventre enquanto o peito se incendeia.

E a multidão nem a vê, indiferente,
Alguns correm, outros nadam nas marolas,
Alguns namoram, outros jogam frescobol

E ela se orgasma em seu vício tão frequente,
Nessas carícias que lhe sobem desde as solas
De seus pés e a consomem num crisol.

OFERENDA III

Raros os homens que se deitam desta forma,
Mais serve o mar para proezas de surfismo,
Seus olhos buscam as carnes em nudismo,
Dentro em sua pele, cada jovem se conforma;

Basta o desejo que mais mulher a torna,
Sem que dele compartilhe, em seu egoísmo
Ou então sua imagem oferece, em altruísmo,
Que a imaginação alheia, após, adorna...

Talvez alguma demonstre até desprezo,
Ao ver-se assim por olhares desnudada,
Cobiça alguma a fará ser desventrada,

Salvo ela escolha alguém, pelo seu vezo
E o imagine qual sendo o Sol e o Mar
Por sal e luz se permitindo fecundar...