domingo, 17 de setembro de 2023


 

SEIOS ARFANTES I   (2007)

(Lillian Roth, musa do cinema mudo)

 

Alguém me aguarda e escutará meu verso

e todas minhas canções há de cantar

ou saberá ao violino executar

o meu lamento, em esplendor converso.

 

Alguém que compartilhe do adverso

pendor que tenho por melodia alvar,

tão diversa das outras, que esperar

não posso seja o gosto do disperso

 

grupo social em que preso me vejo.

Alguém que goste do que amo e compartilhe

do meu gosto em pintura e o mesmo vinho

 

queira tomar... e não demonstre pejo

por compartir a vida em que eu encilhe

meus velhos sonhos em ramos de azevinho.

 

SEIOS ARFANTES II  (20/10/2009)

 

Irei tomar da lira e à testa a faixa

cingir, para  assumir que sou poeta.

A vincha guaranítica do esteta

não é a mesma que sobre mim se encaixa.

 

Uma protege os olhos, quando baixa

o vento nos cabelos, flor de seta;

A outra demonstra a mais sincera meta

de seguir essa deusa que me enfaixa,

 

como múmia obediente a seu destino,

em que sua boca a ordem manifesta

que retransmite a nova exaltação.

 

Não sou mais que o badalo desse sino,

que o empuxo da corda não contesta,

mas fere o bronze em plena devoção!

 

SEIOS ARFANTES III

 

Lagartas vivem bem mais que borboletas

e se ocultam do Sol, que as ressecara,

enquanto a cor das asas mais buscara

A luz do sol, que mais as ressaltara...

 

Mas morrem logo, como as violetas,

retiradas da sombra que as cuidara:

quem sabe a vida mais lenta lhes passara

se fugissem ao sol, que lhes roubara

 

a duração da vida, ao dar-lhes cor...

Assim, prefiro a sombra por guarida

e as folhas da videira, em cartomância,

 

em mim conservam pleno meu vigor:

não sei qual extensão terá minha vida,

apenas sei que duração terá minha infância...

 

SEIOS ARFANTES IV – 14 setembro 2023

 

Torno à metáfora dessas borboletas,

porque as próprias borboletas são metáfora:

a vida inteira contida nesta anáfora,

que adeja iridescente, nas secretas

 

constelações de pó, mágoas completas,

no dilema da lagarta, tão pacata:

melhor viver a vida mais cordata,

porém mais longa, que usufruir diletas,

 

mas curtas horas, depois de abrir as asas?

A vida é assim, no seu obscurantismo:

se eu for um lepidóptero, muito em breve

 

me queimarei, nas lâmpadas das casas,

sem sequer me poupar um silogismo,

para queimar-me ao sol... dançando leve.

 

SEIOS ARFANTES V

 

Flor de ausência é teu rosto, essa milícia

de dias vazios, marchando arrependidos:

são de poeira de verso entretecidos,

de serragem e biruta, em sua malícia.

 

Quando murcham os jasmins, longe de ti,

deixam raízes que perderam viço:

esses infantes dispensados do serviço,

espelho negro em que não mais te vi.

 

Como eu queria que as bandeiras desfraldadas

desse exército de ausências tremulassem,

ao derredor de mim, como sentenças!

 

Estandartes de mil troças marchetadas,

talvez a me ferir então cercassem.

mas, pelo menos, me trariam tuas presenças. 

 

SEIOS ARFANTES VI

 

As vozes estridentes que hoje escuto

lembram tua voz, mais doce, de contralto;

os rostos entrevistos, no ressalto,

são pedaços de rostos no meu luto.

 

Fragmentos do espelho, que disputo

à minha própria memória, neste salto

ao passado, que assim tomo de assalto,

para com eles construir rosto impoluto.

 

A face da alma-irmã, que de minhalma

compartilha desde sempre, vida a vida,

porém que nesta não pude ainda encontrar,

 

que idônea inteira fosse e plena calma

conseguisse despertar na minha ferida,

na cicatriz que, enfim, me há de curar.

 

SEIOS ARFANTES VII – 15 set 23

 

São meus sonetos aves e cantam só à noite:

são rouxinóis de vento, cataventos,

são ampulhetas que meus sonhos bentos

encadeiam em silêncio que os acoite.

 

Durante o dia, da algazarra o açoite

faz gaiolas para os pássaros e os ventos

e os lançam para longe: só os mais lentos

permanecem adejando sem pernoite.

 

Os demais voam, sem ser jamais escritos:

até queria que em outro eles pousassem,

para soprar-lhe metáforas e imagens...

 

Não se perdessem assim, mas fossem ditos:

pelos lábios de outrem se cantassem,

ao completar suas estranhíssimas viagens.

 

SEIOS ARFANTES VIII

 

Sobre quais seios pousam borboletas

e como arfam as donas desses seios?

Será que arfam as borboletas em receios

que o movimento tenha intenções secretas?

 

Será que os tomam por flores incompletas,

com um botão apenas nos seus veios?

Sob a armadura dos vestidos buscam meios

de mel e leite sugar, voláteis setas?

 

Então arfam as asas e derramam

as mil tésseras de poeira de suas asas,

como um confete que se julga multicor!

 

Mas ai! longe das asas já se empanam

essas células-tijolos cor de brasas,

a escorrer como chuva sem penhor...

 

SEIOS ARFANTES IX

 

Caso eu fingisse borboleta ser,

para pousar, num astucioso jeito

sobre esse seio arfante mais perfeito,

as leves asas dos dedos a esbater,

 

lá não teria mil cores a perder,

caso eu arfasse sobre o puro leito,

mas abrangeria duas flores num trejeito,

antes que um susto me fizesse desprender!

 

Dificilmente meus dedos, nesse ensejo,

assumiriam das asas o esplendor,

com muita sorte, pareceriam mariposas,

 

na carícia gentil do estranho beijo,

sem que os lábios suspirassem de calor,

fingindo as unhas serem pétalas de rosas!

 

SEIOS ARFANTES X – 16 set 2023

 

Eu não teria mil tésseras de cor

sobre teus seios para depositar,

só fragmentos de meu rosto a derramar,

em cada qual meu reflexo incolor. 

 

Será que os dedos que se movem com ardor,

de algum modo, se poderiam transformar

nessas patinhas gentis, no meu penar

que não arfasse para mim o seu olor...

 

Os brancos seios ou os seios das morenas,

os seios negros de um igual fervor,

mais destacadas as borboletas nesse palco,

 

meus pobres dedos a sussurrar verbenas,

sem imitar poder, em seu pleno despudor,

as borboletas a derramar seu talco!...

 

SEIOS ARFANTES XI

 

Para minha lástima, os seios arfariam,

porém de nojo, surpresa ou de rancor,

talvez de medo, percebendo em quase horror

as mãos perdidas que se destacariam

 

dos próprios braços e assim disfarçariam

serem mãos minhas, cada uma inseto multicor,

mimetizado nessas artérias de palor,

pois só assim teus seios tocariam!...

 

Se olhasses bem de longe o amargurado

destes dedos que rasgaram tantos versos,

melhor teus seios tocar do que a poesia,

 

em lepidópteros cada dedo disfarçado,

antes de serem para o chão dispersos,

presa do passo que os enfim esmagaria!...

 

SEIOS ARFANTES XII

 

Contudo, em cada grão desprenderia

uma parte de meu rosto abandonada

para a troça que a teria marchetada,

não de safiras, mas de pura zombaria!

 

Assim meu rosto no chão se arrastaria,

asas partidas, flor apisoada,

perdida a máscara tão só imaginada,

no voyeurismo que me sacrificaria!

 

Quando partisse a dona de teus seios,

com os pulsos sobre o chão me abaixaria,

a recolher meus dedos esmagados,

 

da testa a vincha tiraria em tais meneios,

e cada inseto falso apanharia

para o silvar de meus versos desprezados!

sábado, 16 de setembro de 2023


 

 

A FADA DO RIO XIX

 

Levko então até o Dnieper retornou

e devolveu a Rusalka o belo pente.

Yezibaba apareceu, muito contente:

"O encantamento agora se quebrou!

Os dois mostraram ter puro coração,

por esse ato de generosidade;

e a partir deste momento, na verdade,

foi pago o preço inteiro da poção!..."

 

Porém Rusalka dela desconfiou:

"Até o fim de meus dias vou viver,

no fundo deste rio, a padecer:

a inteira bênção a meu amor eu dou!...

Levko querido, não me dês um beijo,

porque irás, em breve, renascer

e a vida antiga irás toda esquecer,

até quando encontremos outro ensejo..."

 

Tudo ao redor sumiu, devagarinho...

Quando Levko acordou, era um moleiro...

Do que ganhava, quase tudo inteiro

ele entregava ao dono do moinho,

que era o pai de Rusalka, justamente...

Enquanto isso, Ana, já crescera

e por ela um grande amor desenvolvera,

pois se olvidara de Rusalka, novamente...

 

A FADA DO RIO XX

 

Porém Vássia, o pai das duas meninas,

de modo algum permitiria o casamento.

Estava rico, passara o mau momento

e não queria recordar as velhas sinas

de sua esposa e de sua filha amada.

Da aldeiazinha tornara-se o prefeito

e acreditava assim ter o direito

de casar Ana com gente endinheirada...

 

"De forma alguma, porém, com moço pobre!

Nem a queria jamais perto do rio!"

O pedido de Levko negou, com gesto frio:

sua filha Ana desposar iria um nobre!...

"Eu lhe arrendei o meu velho moinho,"

disse a Levko.  "Você trabalha duramente,

mas não desejo que minha filha se apresente

onde sua irmã encontrou tão mau caminho!"

 

Nesse momento, um tanto vagamente,

da boa Rusalka o jovem recordou.

Mas seu amor por Ana o dominou

e retornou ao moinho, tristemente...

Andou por longo tempo pela estrada;

depois à beira do rio adormeceu.

Porém, no meio da noite, percebeu

a sala do moinho iluminada!...