quarta-feira, 29 de novembro de 2023


 

 

A FLAUTA MÁGICA IX

(TAMINO E PAMINA)

 

“Mas prometeram-me uma noiva bela!...”

“Se não consegue a própria língua controlar,”

falou-lhe o Orador, severamente,

“como pode controlar a uma donzela...?”

Antes que possa de novo perguntar,

a noiva prometida vai-se embora...

Ele se põe a queixar-se nessa hora,

mas já na prova falhará totalmente!...

 

Os sacerdotes declararam a Tamino:

“Já superou o primeiro julgamento.

mas permissão ainda não tem para falar!...”

A flauta lhe devolvem e um menino

entrega ao outro as campainhas; e alimento

é colocado sobre uma grande mesa;

Papagueno vai servir-se, com certeza,

porém Tamino quer sua flauta dedilhar...

 

Então Pamina é trazida à sua presença

e um ao outro precipitam-se nos braços;

porém Tamino, às perguntas que lhe faz

nada responde e ela fica tensa,

desvencilhando-se assim dos seus abraços,

nessa suspeita de que não a ama mais,

pedindo a morte, por sofrer demais;

mas sua promessa Tamino não desfaz!...

 

Os sacerdotes ordenam a despedida,

mas seu silêncio o príncipe mantém,

mesmo sofrendo ao ver Pamina desolada.

Sozinha, lembra da adaga, desvalida,

e então pretende se matar também!...

Mas os Três Pajens vêm-na dissuadir,

tirando a adaga para o ato lhe impedir

e lhe garantem ser por Tamino amada...

 

A FLAUTA MÁGICA X

 

Enquanto isso, o pobre Papagueno,

que falhou em seu teste, inteiramente

se consola: “Queria só ter companheira...

A sua velhice é um cruel veneno,

mas os dois nos trataremos gentilmente...”

De imediato, a velha reaparece,

mas está tão feia, que Papagueno esquece

que a sua frase anterior foi verdadeira!...

 

Falou Sarastro: “Que permanece ainda vejo

sob a influência perversa da Rainha...

Então terei de mandar encarcerá-lo...”

Mas perante a ameaça que se enseja,

olhou direto nos olhos da velhinha

e declarou: “Vejo agora o interior

e sei poder tratá-la com amor...

Pois com ela casarei, sem mais abalo!;;;

 

“Pois então, beije sua noiva, meu amigo...”

disse Sarastro, “e prove o que me diz...”

Mesmo engolindo em seco, Papagueno

nos lábios murchos procurou abrigo

e a beijou como a um marido bom condiz...

No mesmo instante, um milagre a transformou

e em bela jovem a velhinha se mudou,

tornados doces os lábios de veneno!...

 

“Sou Papaguina,” disse-lhe a donzela,

que era em tudo a ele semelhante.

com penas verdes, embora a crista bem menor

e um bico delicado de ave bela!...

Mas o Orador a arrebatou, no mesmo instante:

“Você terá de passar por outra prova,

já que falhou na primeira, embora o mova

por sua noiva agora um certo amor!...

 

terça-feira, 28 de novembro de 2023


 

CADEADO I  (30/11/2009)

(Mistanguett, cantora e atriz do cinema francês)

 

Como posso ser feliz, se não estás comigo?

Se não vejo teus olhos, arqueados de ameixa,

se a impressão de teus beijos minha boca não deixa,

se teu ventre não tenho, em favor de perigo?

 

E posso ser feliz, no mesmo ideal antigo,

sem teus lábios macios, sem teus lábios de gueixa,

se teu punho crispado minha carne não enfeixa,

nessa ânsia voraz, nessa ausência de abrigo?

 

E posso ser feliz, sem nem estar contigo?

Se tuas passas maduras não tenho entre meus dedos,

se teus pelos de névoa não beijo em segredos,

 

se teu ventre colmeia adentrar não consigo,

nem ouço teu grito de ardores tão ledos,

que a carne nos templos do orgasmo persigo?

 

CADEADO II

 

Sentimento é uma lagarta no meu peito,

que me rói lentamente o meu pulmão

e que me faz prender respiração

a cada vez que te encontro no meu leito.

 

E se lá não estás, em meu despeito,

fico a buscar qualquer compensação

na música ou poesia, meu rincão,

em que essa ausência, sem querer, aceito.

 

O sentimento me devora, lentamente,

e meu próprio interesse assim anulo:

meu coração goteja e não se veda,

 

porém nutre essa lagarta permanente

e lhe retira os fios de seu casulo,

com que redijo meus mil versos de seda.

 

CADEADO III

 

Estou a repetir-me.  Já te disse

que meu desejo é que acordes a meu lado.

Há anos durmo só, neste isolado

mister de quem persegue quanto visse

 

de trabalho a seu alcance e que descansa

o mínimo que pode... Mas lugar

sempre busca nos teus braços, sem deixar

de te querer, em sua revolta mansa.

 

Por não achar em ti a compreensão

que tanto desejava, um ombro amigo

e não bengala de caule carcomido,

 

que em meu labor, não vejo mutação:

não é outra que quero, somente estar contigo,

buscando em ti meu único perigo...

 

CADEADO IV – 25 NOVEMBRO 2023

 

Depois de te amar tanto, o tempo foi-se

em que tanto te amei.  Só resta agora

o rancor desbotado em longa hora,

com que cortaste amor em aguda foice.

 

Se amor não se demonstra, o amor rói-se,

como traça vicejando em nosso outrora.

Pois te demonstro ainda, muito embora

suspeite estar-me expondo a novo coice.

 

Mas sou assim: um tolo sem remédio,

que tendo amor por dar, o distribui,

mesmo que nada receba em recompensa.

 

E lanço minha alegria sobre o tédio

que na tua alma existe e me compensa

notar que amor assim não se dilui.

 

CADEADO V

 

Amor é fruto de plena galhardia,

que ante o sol se apresenta, exuberante;

amor é um pêssego dourado e fumegante,

perante o sol que assim o evaporaria.

 

Amor é o seio para mim aconchegante,

que por capricho então me abraçaria;

amor é o colo que às vezes me pedia,

noutro capricho apenas instigante.

 

Amor não é somente a flor do instante,

em que se perde o ser em serodia

curva mortal, que se move tão depressa,

 

mas a acolhida paciente do inconstante,

como triste e calada melodia,

que nos chega do passado, sem ter pressa...

 

CADEADO VI

 

Amor, às vezes, é como formigueiro,

que nos excita por dentro, com ardor,

cada célula respigando em tal calor,

cada grão que balança no terreiro.

 

Amor assim comicha por inteiro

o coração e comove o seu pendor,

na alheia busca por dedos de amor,

alívio único quando deles me abeiro.

 

Amor se torna em perfeita embalagem

para meu coração tão vulnerável,

a recebê-la igual que uma garagem

 

em outro coração menos friável,

que o recolhe no meio da paisagem,

em que a geada o feriria de passagem.

 

 

 

CADEADO VII – 26 novembro 2023

 

Ter amor é avistar desfiladeiro

que se erga algures na distância

e se procura alcançar em plena ânsia,

rastros de sangue deixando no sendeiro.

 

Ter amor é esforçar-se por inteiro

nessa busca composta de cansância

e prosseguir apesar de cada instância

tornar mais longo o alcance derradeiro.

 

Ter amor é encarar com um binóculo,

visto às avessas, o espaço a percorrer,

que só está perto por meio da ilusão.

 

Ter amor é ver o mundo com monóculo,

um olho míope e o outro a perceber

o amargo fruto que nos traz desilusão.

 

CADEADO VIII

 

Amar é se jogar sem garantia

que esteja firme nessa corda elástica,

num salto de bungee, em ânsia espástica,

sem cogitar se afinal rebentaria!

 

Mas lançar-se assim mesmo, numa orgia

de espera e desconsolo, nessa drástica

inversão de um abrasivo, em piroplástica

nuvem escura que nos talvez destruiria.

 

E mesmo assim, sem pejo, buscaria

o amor achar após a escuridão

e ter o salto sustido na ocasião

 

em que mais se rebentar pareceria

e surpreender-se, no meio da fumaça

na acolhida desse amor que nos abraça!

 

CADEADO IX

 

Amar é entregar-se à exposição

de cada sentimento arboriforme,

mostrar-se ao mundo como ser disforme,

bufão ridículo em ridícula ocasião!

 

Mas esse bobo é inspirado por razão

de se fazer de tolo pluriforme

e se mostrar ao rei sempre conforme

a seus desejos, na mais cruel condenação!

 

Amor é ser um tolo aos olhos do objeto

dessa paixão, que nos aceitará,

muito embora o mundo inteiro faça troça,

 

na esperança de granjear todo esse afeto,

sem temor de que o peito quebrará,

mesmo guardando um coração de louça!

 

CADEADO X – 27 NOV 23

 

Pois quem ama só se acha em inquietação

e não se satisfaz em liberdade,

mas tão somente encontra saciedade

quando for preso na gaiola da paixão.

 

Tem grande sorte quem encontra aceitação,

mesmo que seja um gesto de piedade

e é encerrado por liberalidade

dentro das grades de outro coração...

 

Mas quem frequente entra sozinho na gaiola

e mesmo fecha por dentro o seu cadeado,

sem ter as chaves para o abrir de novo,

 

em vão depois as duas mãos esfola,

tampouco tem a chave o ser amado

e nem alpiste lhe dá para o renovo!

 

CADEADO XI

 

Amor é um passarinho que se avança

contra a luz da clarabóia, apavorado:

penetrou num coração despreparado

para a ele receber e assim se cansa,

 

projetando-se nos vidros como lança

mas sem ter força nem o peso desejado

para tal vidro ver enfim quebrado

e se projeta malferido em desperança!

 

Já percorreu o inteiro coração,

sem encontrar de amor acolhimento,

sem receber sequer sua simpatia, apenas

 

e quando alcança afinal libertação,

só o consegue após largo sofrimento,

abandonando nos cacos sangue e penas!

 

CADEADO XII

 

Também eu invadi o seu castelo,

igual penetra que não foi convidado,

para ver-me em tais quartos encerrado,

sem encontrar a luz de meu desvelo...

 

Piei em vão, trinando o meu apelo,

sem ter sequer em seu ombro me apoiado,

mas não queria sair, por mais magoado,

buscando o seu amor, porém sem vê-lo!

 

E não queria atravessar outra janela,

dando passagem para ir-me embora

desses confins de seu vasto coração,

 

não querendo ter vida longe dela,

em cada instante de minha final hora,

sem perceber que meu cadeado era a ilusão!

 

segunda-feira, 27 de novembro de 2023


 

 

AO RIBOMBAR DA MÁGOA I – 22 NOVEMBRO 2023

(Gina Lollobrigida, recentemente falecida)

 

Toda lástima costuma duplicar-se,

Especialmente quando for contida,

Tal sofrimento nos leva de vencida,

Remorso ou pena sem nunca afastar-se

         Nem é questão de arrepender-se do mal-feito,

         Que se haja cometido em longa vida,

         O que de fato deixa a alma malferida

         É o bem-feito que jamais foi feito.

                   Quando se pensa no mérito possível,

Qual sobremaneira enfatizam os budistas,

Ou quando esmola se nega sem razão,

         Ou quando se evita um elogio merecível

         A alguém que se interpõe em nossas pistas,

Um leve aperto a nos deixar no coraçao.

 

AO RIBOMBAR DA MÁGOA II

 

Muito depende de nossa formação,

Há quem nos diga que o importante é conseguir,

Outros falam que o melhor é repartir,

Ou nais valorizam nossa colaboração.

         Também o ambiente exerce a sua função,

Nem sempre será possível se cumprir

O que a família quis-nos transmitir,

Nesse momento real da decisão.

                            Ou até se tenta fazer o mais correto,

                            Mesmo incorreto aos olhos dos demais

E então se perde para a circunstância,

         Ou se buscamos o que desperta nosso afeto

         Nessa gente que nos prende em seus currais,

         Mas nos aplaude ou vaia em cada instância.

 

                   AO RIBOMBAR DA MÁGOA III

 

                   Mas mesmo tendo agido a vida toda

                   Tal qual nos programou nossa consciência,

Sempre fica o restolho da aparência

E sua mágoa a nos zombar por toda a roda.

         Sempre encontramos o incômodo da moda,

         Sempre a impelir-nos com furiosa ardência,

Ou qualquer lei de repelente impertinência,

A repetir-se em permanente coda.

         E então a mágoa ribomba em nosso peito,

         Seja na ausência do que julgamos ser direito,

Seja na perda fatal de quem se ama,

         Mágoa furtiva ou arguta em ribombar,

         Sempre a mente e o coração a perturbar,

         Que em sua  revolta constante nos reclama.

 

AO RIBOMBAR DA INGRATIDÃO I – 23 NOV 23

 

Nestes últimos meses infrequente

Mal-estar me acometeu e minha esposa,

Que tem gênio mais de espinho que de rosa,

Demonstrou-se interessada e competente.

        Levou-me à médica que atende a nossa gente,

        Boa geriatra de formação honrosa,

        Que prescreveu-me bateria pavorosa

        De mil exames de natureza ingente!

                Agora melhorei e novamente

                Seu mau-humor retoma o incentivo,

                O que não passa de um lugar-comum

                        E já posso responder-lhe complacente,

                        “Podes de novo brigar comigo sem motivo,

Para que eu possa pensar em te dar um!”

 

AO RIBOMBAR DA INGRATIDÃO II

 

Mas se quero falar honestamente,

Nunca pensei em lhe causar um dissabor

E realmente demonstrei-lhe meu amor

Por tantos anos de companhia frequente.

        Talvez lhe tenha dado no inconsciente

Algum motivo afinal de desamor,

Tanta influência do maior vigor

Determinando o que se faz injustamente.

        Mas certa vez lhe fiz uma promessa

        De sobreviver-lhe por tempo suficiente

        Para a honrar com a desejada cremação.

                Não é uma coisa de que jamais se esqueça,

                Mas grande mágoa sentiria realmente,

                Se não cumprisse essa final missão!

 

AO RIBOMBAR DA INGRATIDÃO III

 

Talvez de fato ela tenha o pensamento

De que um dia eu possa lhe faltar

E seja ela que deva me cremar,

Mas quanta vez manifestou o sentimento

        De ter perdido, com tanto desalento

        Tantas pessoas que soubera amar,

Que nova perda não poderia aguentar,

Seu coração despedaçado num momento.

        Quem sabe então, ela me cuide mais,

        A cada vez que sofro uma aflição,

        Por garantia de minha sobrevivência,

                Contudo eu penso, com temor demais,

                No que faria, na triste solidão

                Dos derradeiros anos da existência?...

 

NO RIBOMBAR DA ESCUTA I – 24 NOVEMBRO 2023

 

Não é sempre que me vem a inspiração,

Não é o mesmo que introduzir cartucho

No tambor de um revólver, nem eu puxo

Um gatilho para a feitura da canção.

        Mas no momento em que começa a redação,

        As palavras se alinham e meu bucho

        Regorgita poemas, nesse luxo

        Que não é dado a todo o coração.

                Mas esses versos que escrever decido

                Não apresentam a mesma qualidade

Que os que me brotam inesperadamente,

        Sem que faça objeção e nem pedido,

        Vêm das raízes de minha humanidade,

        Lavando os olhos em lágrima contente.

 

        NO RIBOMBAR DA ESCUTA II

 

        Mas o que noto é a intensa qualidade

De antigos versos que revejo de repente,

Cada elemento em encaixe pertinente,

Cada verso a correr em liberdade.

        E me indago então se só a vontade

        Pode me dar a quantidade onipresente,

        Mas que o melhor que faço no presente

        Não participa da mesma intensidade.

                Afinal, são milhares esses versos,

Que guardo ainda só em seu rascunho

E me pergunto se não devia parar

        E simplesmente digitar esses conversos

        Em datilografia, mas ao ver antigo cunho,

        Vêm-me esse impulso de seu tema continuar...

 

NO RIBOMBAR DA ESCUTA III

 

Talvez de fato seja esse o meu dever,

De ir buscar no fundo das gavetas

Aquelas falas antigas mais secretas,

Para ao teclado simplesmente transcrever.

        Quanto já datilografei em meu viver,

        Essas palavras de expressões diletas

        Ou de revoltas deixadas incompletas

        Ou de ironia contra quanto possa ver.

                Mas sinto as vozes ainda ao meu redor,

A digladiar com suas razões prementes

E me divido nesse sangue de atender

A quantas musas ou poetas sem amor,

Que ainda me enviam, em súplicas ardentes

Que lhes complete o que deixaram de escrever!