terça-feira, 31 de janeiro de 2023


 

 

RENARD E OS PRESUNTOS I – 27 NOV 16

 

Ora, Renard, escondido lá no mato,

a cena inteira contemplara, divertido.

Não comi nada, mas nem tudo foi perdido,

Pensou ele, gargalhando sem recato.

 

Eis que depois de todo aquele espalhafato,

Mouflart, o Abutre, é que tudo havia comido,

exceto as penas, consoante havia prometido

para Primaut, mas até o bico do pato!...

 

Saiu do galho, majestosamente,

ou quem sabe, por estar muito pesado,

e foi voando em direção ao ninho;

 

deixou Primaut a contemplá-lo, tristemente,

com fome e raiva por ter sido logrado,

sob o carvalho deixado ali sozinho...

 

Então Renard, como quem não vira nada,

aproximou-se do lobo, lentamente;

vendo Primaut, a lamentar profusamente:

chegou a chorar, ao ver o camarada...

 

“Renard, meu bom amigo, que maçada!

Perdão quero pedir-te, gentilmente...”

“Não zombes de mim, seu insolente!

Comeste o pato, uma grande tratantada!”

 

“Mas não comi, Renard, fui enganado!”

“E essas penas que estão a teu redor?”

“No momento em que o pato depenei,

 

“veio Mouflart e, num bote calculado,

roubou-me o pato e comeu tudo, vil traidor!

Em vão por um pedaço eu supliquei!...”

 

“Eu agi mal, mas fui bem castigado!

Humildemente, agora peço teu perdão...”

“Se foi assim, eu te perdoo, meu irmão!”

E um juramento de amizade bem sagrado,

 

os dois fizeram... “Ai, Renard, estou esfaimado!”

“Eu não estou.  Fiz há pouco uma incursão

àquela granja.  Bem cheio está o porão

de bons presuntos e comi um bom bocado!”

 

“Ai, presuntos!  Como eu queria também!,,,”

“Pois seja assim.  Olhe, a noite vem chegando.

É só esperar, que a seguir te mostrarei

 

por onde entrar e então comerás bem!...

Tão logo viram as luzes se apagando,

foram à granja, a seguir da fome a lei...

 

Ora, o porão tinha sido bem fechado:

a porta com cadeado e com corrente;

a janela tendo grade bem potente...

“Não dá pra entrar!  Está tudo trancado!”

 

“Sempre se encontra um ponto descuidado,”

disse Renard.  Junto à porta, bem à frente,

com o focinho empurrou pedra, calmamente

e ali mostrou por onde havia penetrado...

 

“Por várias noites eu cavei este buraco;

comi um pouquinho só de cada vez,

sem ceder à tentação de pôr num saco...”

 

“Até agora não me descobriram

e olhe que aqui venho há quase um mês!

Não há cachorro e os donos nem me viram...”

 

RENARD E OS PRESUNTOS II

 

Renard entrou pelo buraco, facilmente

porém Primaut, que era bem maior,

só conseguiu passar com grande ardor,

mas a fome impeliu-o, finalmente...

 

E no interior havia, realmente,

muitos presuntos do melhor sabor;

a comer já começou, sem ter temor,

porém Renard, como sempre, foi prudente.

 

“Não devias de comer esses da frente,”

explicou ele então ao companheiro.

“Das outras vezes eu comi só os de trás...”

 

“Ah, Renard, minha fome é bem potente!”

“Mas o melhor é sairmos bem ligeiro,

logo esse estrago vão notar que você faz!”

 

E de novo saiu Renard bem facilmente,

mas quem disse que Primaut o acompanhava?

Comera tanto que já não mais passava:

ficou entalado – quase completamente!

 

Disse Renard: “Saia logo, que vem gente!”

Mas de Primaut o ventre se entalava!

“Vire-se um pouco, é a posição que atrapalhava,

Empurre um pouco sua cabeça para a frente!”

 

E o pobre lobo ficou preso por guloso,

mal conseguindo a cabeça pôr lá fora

e Renard o segurou pelo focinho...

 

Puxou com força e o lobo, temeroso,

fazia força, já adiantada a hora!...

As orelhas lhe mordeu, com algum jeitinho!

 

Renard, logo a seguir, armou laçada

com uns cipós e ao pescoço lhe prendeu,

sem resultado... Primaut quase morreu,

os seus esforços sem resultar em nada!

 

Mas com o barulho foi a gente despertada

e o dono pela escada então desceu!...

Primaut soltou a laçada e se meteu

de novo no porão, sua defesa preparada...

 

Renard agira com toda a retidão,

mas agora, que mudara a situação,

bem depressa girou nos calcanhares!

 

E fugiu bem depressa do terreiro.

Que poderia fazer? Seu companheiro

era o culpado por seus próprios azares!

 

O camponês desceu rápido a escada,

com uma vela na mão para alumiar...

Então Primaut decidiu-se a atacar:

no lufa-lufa foi a vela derrubada!...

 

O camponês desferiu-lhe uma pancada,

mas nesse escuro não o pôde acertar...

Subiu à cozinha para outra luz pegar,

porém Primaut lhe foi atrás e deu dentada

 

bem nas nádegas gorduchas do sitiante!

Chegou a mulher com um pau para bater.

“É o diabo!... Vá pedir socorro!...”

 

Foi a mulher abrir a porta e, num instante,

Primaut largou-o e saiu a bom correr

e só parou após subir um morro!...

 

Caso lhe tenha chamado a atenção que todas estas histórias versam sobre fome e assalto a despensas bem fornidas, não existe nisso nada de casual.  Renard é um representante dos camponeses pobres.  Durante a Idade Média Intermediária, nos séculos XI e XII (anos mil e mil e cem), excelentes condições climáticas na Europa, causadas por um dos periódicos aquecimentos globais, aliadas à introdução da charrua de ferro que substituiu o anterior arado de madeira, à substituição do jugo na testa dos bois e cavalos pelo jugo peitoral, à difusão dos moinhos e outras benfeitorias, permitiram um grande aumento da população.  Mas a partir do século XIII (anos 1200), com o início da Baixa Idade Média, devido a erupções vulcânicas e longos invernos provocados por resfriamento global, as colheitas se tornaram escassas e mesmo inexistentes, provocando grandes fomes e facilitando a difusão da Peste Negra, a partir de 1353, já no século XIV.  A situação só melhorou com novo aquecimento global no século XV e a introdução de novos alimentos vindos da América, como o milho, a batata e a abóbora.  Somente os castelos, as abadias e as herdades fortificadas conservavam alimentos em celeiros e adegas e periodicamente eram assaltados por camponeses, durante as chamadas Jacqueries.

 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023


 

 

SONETOS EM INGLÊS

rarity -- mar 31, 2006

APRIL FOOL -- april the first, 2006

ASHFLAKES -- april the first, 2006

GIVEUPPANCE -- apr 2, 2006

FREE BOON -- apr 2, 2006

HINTING -- apr 7, 2006

 

 

RARITY --  March 31, 2006

 

Let you ever bear no doubt

On the shape of my infatuation,

On the splendor of my attention,

Or on the emotions lying about,

 

For no one shall love you as much,

Had you a hundred years to live,

You shall never a love achieve

In song as great as my touch.

 

Cannot then you perceive

To which degree are filled

Of you the tears I shed?

 

To which point you conceive:

The measureless love you instilled

From this single sight I had?

 

abaixo a versão original em português:

 

RARIDADE I -- ?

 

Não tenhas dúvidas nunca

Da forma do meu desvelo,

Do esplendor deste meu zelo,

Das emoções que te junca,

 

Que ninguém te amará tanto,

Quer vivas cem anos mais,

Não terás amor jamais,

Parelho amor a meu canto.

 

Pois então, tu não percebes

Até que ponto estão cheias

Minhas lágrimas de ti?

 

Até que ponto concebes:

Com teu olhar me incendeias

De amor qual nunca eu senti?

 

 

APRIL FOOL -- April the 1st., 2006

 

A fisherman draggin' ashore his empty net,

That's what I am, after hours travailin',

My heart tried, my body is all a-wet

Of sorrows thousand and hopeless a'waitin'.

 

Yeah, a fisherman, after years castin'

And rowin' abroad for the ransom that

My life would change, anglin' and baitin'

Until my hands bled; and then i'd squat

 

On that empty beach spanned by empty eyes,

All hope broken shells, yet nought a fish,

A crab, a lobster, not even the smallest

 

Shrimp to chew on, for all my sighs;

And realize then ---- that for a conquest,

Spilt salty blood after an empty wish...

 

 

ASH FLAKES -- 1/4/2006

 

Now I am to write about love achieved

And yet unfulfilled, for the target, somehow,

Tarnished when obtained, a closed show

After so much was promised and little viewed.

 

For sonnets accepted but as a tribute,

As well they were to be, but set aside

Without a further look, and then abide

As brackish water, like chimney's soot.

 

They were forgotten, poems turned flinders

By daily chores and tasks unromantic,

As prose can be, as pages only flicked

 

In a contract, sounding as pedantic

As faculty speeches --- and yet were licked

Black by fire and eaten into cinders.

 

GIVEUPPANCE -- 2/4/2006

 

now every time i see You i feel Dismayed.

it's like i've bled, Exhilaration

no longer to be found, all Infatuation

spent... as if  never ever 'twas Assayed.

 

now every time i think of You there's Emptiness.

i expect no more, all hope is Gone,

feel again as before, to Spurn prone,

on reality thrown back and wrapt in Numbness.

 

now every time i reach for You, i found Nothing,

nor shadow, nor substance, only the Laughter

of a white swan, trying away Her wings...

 

and yet, how beautifully She swings

among the clouds, while i remain the Sifter

of dried sand and watch my life's withering...

 

FREE BOON -- 2/4/2006

 

Once I gave her a flower of blue

To plant within her breast and let grow,

And well she did; her sorrow did allow

Space for the flower to chase away her rue.

 

And it took root and spread anew

Her buds and her twigs, and a bow

Was raised to protect; and a low

Kindly scent to her life was due.

 

At last, it was a tree and bore fruit,

But very strange indeed, not a sweet

Plum or a cherry, not a wan

 

Fig or a berry.   It wore a suit

Of feathers, for the sun to greet

To take proudly flight as a blue swan.

 

   HINTING -- April 7, 2006

 

She swept recklessly a goblet of wine

with the back of her hand -- and it broke.

It was an old goblet, no gift of mine

but a heirloom of yore a casual poke

 

sent rolling down the tablecloth to soak

of red spilled wine  -- a bloody line

and then a clink -- like a deathly joke

the brim fell out as does a petal fine

 

of a wilted rose.   With a wry smile,

she tossed away the shards and said no way

there was for keeping broken glass as token

 

of past memories from a lost while.

And such is a love, that, once broken,

no longer can be kept, but 's thrown away.

 

William Lagos
Tradutor e Poeta –
lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com

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domingo, 29 de janeiro de 2023


 

 

NASREDDIN-HODJA E ZALINA I – 23 JUN 2022

 

Em uma cidade da Macedônia, há longos anos,

vivia um velho turco, por nome Nasreddin,

muito versado em dar golpes profanos,

que como “Hodja” fora apelidado assim, (*)

que por Hodja se chamavam os ciganos,

espertalhões, saltimbancos ou arlequim,

que facilmente aos outros iludiam

e certa vantagem sempre conseguiam...

(*) Talvez modificação de “Hajji”, titúlo dos peregrinos,

mas a história não refere que ele tenha ido a Meca.

Toda a sua renda provinha de um pomar

e de uma horta, que dava em profusão,

mais que o necessário para o sustentar

e à sua mulher Zalina, porém, cada verão,

chegava o coletor do Emir, impostos a cobrar,

mesmo além do que lhe rendia a produção;

e com esperteza, buscava então lucrar

algumas dracmas dos moradores do lugar.

Mas nem sempre era ele o mais esperto,

que alguns havia a querer dele troçar;

certo dia se queixou, de peito aberto,

que precisava de oito burros para negociar

com o comércio de sal pelo deserto,

mas que dinheiro não teria para os comprar

e que na aldeia ningém nele confiaria,

nenhum jerico lhe dava ou emprestaria...

Um certo dia em que se achava a iamentar,

na esperança de comover alguns vizinhos,

dizendo mesmo que só queria alugar,

ao menos três ou talvez quatro burrinhos;

mas quem os tinha declarava precisar,

que iriam sofrer ou passar fome nos caminhos;

teria de pagar o aluguel todo adiantado,

em boa prata ou dinheiro de contado.

Então um dia, enquanto assim se lastimava

e procurava algum vizinho convencer,

entre o povo que indiferente o escutava,

havia um rapaz que conseguira vencer,

em certo jogo, no qual diziam trapaceava,

com alguns truques que ninguém podia ver;

ao tal rapaz ele enganara ainda criança,

que agora adulto planejava a sua vingança.

 

NASREDDIN-HODJA E ZALINA II – 24 jun 2022

 

“Mas, meu amigo, por que não me procurou?

Posso vender-lhe de burro umas sementes!”

Todo o povo da aldeia se espantou,

nunca burrico plantado viram tais gentes!

Mas quando Nasreddin o chamariz até aceitou,

já começaram a se rir por entre os dentes,

logo entendendo ser tremenda falcatrua

e já a malícia a correr por toda a rua!

“Eu nunca ouvi falar de sua existência,”

falou Nasreddin, um tanto desconfiado.

“Bem, não se encontram com muita frequência:

são sementes maravilhosas, grande achado,

que meu tio me enviou de sua querência,

porém não tenho um terreno a ser plantado,

desse modo, eu lhe vendo dúzia e meia,

por vinte dracmas de prata de boa veia...”

“Seria até interessante, mas não tenho

vinte dracmas, nem ao menos a metade;

caso as tivesse, no maior empenho,

as compraria com toda a boa vontade...”

“A razão por que as sementes não retenho

é que precisam ter de macieiras a umidade

e me parece que em todo este lugar

só o senhor que é dono de um pomar...”

“Se plantar à noite, ao pé de uma macieira,

pela manhã já nasce um burro pequeninho,

que vai buscar entre a serapilheira (*)

maçãs caídas e cresce rapidinho!

É um investimento de razão certeira,

de cada semente nascerá um burrinho,

pois são sementes encantadas, realmente,

maravilhosas e de produção frequente!

(*) As folhas e galhos caídos entre as árvores.

Infelizmente, não tenho esse dinheiro,”

disse Nasreddin, não muito convencido.

“E se tivesse, iria alugar primeiro

qualquer burrico que já tenha crescido...”

“Pois então, compre oito e bem ligeiro,

cada bichinho sendo bem nutrido,

irá crescer até o tamanho ideal,

para levar essa sua carga de sal!...”