segunda-feira, 17 de julho de 2017






A FLOR DA FLOR – 12-21 JUN 2017
Novas Séries de William Lagos

A FLOR DA FLOR I – 12 JUN 2017

Reclinada, a flor rosada a uma outra flor
contempla, talvez gérbera acarminada;
a flor contempla a flor que está deitada,
o olhar amarelo a flor espia com vigor.

Ou será com desconfiança? Haverá um relator
entre a flora florescente, quanticamente relatada
a função do mal-me-quer para tanta namorada...
Terá essa flor deitada um igual pendor?

Será que vai a cada pétala arrancar,
não mais do que em razão de seu capricho,
para saber se, de fato, alguém a quer?

Uma pétala após outra a retirar,
para lançá-las, descuidada, ao lixo,
em sua florida leviandade de mulher?

A FLOR DA FLOR II

A tenra boca de minha bem-amada
talvez pretenda a essa gérbera beijar;
desse capricho até queria partilhar,
mas é sua flor que seria assim beijada;

quem sabe a flor beija a flor por perfumada,
o doce pólen aspirando sem pensar;
quem sabe em seu pulmão o vá plantar
e de sua flor rebrotar carícia alada?

Se fosse minha essa flor idolatrada,
dela jamais iria as pétalas arrancar,
porém incólumes os seus estames  conservar

e o seu pistilo de textura delicada,
que não pretendo demolir o mal-me-quer,
porém intacta conservar a flor-mulher!...

A FLOR DA FLOR III

Toda mulher traz na carne sete flores,
tendo diversas as funções de seu pendor:
com duas flores ela contempla seu amor;
com a terceira prova e doa seus sabores;

de duas flores seus filhos são senhores,
fonte pura em seiva branca seu vigor;
em gula o amante as prova com calor,
zonas eróticas na promessa dos amores.

A sexta flor sempre o estigma materno,
esse umbílico que a liga à raça inteira,
que já a um poço de mel foi comparado;

mas sua sétima flor é o dote eterno,
quando se abre em festa hospitaleira,
na flor do cio de meu desejo consumado!...

FRATERNIDADE I - WM. LAGOS, 8 MAR 06

Nem sempre nesta vida tão egoísta
os outros nos exploram: ao contrário,
sempre é possível, no mundo multifário
achar quem nos ajude e até que insista

em nos fazer o bem, embora a lista
não seja grande: neste itinerário
que atravessamos, no viver diário,
é mais comum a busca da conquista.

Mas existem amigos tão sinceros,
tão dedicados, verdadeiros anjos,
mentores sérios e cheios de carinho,

que são mais do que amigos: são arcanjos,
a iluminar a senda; e assim espero
que me acompanhes sempre em meu caminho.

FRATERNIDADE II – 13 JUN 17

Minha esperança é que sejam meus sonetos
os mais sinceros dentre todos os amigos
e que ao enfrentar digitalmente mil perigos,
de ti demonstrem-se os amigos mais diletos!

Porque outros “amigos” há, não tão secretos:
essas contas que me aguardam nos abrigos
de minha caixa postal; são mais jazigos
de minha poupança, famintas como insetos...

Pensando bem, fiel amigo sou mais eu
dos que me buscam e me cumprimentam:
sempre com eles reparto algo que é meu;

e assim espero sem esperar – carinho teu,
quando meus versos sobre ti se assentam,
vaga a esperança, mas que nunca se perdeu...

FRATERNIDADE III

Fraternidade igual demonstro pelo gato
e pela cachorrinha Shih-Tzu;
esta não tem pelame cor de anu,
nem tem o Persa um pelo igual de fato...

Muito bonito, mas igualmente é muito chato,
dia e noite meus ouvidos pondo a nu;
provavelmente perturbaria também tu,
miando forte, sem mostrar-te o menor tato...

Já a cachorrinha tem bem pior costume,
vem nos tapetes do banheiro defecar,
decerto achando ser presente o “eu fecal”;

mas que possa me agradar nunca presume,
pois tais presentes nunca vem me apresentar
quando estou perto – sabe estar agindo mal!...

FRATERNIDADE IV

Mas não costumo de qualquer campanha
participar, para apoiar algum alheio
mérito, que as utilizam como um meio
de apregoar pelo mundo a própria manha!...

Mas quando um amigo vem e não se acanha
de me pedir, sem o menor receio,
de minhas posses lhe abrirei o veio:
sempre algo que era meu o amigo ganha!

Nisto não veem qualquer perplexidade;
de que nada necessito se acredita:
somente eu saberei o quanto dói,

quando de amor sentir necessidade,
sem que ninguém se aperceba desta dita
que tão frequente o coração me rói!...
 
SUSPEITAS I -- WM. LAGOS, 8 MAR 06

Se existe algo no mundo em que acredite
É na marcha dos homens: essa constante
Troca de gerações – morte incessante
Que à geração de outras nos incite.

E a cada nascimento, suspeito de um convite
Soando ao meu ouvido: um permanente
Aviso de que a morte bem perto está presente,
Que a juventude coma e que ao medo nos concite

A querer conservar assim sempre criança
Qualquer filha que tivermos: é apenas uma forma,
Afinal, de se fingir que a vida não se esvai,

Que o perpassar perpétuo dos anos não nos trai;
Sem nela perceber que a jovem em que se torna
Nos traz a mais perfeita e última esperança.

SUSPEITAS II – 14 JUN 17

Noto de fato boa razão para suspeita
vendo ao redor tanta substituição;
de minha infância já os rostos não estão
e os que sobraram mostram face contrafeita,

bem diversa daquela ainda sujeita
em minha memória.  Vejo tanta mutação
no ser humano, desde sua iniciação
à luz do mundo até a presente feita.

E quanta gente nos chega e reconhece
sem que a possamos nós reconhecer!
Passadas décadas, parecem mais seus pais...

Perplexidade ao coração me desce:
será que podem meu semblante perceber
ou veem rostos de sua infância em meus sinais?

SUSPEITAS III

A sutileza das mudanças diariamente
já nos afeta ao ver dos filhos o crescer,
sua face antiga aos poucos a esquecer,
substituída pela nova hoje presente;

se por acaso a sua visão de antigamente
nos retornasse em seu mais jovem parecer,
quais seus retratos em gavetas a manter,
qual dessas faces aceitaríamos, realmente?

Talvez nós mesmos em tais filhos a encontrar
características que divisamos nos avós,
hoje ossos descarnados, poeira e pós...

Quem sabe estejam em nós também a vislumbrar
restos de rostos perdidos para o antanho
permeio às rugas que acolhemos em rebanho...

SUSPEITAS IV

Porém suspeito que haja restos dentro dalma
das vidas de milhões de antepassados
e que os meus serão um dia transportados
por descendentes da carne e de minhalma.

Há quem afirme, com voz bastante calma
que nos seus filhos se achem resguardados,
imortalmente em suas vidas carregados
depois que o sêmen em óvulo se embalma.

Até que ponto conservam a memória
os mitocôndrios de antigas gerações,
nessa espiral de vastíssima genética?

E até que ponto se torna obrigatória
essa passagem para as novas ilusões
nos semblantes que perderam a velha estética?

TRAGICOMÉDIA I -- WM. LAGOS, 8 MAR 80

Foi um caso de amor desde o primeiro
Dia em que a viu: paixão inabalável,
Um desvelo tão grande e formidável,
Que enfim a conquistou, num derradeiro

Espasmo de alegria; porém ela
Jamais o amou de fato: era vaidosa,
Queria ser olhada, era orgulhosa
E o espelho lhe dizia que era bela. 

O amor de seu marido não bastava;
Teve mais de um amante, sempre ansiosa
De ver-se desejada, sem sentir igual desejo.

Um dia, ele a encontrou, voluptuosa,
Desnuda em outros braços; e, qual um beijo,
Aos dois matou, para provar que a amava... 

TRAGICOMÉDIA II – 15 junho 2017-07-16

Meu breve enredo de novela mexicana
conseguiu me despertar certo sorriso...
Mas a seguir, tornei-me já indeciso:
há realidade na farsa dessa chama?

Pois quanta gente, através da história humana,
já atravessou um momento assim preciso,
movida por ciúme, violento e sem aviso,
a realizar o que esse drama aqui proclama?

E quanta gente, em seu depoimento,
mulher ou homem, afirmou em seu registro,
sinceridade a demonstrar fisionomia,

“Não foi por ódio que matei nesse momento,
foi por amor (sentimento bem canhestro!)
provando assim o quanto ainda a queria!...”

TRAGICOMÉDIA III

Já não consta como crime o adultério,
nem homossexualismo e nem prostituição,
sempre mutável nossa civilização...
Será isto um benefício ou despautério?

Talvez mesmo o homicídio – e falo a sério –
venha a ser visto com menor perturbação...
Em guerra ou duelos teve justificação
e se praticam, em algum oculto eremitério,

lutas de sangue, igual que gladiadores.
E mesmo as falsas, em qualquer televisão,
do faroeste às atuais modalidades

de lutas mais ferozes veem seus subscritores.
Para que arenas?  Se os celulares já nos dão
perfeito acesso a quaisquer atrocidades!...

TRAGICOMÉDIA IV

Sem que se queira bancar o moralista,
os costumes se relaxam, um a um
e pouco a pouco não se julga mais nenhum,
mesmo que em fálico ou sádico consista.

E um crime passional, sem que se insista,
foi raramente condenado por algum,
que não foi vítima de tal crime comum
e nem se enquadre na linha feminista!...

Quando essa gente clamará “feminicídio”,
sem se importar com o amante assassinado...
Que seja a morte por adultério condenada

muito mais que a de um simples homicídio,
tal romantismo, por mais que equivocado,
alvo ferino dessa multidão alçada!...
 
INEPTNESS -- WM. LAGOS, MAR 8 '06

Saw you tonight but for a flitting,
Forlorn vision, just like a dream;
After so many days, it would seem
You lived no more than in the meeting

Of shadow and substance I often had
To you spoken about, but a moment
Endeavored by love and sentiment,
Dressed by hope and by delusion clad.

And then you just turned to the way
Your life you took toward an elsewhere
To which appears I shall never belong.

Instead of embracing you and hold you strong,
I wronged myself: why should I walk away
From where I knew my heart still were?

SALTEADORES I – 9 mar 06

enfim estes sonetos estão chegando perto,
tal qual uma presença em plena solidão
a bafejar-me a nuca, os meses que lá vão
voltando de assombrar-me, em sonho bem desperto...

os pensamentos todos de meu penar grafados
estão chegando perto e sinto inquietação,
tal homem que já fui, tal homem meu irmão,
viesse de mansinho dos anos já passados.

e entrasse na minha mente, querendo arrebatar-me,
matreiro e sem piedade, em ato de traição,
os dias em que espero feliz ser em segredo.

os velhos meus poemas eu sinto aproximar-me,
chegarem muito perto; e assim, eu tenho medo
de em versos mais recentes magoar meu coração!...

SALTEADORES II – 16 JUN 17

A antiga sorte escala-me a muralha,
transposto o fosso sem dificuldade,
dispensada a levadiça em realidade,
sobre os merlões longa corda já se espalha

e por entre as ameias já se entalha
a multidão que me provém da mocidade;
hoje eu teria a maior dificuldade
de escalar meu coração por essa calha!

Bem certamente, não poderia invadir,
fosse por versos ou por força muscular
o meu passado, com o máximo de afinco;

e nestes dias, somente posso perquirir
qual seu sentido e como completar
vozes de antanho em seu passar a limpo.

SALTEADORES III

Que ninguém julgue me faltar inspiração
por versos novos a redigir completamente;
foi um dever que me impus, intermitente,
quando pensei em apagar a redação

daquelas pastas de antiga produção,
entre os emails enleados, vagamente,
tantas estrofes de pungir impermanente,
que nem lembrava de sua digitação.

Mas quando quis tais textos apagar,
reconheci ter tais versos enviado,
por ânsia de conquista ou por vaidade,

antigos anos podendo neles revelar,
revolvidos das entranhas do passado,
talvez por bem, talvez por iniquidade!

SALTEADORES IV

Contudo é certo que senti, nessa ocasião,
que era minhalma a tomada nesse assalto,
que a fortaleza assolada em tal ressalto
era o escrínio de meu próprio coração!...

E se eu queria demonstrar a produção
de quando amor em mim cantava alto,
o resultado demonstrou-se bem mais falto:
granjear não consegui dali admiração.

Mas ao contrário, explodiu cerebração,
dando margem a irresistível turbilhão,
que foi transcrito na década seguinte;

houve de fato em mim penetração
e foi meu peito, por efeito desse acinte,
única vítima inerme da invasão!...

O Legado dos Fantasmas 1 – 17 jun 17

Haver subido nos ombros de gigantes
Já afirmaram artistas e cientistas
E assim é a vida: ao longo das conquistas
Os descendentes se tornam triunfantes.

Da Revolução Industrial sem os instantes
Não surgiriam das invenções as listas,
Não haveria do progresso as pistas:
Vapor apenas!  Resultados tão brilhantes!

Sem a invenção da imprensa, nossa cultura
Continuaria eternamente limitada:
Gutenberg e Mergenthaler, dois gigantes

Que nos trouxeram à moderna conjuntura,
Do mesmo modo que a chaleira levantada
Levou a Watt e às maquinárias incessantes!

O Legado dos Fantasmas 2

Tal como Stevenson revolucionou o transporte,
Leeuwenhoek transformou a biologia,
Enquanto a lupa para Hooke permitia
Que a célula descobrisse em seu aporte.

Mas sem as lentes de Galileu tal sorte
Ao bom botânico não se concederia,
Sem a invenção do óleo jamais haveria
Da Renascença a pintura em grande porte!

Sem a criação da escrita musical
Jamais Bach nos seria conhecido
E sem este a nossa música erudita.

Sem as vacinas de Jenner, afinal,
Pasteur jamais teria desenvolvido
A microbiologia – para nós hoje bendita!

O Legado dos Fantasmas 3

Mais ainda, sem o húngaro Semmelweiss,
Também Pasteur não criaria a assepsia;
Sem Einstein e Niels Bohr não haveria
Neste presente as conquistas espaciais.

E assim por diante.  Em todas as demais
Artes e ciências sempre se basearia
Cada conquista nos alicerces de outro dia,
Construídos por gigantes fantasmais...

Não obstante, percebe-se a tendência
De que todas as maiores invenções
Que as veredas desbravaram igualmente,

Mostraram em pontos variados sua potência,
Sem entre eles haver conexões...
O que provoca tais avanços, realmente?

O Legado dos Fantasmas 4

Para os que creem, é a mão de Deus na história,
Que o Santíssimo Espírito manifesta,
Mais do que a simples ação da humana gesta,
A agir sobre nós, preemptória!...

Ou o terreno se prepara para a glória ,
Erguido sobre os ombros, sobre a testa
Dos ancestrais, que no porvir se encesta,
Sobre os pósteros a afirmar-se, peremptória!...

Sempre existiram os homens de exceção,
Também mulheres, porem mais raramente,
Voltadas mais à gestação potente

De seus rebentos para a nova geração,
Enquanto o homem só vê a imortalidade
Nesses dotes que transmite à humanidade!

O Legado dos Fantasmas 5 

E o que seria das leis, em nossos dias,
Sem os alicerces lançados por romanos
Ou sem a jurisprudência que legamos
Nas novas línguas com que as manifestarias?

E de igual modo, quem abriu as nossas vias,
Em cada atual cidade dos humanos,
Ordenadas, na real, por soberanos,
Mas para os passos do povo serventias?

Talvez até anões fossem os antigos operários,
Mas do conjunto em configuração
Em gigantescas concentrações urbanas

E das antigas igrejas nos sacrários,
Nem de templários nem de maçons a ação
Mas dos milhões cuja memória nem reclamas!

O Legado dos Fantasmas 6 

Bem diziam os helenos, no passado,
Que foram cíclopes a erigir as suas muralhas!
A si mesmo atribuindo quaisquer falhas,
Esses gigantes em grupo concentrado,

Ao qual pertence cada qual antepassado,
Um por um a nos legar as suas migalhas,
Que por mais que as desprezes, não espalhas,
Foi muito sólido o que nos foi legado!

Em mim descubro a total contribuição
Sobre meus versos dos fantasmas ambulantes:
Na noosfera de Chardin moram gigantes,

Sem a mim mesmo conceder atribuição
De quanto flui por minhas mãos constantes:
Nada mais que o rebrotar de suas sementes!

EM LUZ ENLOUQUECIDA I – 18 JUN 17

Na verdade, a Catedral de Barcelona
É muito mais barroca que art-nouveau:
Não se indifere à obra de Galdó:
Ou se repugna ou de prazer nos toma.

Em meu caso, a admiração me doma,
Na infinitude de formatos que doou,
No imaginar irrefreado que voou
Sobre o fúlgido esplendor dessa redoma.

Está incompleta, como toda a catedral
Assim ficou por muitas gerações
Nos espantosos monumentos medievais.

Bem mais que um ponto de adoração real,
Sendo o usufruto de vastas multidões
Suas vidas curtas, mas suas obras imortais.

EM LUZ ENLOUQUECIDA II

Esses castelos e abadias erigidos
Não pertenciam senão a grão-senhores,
As prefeituras a prefeitos ditadores,
Cortado o orgulho de operários tão sofridos.

Já os salões pelas guildas construídos
Só pertenciam a artesãos e mercadores,
Estes apenas a gozar de seus pendores,
Do povo a massa tão só dos excluídos.

Só as catedrais a todos pertenciam,
Em missa e festas ali todos afluíam,
E mesmo havendo locais privilegiados,

Cada aprendiz e até mendigo penetrava
E seu orgulho em partilhar manifestava,
Pois mesmo em pé, ali se achavam abrigados!

EM LUZ ENLOUQUECIDA III

Assim se explicam edifícios tão imensos
Nessas minúsculas cidades medievais
E a luz enlouquecida dos vitrais
Cobrindo os rostos com arco-íris tão intensos!

Também os maias ergueram templos densos,
Essas pirâmides de degraus equatoriais,
Por entre as selvas esquecidas por demais,
Por séculos alijadas de outros censos.

O que encontramos da Babilônia antiga
Ou em Nínive ou nos páramos do Egito,
Ou em Zimbabwe, que foi de Opar a viga? (*)
(*) Inspirada a Burroughs, em seus livros de Tarzan.

Apenas templos e castelos, não as casas
Da pobre gente que os ergueu com tanto agito,
Para depois jazer em covas rasas!...

EM LUZ ENLOUQUECIDA IV

Hoje em dia, no aumento da descrença,
As catedrais não se enchem facilmente,
Melhores casas tem o povo no presente
E os edifícios, em sua ascensão imensa,

Escondem catedrais de forma tensa,
Novas funções assumindo em permanente
Visitação para turismo do descrente,
As excursões vêm ali marcar presença...

E mesmo o Vaticano é mais museu,
Acotovelam-se visitantes na Sistina,
Com banderilhas os guias as conduzem.

Dos Aubussons cada face o rosto meu
Acompanhava, um movimento que fascina
E enlouquecidas, mil comendas me reluzem!

FANTASMAS PERSEGUIDOS I – 19 JUN 2017

Memórias, às vezes, se trancam no passado,
do mesmo modo que o faz unha encravada;
sem passagem lateral ser escavada
já não se alcança conhecimento ali buscado.

Vi o recordar ser a um joguinho comparado
em que bolinha de metal é balançada
até enfiar-se em sua caçamba preparada,
só com paciência a se obter tal resultado!...

É que há outros orifícios ao redor
de igual tamanho a tal calibre seu
e muitas vezes penetra ali a bolinha...

E retirá-la dali é bem pior
que colocá-la no lugar que pertenceu,
gastando o tempo de verdadeira ladainha!...

FANTASMAS PERSEGUIDOS II

Assim ocorre com a lembrança errada:
bem se percebe não ser a que se quer,
pensa-se em “concha” sem lembrar “colher”
e fica assim a recordação travada!...

A cada vez que a memória é ativada
e já “na ponta da língua” se disser,
volta a palavra “concha”, em bel-prazer,
sem que a “colher” consiga ser lembrada!...

Bem mais difícil que uma palavra escusa,
que foi guardada durante muito tempo,
não havendo dela precisão de ser usada,

até que se abra a comporta de uma eclusa
e o termo surja sem mais contratempo,
qual de uma rede neural desativada!...

FANTASMAS PERSEGUIDOS III

Muito guardamos em tenebrosos escaninhos,
poeira cobrindo já teias de aranha,
fatos ou frases olvidados por patranha,
ao enveredarmos por novéis caminhos...

Sempre é mais fácil aos termos comezinhos
recordar, seja por bem ou artimanha,
se um artifício mnemônico se assanha,
talvez um código ou a ativar termos vizinhos.

E se aprendermos qualquer palavra nova,
antes que encontre o seu lugar de escol,
bom é com várias coisas associá-la...

Anastasia, por exemplo, se comprova,
essa “Descida ao Hades” qual farol,
se a “anestesia” soubermos compará-la!...

FANTASMAS PERSEGUIDOS IV

Mas as palavras esquecidas são fantasmas,
afogados em mil células vermelhas,
nas hemácias com que nutres e aparelhas
essa tua mente, quando não te pasmas...

Mais por efeito das plaquetas em esquemas,
recordação coagulada em mentes velhas,
depois que novas lembranças ali espelhas,
elas recobrem as feridas de outros temas...

Teus fantasmas do passado ali se ocultam,
até inusitada consulta persegui-los;
é de supor que ainda prefiram descansar!

Mas quando as insistências mais se avultam,
podes no fundo de suas tumbas atingi-los,
para a memória, finalmente, destrancar!...

Ao Som das Ocarinas 1 – 20 jun 2017-07-17

Nosso amor explodiu como tumores,
na mesma cor do vento que nos cerca,
no mesmo adubo que a carne nos esterca,
o sangue nosso que alimenta mil temores
o sol e a cor que a vida toda abarca,
óvulo e sêmen em miríades de amores,
desilusão e ideal iguais nos estertores,
o ferro em brasa que o destino marca!...

Doce amargura do ácido infortúnio,
o ressaibo do azul da inquietação,
como a pérola fragrante do degredo,
um sabor perfumado em plenilúnio,
revestindo de argentina imprecação
todas as penas cumpridas em segredo!

Ao Som das Ocarinas 2

Na sombra do silêncio, eu te suspiro
e a cada expiração, respiro um pouco
esse exalar de ti, em sonho rouco,
com que meu coração eu próprio firo;
e no silêncio da noite em que me viro
para teu lado e nutro o sonho louco
de te gritar “alarme!” ao ouvido mouco,
no incêndio desse amor que em torno giro.

Dormindo de meu lado, essa aliança
bem mais profunda que teu anel no dedo,
bem mais perpétua que do ventre o anel,
nesse descanso em sentinela de confiança,
enquanto ainda vigio, em meu segredo,
o agridoce sabor a recordar desse teu mel...

Ao Som das Ocarinas 3

Ao silvo do suspiro, eu te segredo
mil palavras  de amor, em vasto véu,
recoberto de mudez o inteiro céu
de meu palato, minha língua no degredo;
e no bafo de meus sonhos, eu te cedo
vapores de ilusão, soltos ao léu,
nessa esperança vã, quebrado arpéu
de tua própria ilusão em estranho credo

de que os fisgues no ar e os faças teus
e que seja a iridescência desses sonhos
um polo de atração para o teu beijo,
quando os ideais que professas forem meus
nesse abandono total dos mais medonhos
temores tolos interpostos ao desejo!...

NA ÁGUA DOS POSSÍVEIS I – 21 JUN 2017

Em sulco do topázio eu te atormento,
com tantos versos que jamais tu lês;
são os sulcos de meu ventre que não vês,
veredas verdes de meu sentimento,

sulcos gravados por meu ressentimento,
versos envio, porém sei que não crês
nessa sangria que se abre mês a mês,
são de minha vida o próprio filamento.

Tu nem me escutas, em meiga indiferença
e eu permaneço nesse amor que dói,
quando escorre cada verso e me corrói,

pela acidez progressiva da descrença
de que algum dia me renoves teu ardor,
na luz mortiça de um antigo amor.

NA ÁGUA DOS POSSÍVEIS II

O por-do-sol de hoje foi ao norte
e não ao leste, como sempre sói,
em tons de rosa um novo céu constrói,
vago presságio de uma estranha sorte.

Minha sina, ano após ano, a vida mói
e se acumulam, em inexorável porte
os meses no passado, duplo corte,
que o porvir desgasta quanto à vida rói.

Na incompreensão das nuvens desse Sol,
recamado de um laranja impressionista,
do norte ao longe até que atinge a vista,

enquanto para o leste, tão só um caracol
de tons ainda anilados persistia,
tal qual se a Terra enviesada giraria...

NA ÁGUA DOS POSSÍVEIS III

E sobre a amêndoa do beijo, ergo meu canto,
pistache em molhes, erguido à beira-mar,
flor de aveleira exposta ao mesmo esgar
que essa umidade que exsurge de meu pranto.

Amor é um tal delírio, em nada santo,
que cada alma almeja conquistar,
bem mais que imploro apenas o tomar
desse teu corpo em derradeiro encanto.

Esse amor vasto, pura prenda cristalina,
em que minha mente se perde e peregrina,
sobre a amêndoa redonda de tal beijo;

amor que tudo envolve, a lamparina
a que me lanço, queimando-me no ensejo
em que te entregues, por fim, ao meu desejo!


William Lagos
Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com
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