segunda-feira, 20 de março de 2017




O FILHO DO MOLEIRO --- 9 FEV 2017
(Versificação, tradução e adaptação do conto Das Licht (A Luz) de Thaddäus Rittner, publicado em Viena, 1917, na coletânea Legenden und Märchen unserer Zeit [Lendas e Contos de Fadas de nosso Tempo] por WILLIAM LAGOS).

              (MOINHO PRINZ VAN ORANJE, BREDEVOORT, HOLANDA)

O FILHO DO MOLEIRO I

Não há como negar.  O filho do moleiro,
Para sua idade, já era muito forte:
Aos doze anos, ter dezesseis já parecia,
Que após os dez, crescera bem depressa.
E tendo um físico saudável dessa sorte,
Muito mais forte e alto ainda seria;
Mas era tímido.  E como muitos o são
Se apresentava como um fanfarrão.  (*)
(*) Prepotente, o que hoje estão chamando pelo nome bully, em inglês.

Ao mesmo tempo, o seu melhor amigo,
Que com ele a mesma série frequentava,
Era o pequeno Adam, filho do sapateiro.
São dessas coisas que surge o perigo:
Com doze anos, Adam só alcançava
O ombro de Thomas, o filho do moleiro
E isso mal e mal... Porém ambos brincavam
Davam passeios e bola ainda jogavam.

Não é que não se dessem com os demais
Meninos de sua classe e de sua idade,
Mas era muito forte a sua amizade:
Brigavam juntos, por motivos naturais...
E por estranho que pareça, na realidade,
Era Adam que protegia, na verdade,
Ao grande Thomas, cuja timidez notavam
Os seus colegas e contra ele se juntavam...

Após as aulas, iam contra o grandalhão,
Devido a suas atitudes prepotentes,
Jogando pedras e pegando mesmo paus,
Chamando burro aquele fanfarrão,
Por suas respostas pouco inteligentes
E em função dos resultados muito maus
Que obtinha nas chamadas “sabatinas”
e por terem um certo ciúme das meninas!

O FILHO DO MOLEIRO II

(Elas o achavam bastante interessante,
Forte e maior que todos os colegas).
Chegava Adam em seu auxílio, então
E bem depressa dispersavam essa gente.
Em pouco tempo, terminaram as refregas
E davam queixa só de Thomas na ocasião,
Quando chegavam em casa machucados,
De Adam mencionarem envergonhados...

São dessas coisas... Thomas era esperto
O suficiente para então reconhecer
Que Adam era dos dois o mais valente,
Mas não podia, de coração aberto,
Demonstrar quanto ao menor tinha a dever
E foi, aos poucos, se tornando diferente...
Dava a entender que era ele que ganhava:
Adam sorria e nunca o contrariava...

Mas aos poucos, cresceu o ressentimento,
Confusamente percebendo sua injustiça;
De fato, nunca se queixava abertamente,
A Adam observando, de olhar atento,
Sem encontrar qualquer motivo que uma liça (*)
Justificasse com o amiguinho, realmente.
Mas seu rancor no coração crescia
E por se achar inferior se ressentia...
(*) Desavença, briga.

Até que um dia Adam, com inocência,
Pois começava a já ficar escuro,
Falou que o passeio deviam terminar.
Thomas, então, deu vazão à prepotência:
“Mas como é isso?  Para brigar é duro,
Porém do escuro precisa se ocultar?”
Adam desconversou: “Mamãe insiste
Que volte enquanto alguma luz se aviste...”

O FILHO DO MOLEIRO III

Ficou Thomas sobre aquilo matutando,
Mas realmente já era hora de voltar.
Já no outro dia, continuou a prepotência
E logo estava ao outro experimentando,
A mata densa querendo atravessar,
Saindo em dias fechados com frequência.
Era uma forma de sentir-se superior,
Envergonhando o amiguinho bem menor.

Mas Adam certa desculpa sempre tinha:
“Temos deveres de casa a terminar!
Estou cansado, tu és muito maior.
Para teu passo acompanhar eu vinha
Dando dois!” Sempre algo a inventar,
Até que Thomas insistiu com o menor
Até que Adam, finalmente, confessou
Que tinha medo – e seu rosto avermelhou...

“Mas como podes ser assim covarde?
O que no escuro te parece perigoso?...”
“A gente pode no caminho tropeçar...”
Mas Thomas começou a fazer alarde
Diante dos outros, troçando, desdenhoso:
“Adãozinho quer do escuro se escapar!”
Os seus passeios, assim, foram rareando,
Embora Thomas o seguisse convidando.

E ao perceber que o amiguinho o evitava,
Para passearem juntos insistia
E o conduzia em longas caminhadas...
E quando o inverno já se aproximava
E mais escassa se fazia a luz do dia,
Troçava dele nas tardes encurtadas:
“Para que serve, Adam, a sua espinha,
Se até a sombra de um pardal o descaminha?”

O FILHO DO MOLEIRO IV

Não se fez esperar o resultado:
Adam seu amigo passou mesmo a evitar
E após as aulas ia logo para casa.
Pelos colegas, isso em breve foi notado
E começaram com Thomas a implicar,
De atacá-lo, não perdendo vaza...
Sem o amiguinho, ele tinha de lutar,
Naquelas brigas muitas vezes a apanhar...

E assim sendo a natureza humana
Foi a Adam que começou a culpar:
Se ele ao menos não fosse tão covarde!
Do sapateiro ao filho ele reclama:
“Nossos passeios têm agora de acabar?”
“Chegou o inverno e logo fica tarde!”
“Já entendi, está com medo do escurinho!
Não quer cravar no dedão algum espinho!”

E foi assim que se encontrava a situação
Quando açúcar faltou e a mulher do sapateiro
Disse a seu filho que um bolo começara,
A venda e a feira já fechadas na ocasião:
“Vá depressa até a casa do moleiro
E diga à Helga que sua mãe solicitara
Um pouquinho de açúcar emprestado:
Leve este vidro e carregue com cuidado!”

Eram de fato muito amigas as senhoras,
Mas a tarde já passava da metade...
“Preciso mesmo ir, Mamãe querida?”
“Ora, daqui partindo sem demora,
Em meia hora volta, com facilidade...
Ande depressa ou a receita está perdida!”
Adam pensou existirem três perigos
Em seu caminho, verdadeiros inimigos!

O FILHO DO MOLEIRO V

Mas à sua mãe precisava obedecer
E de explicar se sentia envergonhado.
Caso quisesse ir e voltar depressa,
Antes que o Sol fosse desaparecer,
Precisava ser o pátio atravessado
Daquela granja, em que rondar não cessa
O feroz cão mastim do agricultor,
Que lhe causava, com razão, grande temor!

E do outro lado, ficava a ponte velha,
Que já deviam ter mandado consertar,
Diversas tábuas havendo apodrecido!
Nos intervalos, do riacho a água se espelha
E já caíra toda a proteção de um lado...
De ali cruzar fora até mesmo proibido!
E depois, junto à porta do moleiro,
Estava Thomas, seu antigo companheiro!

O Sol se achava já bem perto do horizonte
E caso Adam desse a volta pela estrada,
Bem mais depressa chegaria a escuridão
Que ele temia muito mais que a ponte!...
Assim correu até a sebe levantada
Em torno à granja e arrastou-se pelo chão
Até o ponto em que um espaço haver sabia
Por onde o mastim avistar já poderia!...

E por sorte, viu que estava adormecido!
Então correu bem veloz pelo terreiro,
Chegando à sebe que marcava o outro lado.
Soltou um suspiro, por sentir-se protegido...
Dos três perigos, vencera já o primeiro
E para a ponte caminhou bem apressado.
Estava claro ainda e, pé ante pé,
Na outra margem já chegava até!...

O FILHO DO MOLEIRO VI

Do outro lado, avistou logo o moinho,
Para onde foi, agora andando devagar,
Sem ver sinal de Thomas no lugar.
“Dona Helga,” – saudou-a, bem baixinho,
“Mamãe falou para a cumprimentar
E um pouquinho de açúcar lhe emprestar...
Segunda-feira, ela lhe manda devolver...
É só a senhora este vidrinho encher!...”

De boa vontade, a esposa do moleiro
O vidro cheio depressa lhe entregou.
Muito aliviado, Adam agradeceu.
Agora basta que retorne bem ligeiro!
Porém Thomas já esperava e o chamou:
“Mamãe seu vidro de açúcar já lhe encheu?”
“Pois foi, Thomas.  Agora tenho de voltar,
Senão a massa do bolo vai estragar!...”

“Ora, ainda é cedo... Vamos conversar.”
“Thomas, preciso retornar depressa agora!”
“Por que?  Está com medo de seu pai?
Leva uma sova caso muito demorar?...”
“Não é isso... É a ponte.  Sem demora
Tenho de ir...  No escuro, a gente cai!...”
“Ah, já entendi!... É do escuro que tem medo!”
“Não é, Thomas... Mas preciso voltar cedo...”

“Tenho medo é do cachorro do granjeiro!
Quando passei, o encontrei dormindo,
Se demorar, pode estar já acordado!...”
“Pois vou então com você, meu companheiro.
Eu levo um pau.  Só vai ficar latindo,
Do meu porrete vai ficar amedrontado...
Mas primeiro, vamos os dois prosear um pouco,
Por que ter medo desse cachorro louco!”

O FILHO DO MOLEIRO VII

“Mas minha mãe me mandou voltar depressa!”
“Ora, amiguinho, fale com sinceridade:
Você tem medo é de voltar no escuro!
Mas realmente, esta noite está espessa,..
Vamos buscar uma lanterna, na verdade,
Lá na sua ponte a gente enxerga qualquer furo!
Vem comigo... A lanterna está guardada,
Mas eu sei bem onde se acha pendurada...”

Levou-o Thomas até dentro do moinho,
O ar pesado, meio até de sufocar,
Tudo tomado por semiescuridão...
Thomas então o empurrou, devagarinho,
Até ao depósito do fundo ele chegar,
Mais abafado e apertado na ocasião.
“A lanterna está ali dentro pendurada.
Está escuro, mas é fácil ser achada...”

Mas de repente, Adam foi empurrado
E atrás dele, foi fechada a porta!
“Thomas, não me deixaste aqui sozinho?”
Do amigo escutou riso abafado:
“Só quero ver como aí dentro se comporta!
Esse é o lugar mais escuro do moinho!...”
“Acende a luz, Thomas, por favor!”
“Não há motivo para qualquer temor.”

“Thomas, não me deixes aqui preso!
Por favor, por favor, acende a luz!”
“Ora, Adam, é para teu próprio bem!
Aprende de uma vez, covarde leso:
Não há perigo!  A nenhum mal te expus,
Está vazio esse depósito também!...”
“Thomas, a luz acende, por favor!”
“Aqui fora está claro, perdedor!...”

O FILHO DO MOLEIRO VIII

“Tens de perder é teu medo do escurinho...”
“Thomas, acendo a luz, te peço, por favor!”
Como é ridículo! --  pensou Thomas, lá de fora.
Adam, enfim, compreendeu estar sozinho.
Thomas ficara ali no corredor!...
Já parecia estar preso há mais de hora!
“Deixa-me sair, Thomas!...  Acende a luz!”
“Espia nas frestas... Qualquer coisa ali reluz...”

Só quando Adam cansou-se de gritar
É que Thomas a abrir-lhe a porta decidiu.
“Como é, acabou perdendo o medo?”
Mas Adam só pensava em se escapar:
Com um empurrão, depressa ele fugiu:
Preciso em casa chegar ainda cedo!
“Ei, espera, a lanterna eu vou pegar!
Eu prometi que te iria acompanhar!...”

Mas o pequeno não queria mais nada.
Com seu olhar já ao escuro acostumado,
Achou depressa a porta do moinho
E saiu dali, bem depressa, pela entrada,
Para a ponte seus passos apressados,
Seu coração a bater num redemoinho!
Mas o açúcar por sorte ainda encontrou
No bolso interno em que primeiro o colocou!

Mesmo no escura, encontrou fácil a ponte
E ao longo dela se precipitou,
Mas uma tábua a seus pés se partiu!...
O resultado nem é preciso que se conte:
Na água gelada bem depressa mergulhou,
Por sorte sua seu pai depressa o viu,
Que logo o retirou da correnteza
E para casa o carregou, com ligeireza!...

O FILHO DO MOLEIRO IX

A essa altura, já o estivera procurando,
Pedira até a ajuda de um vizinho.
“Por que cruzaste a ponte?  O que fazias?”
Repreendeu, enquanto a braços o ia levando.
“O açúcar!  Ainda está dentro do vidrinho?”
“Querido, não entendi o que dizias...”
Chegando em casa, insistiu em entregar,
Para que a mãe pudesse o bolo terminar!

Já estava o bolo esquecido totalmente!
Suas roupas lhe trocaram, encharcadas,
E foi levado para a cama quente,
Mas uma febre o atacou, incontinenti!
Só na segunda as providências alcançadas,
Adam, coitado, já então muito doente!...
Quando Thomas à escola retornou
De Adam a falta bem rápido notou...

E lhe disseram: “Adam está morrendo.
No sábado, ele pegou pneumonia!
Ele caiu daquela ponte perigosa!...”
Mas como pode estar isto acontecendo?
Eu só curá-lo de seu medo pretendia!
Nunca pensei em tal coisa horrorosa!
Porém de noite, Adam faleceu
E seu enterro depressa aconteceu!...

Mas o que mais eu poderia fazer?
Thomas tentava se justificar...
Não esperou que o fosse acompanhar!
Ele escutou seu professor dizer:
“Já faz três anos que deveriam consertar
Aquela ponte!  Ou então tirá-la do lugar!”
Há três anos!  Então a culpa não foi minha!
Caiu da ponte pela pressa que ele tinha!

O FILHO DO MOLEIRO X

Se ele esperasse, a lanterna eu buscaria.
Sem haver qualquer perigo de cair!
Por que saiu correndo desse jeito?
Mas a si mesmo não podia convencer;
Era sua a culpa, não adiantava se iludir,
O coração a lhe pular dentro do peito!
Amolecera, após ter sido duro...
Por que razão eu o prendi no escuro?

Após o enterro, a noite já chegando,
Thomas deixou a sua porta meio aberta,
Para que no quarto entrasse alguma luz,
Mas a sua mãe a porta foi fechando,
Deixando Thomas na escuridão deserta!
Pela janela, nem sequer luar reluz!...
De olhos abertos, acordado continuou
E de repente, voz fraquinha ele escutou!

“Acende a luz, Thomas, por favor!”
Era aquela a voz de Adam, certamente!
“Mas o que queres agora, Adam, comigo?”
“Acende a luz, Thomas, tenho horror
De estar no escuro de forma permanente!
Mesmo deitado, sinto-me em perigo!...”
E bem depressa da cama ele saltou:
Uma lanterna para o quarto ele buscou! (*)
(*) Naturalmente, na aldeia não havia luz elétrica.

Com o barulho, o moleiro se acordou:
“Quem é que está fazendo a barulheira?”
“É o garoto, marido, está nervoso!...”
Chegou à porta e rápido exclamou:
“Acaba agora com toda essa zoeira!
Levanto cedo!... Apaga logo, é perigoso
Dormir de luz acesa!” Thomas se aquietou
De Adam a voz já não mais escutou...

O FILHO DO MOLEIRO XI

Disse o moleiro, de manhã bem cedo:
“Tu não sabes que desde a madrugada
Eu preciso trabalhar?  Não faz de novo!
Nunca pensei que fosses de ter medo;
Mas se é assim, eu te dou razão dobrada!
Uma bela sova, como diz o povo,
Coloca qualquer medo no lugar!
Terás motivo até para chorar!...

Mas nessa noite, o moleiro se acordou
Com os passos de Thomas... Devagar
Descia de novo, em busca de uma luz...
“Acende a luz!” – Adam lhe suplicou
E Thomas se viu obrigado a ir buscar,
Rezando em vão aos santos e a Jesus!...
Falou o moleiro: “De hoje ele não passa:
Dou-lhe uma sova que acabe essa pirraça!”

Mas disse a mãe: “Primeiro deixa eu conversar.
Do amiguinho, o Adam, tem saudade!...”
“E daí? O garoto já morreu!...
Será que pensa que a doença vai pegar?
De mim que tenha medo de verdade!”
Virou para o lado e de novo adormeceu.
De manhã Thomas o olhou, muito assustado:
“Não faz de novo, que vais ser castigado!”

Mas na terceira noite, novamente,
Mesmo tendo deixado a porta aberta,
Escutou Thomas a voz de seu amigo:
“Acende a luz, Thomas!” Finalmente,
De madrugada, já estando bem alerta,
Saiu à rua, sem temer perigo,
Louco de medo de acordar o pai,
Mas com plena certeza de onde vai!...

O FILHO DO MOLEIRO XII

“Acende a luz!” – a fina voz sempre escutando.
“Está certo, hoje eu vou te obedecer,
Mas precisas me dizer aonde tu estás!...”
“Tu sabes muito bem. Estou esperando.
A minha luz precisas de acender,
Ou não consigo descansar em paz!...”
E deste modo, mesmo a lanterna carregando,
Furtivamente, ao cemitério foi chegando.

A sua mãe, com o máximo cuidado,
Para não despertar o seu moleiro,
Vestiu-se às pressas para o acompanhar.
Logo viu Thomas, caminhando a passo airado,
Até alcançar o cemitério e o derradeiro
Ponto em que Adam fora posto a descansar,
Acertando de imediato o tal lugar,
Mesmo sem ter ido o enterro acompanhar!

E sobre o túmulo, sua lanterna colocou
E perguntou:  “Estás agora bem assim?”
Nenhuma voz se sabe se escutou...
Mas após um intervalo, ele falou:
“Olha, a tua luz vim te trazer, enfim,
Não vou trazer de novo, já chegou!”
Somente a luz a bruxulear no campo santo,
De um galo ao longe se escutou o canto.

E ao se virar, um vulto o surpreendeu,
Mas bem depressa o susto lhe passou
E sua mãe recebeu-o num abraço...
La no alto, a luz da Lua apareceu
O par então para o moinho retornou,
Em seu silêncio, só a escutar-se o passo...
No seu leito, o moleiro ainda dormia
E a voz de Adam nunca mais se escutaria!

Naturalmente, esta é uma parábola
sobre crime, remorso, castigo e redenção.

William Lagos
Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com
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sábado, 18 de março de 2017





FALL-OUT & PLUS – William Lagos
Originais a partir de 20/12/2007, completados entre 30/1 e   8/2/2017.


                        (LA DAME  AU ARC-EN-CIEL, TÊMPERA DE jAIME IXCHEL)

FALL-OUT I – 20 DEZ 2007

A bomba cairá, cedo ou mais tarde:
as instruções se encontram na Internet
e a radiação descerá, como um confete;
quando não mata, a queimadura arde,

em dor terrível: primeiro faz-te cego,
depois te paralisa e te desmancha
por dentro, em veneno que se arrancha
dentro de ti e não te dá sossego,

durante a morte lenta... tal como faz amor,
que não te mata logo, contudo paralisa
a tua razão, te cega e te condena

a definhar aos poucos... seu pavor,
a escorrer dos ossos... e repisa
suas exigências, enquanto te envenena.

FALL-OUT II – 30 JAN 17

Nestes dez anos ainda não caiu
e Edward Teller foi desacreditado,
na afirmação de deixar contaminado
o mundo inteiro por radiação que produziu,

a qual se espalha ao derredor em calafrio,
natalidade suprimida pelo alado
veneno que em toda a Terra distribuiu
o festival hidrogênico espalhado...

Amor, porém... esse explodiu em mim
mais de uma vez... e igualmente definhou,
algumas vezes após ser consumado;

com mais frequência a se espiar, assim,
esse rito zombeteiro que mostrou
cada olhar só de longe contemplado...

FALL-OUT III

Contudo penso nesse doido Kim Jong-Un,
a dominar sobre a Coreia do Norte,
um ditador com poder de grande porte,
mas incapaz de perdoar a qualquer um!...

Inimigos já não tem, porque nenhum
sobreviveu após cair-lhe a sorte
de ser o próximo destinado para o corte:
decerto hoje chegará o fim de algum!...

Pelo poder é que conserva amor,
talvez mesmo afetado de impotência,
que explode mísseis qual ejaculação,

tubos eretos do máximo vigor,
mas sem de fato ter atômica cadência,
no fogo e fumo de tal masturbação.

FALL-OUT IV

Implica mais é com o governo americano:
esse país muito rancor já cultivou,
que o xainxá, seu aliado, abandonou
por inimigos no atual povo iraniano.

Caso tivessem apoiado o soberano
contra a revolta que ali se provocou,
seriam amigos, mas agora prosperou
o firme ódio de tal povo muçulmano.

Têm a mania de implantar republicano
governo e mais seu presidencialismo,
que tão somente em sua terra prosperou;

fosse a Alemanha um reino, nunca o insano
nazismo expandiria o seu modismo
depois que a ditadura se instalou!...

FALL-OUT V

Esse fall-out do Presidencialismo
é muito mais que a bomba pernicioso;
o Republicanismo é poderoso
só temperado por Parlamentarismo.

Foi da América que brotou esse truísmo,
a transformar o presidente mais bondoso
num ditador, por seu poder cioso,
num arremedo de Republicanismo!

É assim do norte que nos desce a radiação,
contaminando dezenas de países:
que fossem reinos não podiam suportar!

Mas quanta gente morreu por tal razão,
governada por homens sem raízes,
que outro ambicioso procura derrubar!

FALL-OUT VI

Pois são frequentes tais revoluções
sob o pretexto de serem esquerdistas,
restauradores se afirmando direitistas,
uns e outros com iguais motivações,

porque é o Poder que ativa as ambições,
sob a farsa de proclamas populistas,
seus eleitores esquecidos nas conquistas
desse poder de tão douradas ilusões!

Pois morte lenta atingirá a democracia,
envenenada por amor tão ciumento,
sem às promessa de antanho dar alento,

que no trono presidencial demonstraria,
mais do que tudo, suas ocultas intenções
por tal poder que só corrompe os corações!

RÓTULAS I  – 20 dez 2007

Vou transformar meus meniscos em moedas
para comprar o amor que não foi dado
como gratuito dom, nem derramado
sobre meu cenho, por mais que me concedas

que precisas de mim, mesmo que quedas
as tuas emoções persistam; descuidado,
transformarei meus ossos em recado,
que lançarei ao vento em que segredas...

e jogarei às nuvens meus pulmões,
para transportes de idêntico momento
ao que foi nos mistérios murmurado...

nessas joelheiras de minhas ilusões,
onde escondi, no mais estranho alento,
o antigo sentimento inconfessado. 

RÓTULAS II – 31 JAN 2017

“Ora, direis...” – um amor inconfessado,
mantido apenas nos alvéolos do pulmão,
dentro da válvula mitral do coração,
mas que ainda assim – precisa ser comprado!

“Ora, direis...” – um amor que não foi dado,
mas diluído empós conversação,
disfarçado ao relatar desilusão,
estranho amor que jamais foi recusado,

sem ser jamais solicitado assim,
pela falta da premência mais potente,
pela suspeita de se mostrar indiferente

esse outro coração, qual querubim,
sob a armadura as asas escondidas,
sob os conselhos esperanças mal contidas!

RÓTULAS III

Amor que seja de inocente rotulado,
preço de ossos para angariar dinheiro,
perdida doação sem companheiro
que se disponha a tê-los enxertado!

Amor que se limita a ser cambiado
por meia dúzia de sussurros de permeio,
pelo suflar do vento sem receio...
E se esse rogo for por outrem escutado?

De fato, o foi – mas não soube compreender
e outro amor aceitou, condescendente,
sabendo bem que levariam a nada,

tantos sonetos, corações a remexer,
na inquietação que medra tão frequente
em outra alma que nem fora desejada!

RÓTULAS IV

Amor apenas de joelhos murmurado,
em tola imploração à divindade
que só lastima o ardor da humanidade,
que só se prostra quando algo tem buscado!

Tanto amor que na atmosfera está espalhado,
gratuitamente, pelos ares da cidade,
tanto amor recusado sem piedade,
por cada gesto de desdém manchado!

Por que daria ouvidos a Senhora
ou qualquer santo, pelo preço perturbado,
a essa prece de amor desamparado?

Alguma vela...  Ou dúzias, nessa hora,
seria o pago por tal amor buscado,
que conquistar não pôde quem namora!

RÓTULAS V

Favor quem sabe comprar se poderia
pelas moedas na caixinha das ofertas,
famintas fendas nas tampas abertas,
por doações de quem aos santos pediria!...

Que triste amor, esse amor de fancaria,
rogado assim, nessas visões incertas,
suas lástimas a bradar por descobertas
dos artifícios com que amor conquistaria!

Muito melhor estender então os braços
e catar esse amor solto no vento,
por corações abandonado em desalento!

Por fio sutil ligado a tais abraços,
mesmo sem ser ao rosto que esperavas,
mas que talvez dê mais amor do que buscavas!

RÓTULAS VI

Acertado é quando a gente se conforma
com esse amor que a nós destino dá,
antes que este, por sua vez, se vá
e a solidão de novo seja a norma!

Esse amor breve aos poucos se transforma
em algo sólido, que nos apoiará,
algo concreto em que ilusão não há,
não amor-sombra, mas amor de forma!

Contudo, mesmo dando este conselho,
eu continuo a lançar os meus apelos
a cada nuvem que pelo céu perpassa!...

E como Zeus, nesse aforisma velho,
tornou a nuvem em Juno, em seus desvelos,
desse vento inconstante bebo a graça!... (*)
(*) Íxion, um homem acolhido por Zeus, tentou conquistar sua esposa Juno ou Hera;
por pirraça, Zeus criou de uma nuvem uma sósia para a deusa, enganando o insolente.

POBRE É A MENSAGEM I – 22 dez 2007

A estrela luzia, argentemente,
nos céus da Palestina; e, sobre a gruta,
uma canção angelical se escuta,
de toda voz humana diferente...

A melodia inspira a pobre gente
de seus rebanhos a fazer permuta;
e a luz desperta o ideal na mente arguta
dos astrólogos, chamados "Reis do Oriente".

Uns e outros já foram decantados
durante mil natais, em versos nobres,
cuja lembrança da memória tiro...

Fico a pensar nos poemas relembrados...
E os meus, ao comparar, vejo tão pobres,
que a mim me resta apenas um suspiro...

POBRE É A MENSAGEM II – 1º FEV 2017

Na verdade, evito essa temática,
pois nela nada mais resta a ser dito;
meus versos lanço, qual ovelhas, no infinito,
sempre à busca de ideia mais enfática,

nessa certeza amplamente matemática
que a manjedoura que na mente eu fito
já de há muito está vazia e foi-se o grito
das mães dos Inocentes – cruel prática!

Por que falar então nesse Natal,
acompanhado por boi e por jumento,
que mãe e filho transportou até o Egito,

quando agora se aproxima o Carnaval
e sou forçado aos tambores ser atento
e do Rei Momo escutar o riso aflito!...

POBRE É A MENSAGEM III

“Adeus à carne” – assim traduzem Carnaval,
na Quaresma proibida antigamente,
quando a força da Igreja era potente
e apoiada pelo braço temporal.

Era o peixe, então, o alimento natural,
que é muito mais saudável, realmente;
não era o alívio do gado permanente,
mas da morte um adiamento mais formal.

Quem é que pensa nessas coisas, afinal?
Deve haver gente que acredite proibido
praticar sexo no período quaresmal!

“Adeus à Carne”, interpretação diversa,
no Carnaval sendo tudo permitido,
perdão do padre a receber após conversa!

POBRE É A MENSAGEM IV

Mas para mim, o Carnaval é diferente:
acredito ser a Festa do Suor,
gente pulando desde o Sol se pôr,
até a alvorada ser mais iminente!...

Não participo desse pular urgente,
que facilmente desfaz-se meu vigor
tão logo encontre excesso de calor:
vinte graus acho excessivo, boa gente!

Mas vejo o povo a pular o dia inteiro,
nos dias que correm, até mesmo de manhã,
já que as noites não parecem suficientes...

Fico a pensar se ardor sobre, ligeiro,
para ter sexo depois de tanto afã
ou se o pular torna muitos impotentes!

POBRE É A MENSAGEM V

Já os Magos retornaram às suas terras,
por um caminho diferente da jornada
inicial até a terra consagrada
a ser teatro de inumeráveis guerras...

Provavelmente cruzaram sobre as serras
da Cisjordânia, em caravana armada,
mesmo no tempo dos romanos arriscada
essa viagem que em imaginário encerras,

Os presépios nos mostram três camelos
e três astrólogos vestidos como reis,
que certamente ainda possuíam algum ouro

para o retorno, mas raramente os belos
camelos eurasianos que, sabeis,
têm duas corcovas a projetar do couro.

POBRE É A MENSAGEM VI

O que costumam mostrar são dromedários
de uma corcova só – os saharianos.
Se magos fossem, de fato, soberanos,
se arriscariam aos perigos dos fadários?

Bem certamente, sem serem perdulários,
se fariam acompanhar por africanos,
haveria sírios e mercenários turcomanos
ou talvez curdos, a proteger tais emissários.

Bem mais pobre que a minha então seria
de um ataque de ladrões a narrativa,
mortos os magos, sem nunca retornar

para a longínqua e misteriosa moradia,
em Babilônia, no Iran, na Índia altiva,
que lenda alguma recordo mencionar!

POBRE É A MENSAGEM VII

Morreu Herodes, segundo as Escrituras,
por vermes devorado – uma doença
chamada Ftiríase, a qual, conforme a crença,
contraiu por devorar carnes impuras,

costelas, ensopados ou frituras
de carne suína – em comilança intensa!
Alguns alvitram afirmação mais densa,
sendo o castigo por essas ordens duras

de matar cada criança de Belém
de dois anos para baixo e assim ferir
essa ameaça a seu trono majestoso!...

Contudo a história nos registrou, também,
que o próprio Templo ele mandou reconstruir,
mais aqueduto de caráter portentoso...

POBRE É A MENSAGEM VIII

Caso os Magos até Herodes retornassem
e lhe informassem em qual local exato
a Jesus podia encontrar, sem espalhafato,
os Inocentes de morrer talvez poupassem!

Pois estas mortes talvez mesmo decretassem,
consequente a cometerem desacato
às ordens desse rei, um simples fato
com que a história amplamente transformassem!

O número não se sabe exatamente
dessas crianças que na ocasião morreram,
talvez filhos dos pastores que acolheram

o seu Messias que assinalou essa luzente
estrela – que seus rebanhos descuidaram
por espetáculo de tal modo surpreendente!

NOOSÍNCOLA I – 22 DEZ 07
[habitante do mundo do pensamento]

Não é momento para amor revolto,
em longa espera, sem que benefício
se apodere de mim.  É meu ofício
trabalhar muito, em despertar envolto...

Nem sei o que é dormir a sono solto
há milhares de dias: panifício
dos que dispõem de pouco malefício,
tal qual em mim é sempre desenvolto.

Em meus longos trabalhos e deveres,
os dons do espírito e o querer sexual,
é que sempre me limitam os prazeres:

preferindo a ter honras, liberdade,
sem desejar a fama ou por social
posição, que é forragem da vaidade.

NOOSÍNCOLA I – 2 FEV 17

Mas quando durmo, visito com frequência
as mesmas plagas de sonhos anteriores,
em que reencontro meus amigos, meus amores,
que me aguardaram, cheios de paciência;

nesses sonhos sou comum, sem a potência
de grandes reis, nem vastíssimos pendores;
apenas voo, às vezes, não como os condores:
apóio os pés e flutuo em sã consciência,

de cada vez certa distância a percorrer,
para outro impulso, um pouco mais adiante
e sempre penso: “Desta vez, é de verdade!”

Nenhum espanto percebo em outros ver,
que ultrapasse nesse andar flutuante,
mas sem achar mais voadores na cidade!...

NOOSÍNCOLA III

Talvez os sonhos sejam mais reais
do que isto que chamam “quotidiano”;
não vejo monstros ou problemas nesse afano,
só dinossauros, mansinhos por demais!

Nunca me vejo a praticar ato profano
ou desonesto nesses pagos siderais;
são meus encontros perfeitamente naturais,
afável mostra-se cada ser humano.

Percorro, às vezes, ruas solitárias
e por elas caminho, sem temor,
as chaves tendo de diversas moradias;

nelas encontro preparadas camas várias,
em que me deito, qual natural senhor,
para sonhar com o mundo destes dias...

NOOSÍNCOLA IV

Será que sonho com esta realidade
e que muito mais real meu sonho seja?
Mortos encontro onde quer que esteja,
conversas travo com naturalidade...

Somente ao retornar a esta cidade
é que percebo que essa boca que me beija
deste lado de cá não mais se enseja:
somente aqui o meu flutuar é falsidade...

Será que habito nessa noosfera,
esse círculo de pensamento mencionado
por Teilhard de Chardin, que ilusão gera

deste mundo em que estou e a solidez
tão aparente do teclado digitado
seja tão só um pensamento que se fez?

NOOSÍNCOLA V

Que não se diga que encontro ali “gurus”!
a orientar-me nos desvãos do misticismo,
nem seja eu que propague tal budismo,
ou que ali veja Jesus Cristo sobre a cruz,

nem erotismo apresentado em corpos nus;
longas distâncias percorro e nelas cismo,
sem mesmo crer em qualquer solipsismo,
pois tal mundo não criei, tampouco a luz,

mas nele escuto, farejo e sinto o gosto
dos alimentos que me são servidos;
dores percebo, caso houver um acidente,

sem encontrar consolação para desgosto,
sem ter agravos ainda mais sofridos
que os deste mundo, em que desperto descontente!

NOOSÍNCOLA VI

Mas que me dizes tu?  Também habitas
algum mundo de cores e de sons,
sem relembrar suas nuances e seus tons
quando retornas às diuturnas ditas?

Será que algures nesse mundo tu me fitas,
com amizade ou amor nos olhos bons,
comigo a partilhar dos mesmos dons
e em ideais iguais aos meus ali palpitas?

Ou serás dessas que os sonhos não recordam,
sempre filtrados por onírica censura?
Porém meus sonhos para ti ainda transbordam,

a cada vez que em versos se derramam
e te procuram, com mensagem pura
ou te perturbam com as imagens que proclamam.

MOSTEIRO I – 23 DEZ 07

Vou perfurar minhas unhas com agulhas
e provocar aguda uma dor física:
sempre uma forma de esquecer a metafísica
e colocar os pés no chão, deixar as bulhas

que permeiam minhalma, tantas tulhas
de sentimentos tão contraditórios:
grãos de cereais em versos transitórios...
Bem lá no fundo, quando me vasculhas

podes bem ler a oculta podridão
que existe em cada mente, essa loucura
que nos leva a cometer os desatinos;

e, todavia, eu me voto à excursão
nos verdes prados da elegia pura.
em que dobram meus versos  como sinos. 

MOSTEIRO II – 2 FEV 2017

Vou segurar a gota que pingou
e inseri-la de volta na torneira,
sem que dos dedos me escorra, tão ligeira
como algum sonho feliz que se sonhou.

Vou captar o vapor que evaporou
e introduzi-lo de volta na chaleira,
pelo bico ou pela tampa em que se esgueira,
tal qual amor que jamais se completou.

Vou segurar o fogo que contemplo
e refazê-lo em carvão, em lenha ou gás,
nessa inversão de tantos postulados

e com fogo e com vapor erguer meu templo,
em que tua angústia há de buscar a paz,
junto com tantos monges cogulados. (*)
(*) Cobertos com os capuzes dos hábitos.

MOSTEIRO III

Grossas cogulas cada rosto escondem
e só se escapa do burel a salmodia,
vozes soturnas em lenta litania,
vozes confiantes que num Te Deum estrondem,

vozes internas que os corações lhes sondem
cada pecado a buscar que se escondia,
que no mosteiro pouca coisa se fazia,
só as breves tentações que o peito rondem.

Mas é preciso confessar, senão,
como alguém outorgará absolvição?
Nessa mescla de orgulho e de humildade,

fugitivos do mundo, por inteiro,
erros caçando até o derradeiro,
em sua vaidosa busca da piedade!

MOSTEIRO IV

Mas no meu templo não será destarte:
foi erguido com água, gota a gota,
foi rebocado pela chuva mais secreta,
alicerçado em vapor que não se aparte.

Este é um mosteiro de místico descarte,
reunindo apenas o que a ninguém afeta,
das ilusões legítimas minha quota,
dos versos mudos a epístola comparte.

E por mais imaterial que te pareça,
já imaginaste que tudo quanto tocas
é composto por vácuos subatômicos?

Pura ilusão a te pregar a peça,
teu próprio corpo em que confiança alocas
em admiráveis vácuos tragicômicos!

MOSTEIRO V

Por isso falo em agulhas me cravar,
que mais não seja a afirmar essa ilusão,
todo o organismo superficial tensão,
o amor da carne um mistério milenar.

Pois cravarei as agulhas com vagar,
até uma artéria que atinja o coração,
toda a corrente rubra da paixão
por sob as unhas apenas ocultar.

E desse modo, cada gota vou pegar
desse sangue que das unhas me brotou
e obrigá-la a minhas veias retornar

e esse calor que percebo me deixar,
que por baixo das unhas se assoprou,
para as cutículas forçarei a se dobrar.

MOSTEIRO VI

Porque, de fato, o mais real mosteiro
é frequentado por monges que borbulham
em minhas artérias e verás que assim atulham
horas canônicas a me arrancar do travesseiro.

São as plaquetas os noviços que primeiro
cada ferida em seu conserto esbulham;
são as hemácias já padres que se orgulham
da diaconia a completar sonho romeiro.

São os leucócitos de maior ordenação,
os presbíteros da corrente sanguinal
e os macrófagos usam mitra episcopal,

no corpo inteiro salmodiando a religião
e assim expulsam os demônios, afinal,
mais por sua luta que por exortação!...

HIPNAGÓGICO I – 26 DEZ 2007
[alucinatório]

Sempre a higiene é coisa cansativa;
atividade entrópica: escovas os teus dentes
apenas por deveres mais frequentes
de outra escovação... repetitiva

o quanto pode ser e até abrasiva,
pois quando escovas, os  dentes repelentes
se tornam por desgaste, concorrentes
com o desgaste das escovas. A coisa viva

se renova com o tempo, mas são mortos
os pobres ossos com que sorris ao mundo
e é como se vivesses num cadáver:

cabelos, barba, pele, são abortos
que descamas pelo espaço, no infecundo
sonho induzido por sementes de papáver...  *
 [*] Papoula.

HIPNAGÓGICO II – 4 FEV 17

Matéria córnea tuas vinte unhas forma
e a epiderme é morta e insensível,
nos teus cabelos, em seu crescer incrível,
só nas raízes a vida se conforma.

Nem sempre neles o viver retorna:
é normal que para o vento incomparável
oferendas se entreguem; incansável
esse holocausto que aos pelos só deforma.

Claro está que se reativam as raízes
e outros folículos buscam vir à luz,
porém faz parte da masculina cruz

que mais cabelos vão ao chão que pises
do que esses que os vêm substituir,
das cabeleiras todo o orgulho a destituir!

HIPNAGÓGICO III

Não se passa com todos, certamente,
de cada dez, três homens ainda têm
os seus cabelos e em ostentar retém
as cabeludas caveiras dessa gente!

Da luz solar são proteção potente;
assim, de fato, perdê-los não convém,
mas considera, se pensarmos bem,
são fibras mortas que se corta, indiferente!

Em tua cabeça transportas multidão
desses cadáveres que de ti nasceram!
Não é, no fundo, um pensamento de arrepiar?

Contudo à derme conferem proteção
durante os anos em que não se perderam
e ações de graças por tal deves rezar!...

HIPNAGÓGICO IV

Das mãos tuas unhas precisas aparar
com bastante frequência, ao invés
das preguiçosas unhas de teus pés,
que até mais pressa deveriam revelar!

Quiçá a civilização fez-lhe atrofiar
o crescimento, pois protege teus chulés
com meias e sapatos, grossas sés
para teus passos mais firmes amparar!

Assim as mãos ficam sempre mais expostas,
Bastante raro luvas usar-se agora...
Será que alguns estudiosos já pesquisam

sobre as unhas do médicos e respostas
encontraram, demonstrando mais demora,
pois sob o látex crescer não mais precisam?

HIPNAGÓGICO V

Mas já pensaste que andas enrolada
por essas células que já são falecidas,
porém protegem tua derme das feridas,
sendo aos poucos cada uma descartada?

A tua caveira é, de fato, entrecortada
por tanta veia nela introduzida,
por capilares que ali acham guarida
e desse modo, pelo sangue é conservada.

Porém teus dentes projetados para o externo,
que tanta gente exibe com orgulho,
têm uma capa de esmalte já defunto,

embora a polpa conserve o dom superno
da vida plena, até encontrar esbulho
na refeição das bactérias – triste assunto!

HIPNAGÓGICO VI

De certa forma, assim, somos zumbis,
por mais cuidada nossa aparência externa,
a saúde a refletir da carne interna...
Em cada rua se contemplam corpos vis;

e ainda recorda que cada vez que ris
máscara morta mostrarás da eterna
corrupção que cedo ou tarde alterna
nesses teus dentes perfeitos que sorris...

Foi bem horrível este tema que escolhi,
mas é a morte que preserva a vida:
bem dolorosa é uma cárie mais profunda!

Que esta denúncia que te mostro aqui
te torne grata... pela pele protegida
e por cabelos de ondulação rotunda!...

AMAR PARA CRER I – 5 FEV 2017

ENTRE LILÁS E VIOLETA CORRE O VERSO
DOS DEDOS DE UM POETA DILETANTE,
SOMENTE AS RIMAS EMPURRANDO ADIANTE,
SEM QUE AO AMOR ESTEJA HOJE CONVERSO.

AMOR PARECE-LHE APENAS SOM DISPERSO,
TÃO FACILMENTE MURMURADO A CADA INSTANTE,
FRASE SUAVE, ÀS VEZES DELIRANTE,
RETORCIDA E RETOMADA EM SEU INVERSO.

E ENQUANTO ESCUTA TANTAS DESCRIÇÕES,
FRASES DE AMOR A REPICAR NO AR,
TOMA DE EMPRÉSTIMO TAIS DECLARAÇÕES

E ASSIM ESCREVE SOBRE O AMOR FRASES BONITAS,
SEM LÁ NO FUNDO EM NADA ACREDITAR:
NÃO MAIS QUE CONTOS EM DOURADAS FITAS!

AMAR PARA CRER II

PORQUE, AFINAL, NÃO SÃO SÓ ENAMORADOS
QUE TANTOS VERSOS LINDOS ESCREVERAM,
ALGUNS SEM CRER ATÉ MAIS SE ATREVERAM.
CAMÕES DEIXOU-NOS VERSOS ENCANTADOS

EM SEUS LUSÍADAS, SEUS AVÓS HOMENAGEADOS,
POREM SONETOS TAMBÉM LHE PERTENCERAM
E OS MAIS BELOS MODELOS ENTÃO GERAM,
PARA ESTA LÍNGUA EXATAMENTE ELABORADOS.

POR CERTO, NÃO OS PRIMEIROS REDIGIDOS
NA LÍNGUA PORTUGUESA, EM DOCE SOM,
MAS QUEM RECORDA SEUS PREDECESSORES?

OS SEUS PORÉM, SEMPRE MAIS GARRIDOS,
DE GERAÇÕES DETERMINANDO O TOM
DE QUEM PENSAR QUISER CANTAR AMORES...

AMAR PARA CRER III

CERTO DIA, ESSE POETA DILETANTE
PICADO FOI PELA PRIMEIRA VEZ
PELO DEUSINHO DE FORMOSA TÊS,
MAIS UMA VEZ SOBRE INGÊNUOS TRIUNFANTE...

E DESDE ENTÃO, TRANSFORMAÇÃO VIBRANTE
CONQUISTOU ESSE POETA PORTUGUÊS,
QUE NOVOS VERSOS DOCEMENTE FEZ,
CHEIOS DA GRAÇA DO MAIS FORMOSO INSTANTE!

MUITO MELHORES TAIS COMPOSIÇÕES
QUE AS DO AMOR DESCRENTE EM PALIDEZ;
NÃO É IMPORTANTE SEU NOME SABER,

DESDE QUE ACEITES SUAS NOBRES ILUSÕES,
RECUSADAS, QUIÇÁ, COM ALTIVEZ,
DURA FERIDA A OBRIGÁ-LO A CRER!

AMAR PARA CRER Iv

QUE AMOR EXISTE E FERE CADA CORAÇÃO,
ARTIFÍCIO TALVEZ DA NATUREZA,
ARTIMANHA DA RAÇA, COM CERTEZA,
SÍSTOLE E DIÁSTOLE MÃES DESSA ILUSÃO.

ATÉ QUERIAS SABER SE SUA PAIXÃO
CORRESPONDIDA FOI EM SUA PUREZA,
SE A ALMA TENTA SIMULAR NOBREZA,
SE FOI SOMENTE DISCURSO DE OCASIÃO.

TALVEZ O ENCONTRES NO PAÍS DOS SONHOS,
QUANDO A RESPOSTA TE DARÁ OU NÃO,
TALVEZ SE NEGUE, PRESA DO PUDOR.

MAS SEJAM CANTOS ALEGRES OU TRISTONHOS,
TODA A DESCRENÇA PÔS DE LADO, COM RAZÃO,
QUE SÓ SOFRENDO PASSOU A CRER NO AMOR!

ROSAS EM SALMOURA 1 – 6 FEV 17

Abro a janela da cozinha e a Clívia vejo,
Numa mescla de rosa e de laranja.
Mostrando linda umbela em fina ganja,
Meu coração invadindo em tal ensejo.

Se beija-flor eu fosse, daria beijo
Nessa corola pistilada em franja,
Fraco perfume que o olfato me constranja,
Mas sobre ela me inclino num adejo.

São tão efêmeras tais flores prestimosas!
No geral, uma fenece ao fim do dia,
Enquanto outra em seu corimbo cresce;

Mas por momentos expandem-se viçosas,
Imagem doce que a alma me atingia
Como a estrofe decorada de uma prece!

ROSAS EM SALMOURA 2

Rosas costumam ter mais longa duração
Que tais hemerocálides aflitas;
Como efemérides, um dia são bonitas:
Fazem amor e ovos põem em breve ação!

As ipomeias são menores, mas estão
A renovar o ano inteiro seus agitos;
Sempre abraçadas morrem, sem dar gritos
E sobre o solo vê-se a murcha floração.

Porém as pétalas das rosas e violetas
Também se comem, tais se doces fossem
Embora caras tais estranhas iguarias.

Na maior parte, despetalam-se, secretas,
Qual em adubo que a si mesmo endossem,
No qual, sem mais cuidado, pisarias...

ROSAS EM SALMOURA 3

Assim, antes que caiam, as colherei
Para as rosas mergulhar numa salmoura.
Já para as clívias bem menos duradoura,
Alguém com elas quiçá envenenarei!

Produzem Licorina, tal como encontrei
Na Wikipédia... De uma umbela a flora
Mostra-se tóxica para crianças que se adora
E a cães e gatos jamais a servirei!

Amariláceas sempre causam emoção
Muito diversa da que provocam rosas:
São mais robustas e pedem mais respeito,

Enquanto as rosas apenas frágeis são
Em sua aparência, bem mais dadivosas
Quando dispostas no vaso em gentil jeito!

ROSAS EM SALMOURA 4

Também assim transcorre com mulheres.
As que possuem aparência mais saudável
Têm resistência muito mais friável
Que algumas outras de frágeis pareceres.

Igual amor, que nos traz tantos prazeres,
Tão mais intensos, em sonho condenável
Quanto se esgarça, em seu desagradável
Emurchecer, até enfim desconheceres

O que te fez apreciar tanto no início,
Enquanto amor suave de fragrância
Aos poucos cresce e a alma te domina

No mais gentil e duradouro vício,
A pouco e pouco aumentando sua potência,
Até que integralmente te fascina.

FLORES DE MAGNÉSIO I – 7 FEV 2017

onde andará o sonho que me espera,
para onde foi tal ilusão perdida?
o ideal desfeito aonde achou guarida
e o devaneio a qual fantasma gera?

saber destes meus sonhos, quem me dera!
que pudesse colhê-los ainda em vida,
antes que chegue do final a despedida,
esse beijo de vapor, tocaia e fera!...

perdeu-se a alma dessa exaltação,
deixou concreta apenas minha loucura,
orvalho seco em arrebol sem luz...

mas quem sabe?  escondida na canção
se encontra ainda tal harmonia pura
sobre o sepulcro de meus sonhos nus!...

FLORES DE MAGNÉSIO II

lá nos primórdios da fotografia
era costume, quando escuro, reforçar
a iluminação, em vasto pipocar
de magnésio, que súbito explodia.

em muitos filmes do passado, a gente via
certo artifício mão firme a segurar,
que levaria o magnésio a se abrasar:
certa surpresa nos olhos produzia...

realmente, nesse tipo de tortura,
o reflexo da luz a perpetuar,
sem que de fato fosse a vida dos modelos.

tal a razão da expressão de sepultura
que em faces mortas se pode contemplar,
em tantos rostos despidos de desvelos...

FLORES DE MAGNÉSIO III

mas no momento de registrar as flores
nessas placas de vidro, em negativo,
para mover-se não têm qualquer motivo,
salvo se o vento as sacudisse em seus ardores.

nenhum espanto, suspiro ou estertores
sobre tais pétalas se tornaria mais ativo.
flores não piscam ante lúcido incentivo,
já são imóveis por naturais pendores.

mas caso houvesse uma flor apaixonada,
talvez mostrasse a sombra de um suspiro
e em tal tremer, confusa bola ficaria,

quando essa foto saísse desfocada,
qual desfocada é a razão se o mundo eu miro
quando do amor o magnésio me explodia!

SALÕES DE BARRO I – 8 FEV 2017

Houve muitos no passado que enfrentaram
a mediocridade vicejante a seu redor;
após sua morte, quando seu valor
finalmente os estultos alcançaram,

quantos daqueles que desses tais zombaram
reconheceram, sem erro e sem temor,
já sem da inveja ou da malícia ter fervor
quão original fora o que os outros publicaram!

Por isso, não espero, após a morte
alcançar a aprovação dos detratores
que me sobreviverem, sem remorso,

mas que algum remordimento queira a sorte
que em seu íntimo sintam, pobres dores,
que jamais compensação tão triste esforço.

SALÕES DE BARRO II

Eu vejo multidões em lançamentos
de obras totalmente sem valor
e em vernissages, tomados por ardor,
vêm os críticos manifestar seus julgamentos,

quais os modismos reinantes nos momentos
e ainda são pagos por crédulo editor,
por essas críticas redigidas sem amor,
a mostrar predileções ou descontentos...

Salões de barro erigem-se ao redor
desses que encontram em vida aceitação,
pobres ídolos derruídos após a morte,

enquanto aqueles que produzem algo melhor
só após seu passamento aceitarão,
vastos louvores, a lhes trazer inútil sorte...

SALÕES DE BARRO III

Naturalmente, o motivo disso tudo
é que os mortos já sombra não projetam,
originalidade e seu brilho não afetam
esses medíocres em seu olhar desnudo,

pois o louvor dos falecidos é um escudo,
que aos invejosos suas desditas não espetam,
os gênios mortos pouco ou nada inquietam
esses  frustrados com os quais nunca me iludo.

O que mais temo é o fácil elogio,
pior ainda que a mais feroz indiferença:
até que ponto me então mediocrizei?

E certas vezes, sinto mesmo um arrepio
quando contemplo, cheio de descrença,
os pobres versos que ao mundo projetei...

SALÕES DE BARRO IV

Em quanto escrevo há certa sombra de verdade,
mas se algo acho bonito, me surpreendo,
de onde surgiu, realmente, não compreendo
e até duvido ser algo meu, na realidade.

E assim me sinto na obrigatoriedade
de espalhá-los pelo mundo e não me ofendo
se alguém me fala que a vida não entendo:
contra os padrões mr lançarei em alacridade!

Não sou a voz do povo que protesta,
jamais pretendo realizar doutrinação,
pouco me envolve em carnavais ou festa;

mas esses versos têm valor pelo que são
e não me cabe os ocultar em qualquer fresta,
que a algum propósito sempre servirão.

SALÕES DE BARRO V

Qual seja esse propósito não sei.
Talvez eu seja a voz dos esquecidos,
talvez até oriente alguns perdidos,
talvez mais mal que bem até farei.

Mas nesta dúvida não me acolherei,
subreptícios sejam os versos desnutridos,
para algum alvo me foram transmitidos
e para alguém que os necessite enviarei.

E como posso saber se agradarão,
tão numerosos são que nem os leio
após cumprir sobre a tela a revisão?

mas sei que as mentes de alguns atingirão,
mais alguns outros afetando de permeio,
o quanto basta para tanta produção.

SALÕES DE BARRO VI

Pois com argila erguerei os meus salões,
sem meus tijolos levar a uma olaria;
o próprio Sol, com seu calor, os cozeria,
tal qual faziam os sumérios em ocasiões.

Mas acredito que tais vastas construções
o pensamento coletivo aprovaria;
na Noosfera um vasto templo se ergueria,
pórfiro azul irradiado de emoções!...

E nos altares serão entronizados
somente os versos que não lerei jamais;
pouco me importa se a meu nome recordem

senão talvez em razão de meus pecados,
todos medíocres, como os de tantos mais,
desde que aos versos seu louvor acordem!

William Lagos
Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com
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