quarta-feira, 19 de abril de 2017



BHUVANESWARA – 2 JAN 2011
(Bhuvaneswari devi é a deusa hindu do mundo material, também chamada de “MÃE DO MUNDO”, UM AVATAR DE Durga)
DUODECANETO DE WILLIAM LAGOS

                   (BHUVANESWARI DEVI)

bhuvaneswara I    (2 jan 2011)

em tons de verde minhas dúvidas elevo:
    combate a turmalina o carmesim,
        berilo claro e transparente assim,
            que na turquesa refletir-me devo;

            verde-petróleo a meus altares levo,
        nessa queima de holocausto para mim:
    verde-esperança a conduzir meu fim,
que só a mim mesmo suplicar me atrevo;

são verdes os meus ossos vegetais,
    no verde musgo das lendas naturais,
        no verde-folha de um sonho malformado;

        verde meu sangue, em linfa derramado,   
    verde minha vida oprimida de criança,
que meu destino só verdemente alcança.

bhuvaneswara II

com teu arado meu coração lavraste,
torrões de lama, porém gume afiado;
não te importaste com o coração magoado,
na imposição do talho que deixaste;

porém da carne que assim arroteaste
surgiram folhas verdes, continuado
esplendor de esperança, em compassado
crescer – talvez bem mais do que esperaste;

a carne inteira se fundiu em negra terra
e a própria indiferença ao sofrimento
semeou vasta assembleia de botões;

ou quiçá fossem sementes que ela encerra,
o pobre coração em seu tormento,
reproduzido na verdura dos florões.

bhuvaneswara III

agouro verde que tomou-me a crina
à guisa de uma rédea verdejante;
montou-me na garupa, triunfante,
a dirigir cada passo de minha sina;

agouro verde que a anunciar inclina
a indiferença dessa vida sibilante,
o tédio pelo tempo negrejante,
no corte manso dessa mágoa fina;

agouro verde como o mate amargo
em seu gelado sabor de tererê:
sua bomba serve para me sugar,

nessa inversão de seu antigo encargo,
aos poucos me dilui – e então se vê
o agouro verde em mim se realizar.

bhuvaneswara IV

sou um homem comum e sem poderes,
salvo aqueles que o verde me concede;
desde criança me escapei da rede
de comer carne e de seus malfazeres;

pois me bastam da terra os concederes:
cereais e frutas é quanto a mente pede;
o verde da hortaliça a carne mede
e me fez crescer bem, sem desprazeres;

contudo, não sou um bom vegetariano:
ovos e leite, requeijão e queijo
me levaram a apostatar dessa dieta;

porém refreio em mim sabor profano
com as pastas do verde que desejo
e o laticínio a consciência não me afeta.

bhuvaneswara V

no caule assegurado, rédeas vou tomar do tempo,
a floresta então cavalgo em embiras de cipó
o verde caule e a carne verde são um só,
ninguém me segue, está vazio o templo;

a verde orquestra sobre mim contemplo,
esverdeado de ouro em poeira e pão-de-ló;
sou trigo e sou farinha, sou grão e sou a mó
no esmeraldino verde de cada contratempo;

em tal caule me assento, segurando folhas
e ordeno que revolva, tal qual um girassol,
na esteira do vento em dança de sementes,

na espuma do verso que espero hoje recolhas
no musgo esverdinhado do teu guarda-sol
e em ti eu reverdeço as cantigas mais dolentes.

bhuvaneswara VI

por acaso não pensas que já me enjoei dos versos?
pois deles eu cansei na esteira de mil anos,
mas verdes rebrotaram no vicejar dos planos,
estrofes a reunir domínios indispersos;

e os vejo de novo, diários e dispersos,
no ar baila a moinha, luxúria dos enganos,
narinas que me invadem, silentes em afanos,
nas glaucas cenas tais dos tempos mais diversos

e mesmo esse vapor que brota desde o chão,
é rocio invasor de meus olhos, nenhum dó,
na tenra exposição auriverde das espigas;

e meiga então me aquece e alucina a emoção,
de mim tomando conta, jamais deixando só,
palavras a verter no verde das urtigas.

bhuvaneswara VII

e quando tuas flores – em mim se enraízam,
em ramos macios de verde a granel,
em minhas narinas o pólen faz mel,
colmeias de verde e a mente escravizam;

mas quando caprichos os brotos repisam
de flores coradas, sua seiva de fel
instila-me dores de um gosto rebel,
os sulcos na carne de verde revisam;

aos poucos me surgem, porém cicatrizes
no pus das feridas que verdes fecharam,
o amor esquecido parece-me louco,

contudo, ao pensar que ainda me vises,
sorrio em cinábrio, que as dores viraram
convólvulos verdes de incômodo pouco.

bhuvaneswara VIII

memórias retidas em verdor luxuriante,
a pouco emurchecem e se fazem castanhas,
já mais quebradiças, em fibras estranhas,
veludo em folhagem de tom lancinante;

textura conservam na cinza inquietante,
as folhas se enrolam no murcho das manhas,
secadas se acham porque não as banhas,
passados os beijos de olor cativante.

contudo seu caule ainda está resistente
e assim pode afrontar o pranto da geada,
sussurrando ante a brisa num pálido som;

deixou de ser verde, num gris inconsciente,
talvez sequer passe outra vez madrugada
nesse pingo de orvalho de um gélido tom.

bhuvaneswara IX

contudo, essas raízes em minha alma,
por mais que sejam negras, verde têm;
basta esperá-las que mostrarão também
suas dicotiledôneas, no verdor de palma;

    retornar me virá o que me embalma,
a um breve sopro que de ti provém,
não mais do que suspiro, mas contém
revigorante turmalina e grácil calma.

sou verde para ti, tímido embora,
pois guardo os lanhos em meu coração,
a tua ausência me feriu como azorrague,

que decepou minhas flores nessa hora,
mas meus rizomas guardam firme essa emoção
e hão de brotar sempre que sopro teu me afague.

bhuvaneswara X

mas enquanto não retornas, verde limo
vai recobrindo as dobras de meu peito,
surgem os líquens, sem qualquer defeito,
brotam avencas ao redor do sino;

as samambaias entoam verde hino,
a relva cresce e vai tomando jeito,
surgem dentes-de-leão, em brando eito
e do canteiro já ocupam todo o cimo;

não há lugar para flores de cultivo,
mas são dourados tais dentes-de-leão,
enquanto as sépalas verde têm suave;

talvez um dia rebrote, redivivo,
esse jardim abandonado em vão,
como os vinhos esquecidos numa cave.

bhuvaneswara XI

em tons de verde, retornam as memórias,
para o jardim ressecado de meu peito;
ninguém mais, além de ti, possui direito
de recordar-me o berilo dessas glórias;

pouco importa que as aleias com escórias
se achem entupidas, em liquefeito
escorrer das quimeras que hoje aceito,
nesse sínople imperfeito das histórias;

pois algo sempre houve, no entretanto;
trouxe o verde de além-mar para a mistura
do que foi sonho com a nova permanência,

água-marinha e solidão no escuro canto,
entronizadas no ouropel da ilusão pura,
em mantos verdes da mais vital potência.

bhuvaneswara XII

retorno ao verde, com mediocridade,
verde-de-prússia, envenenado canto,
minha deusa a invocar em seco pranto,
a medusa a transformar em realidade;

as gotas verdes em sangue sem maldade,
na clorofila do meu ideal – mais santo
que a hemoglobina em seu purpúreo manto,
que nutre e anima toda a humanidade;

verde poema em renovo de um caudal,
verde macio de trevos e azevém,
saxífragas em ranques espraiadas;

aspargo e junco como flautas em sinal,
o verde escolho que verde amor contém
na pradaria dos mil pequenos nadas.

William Lagos
Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com
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terça-feira, 18 de abril de 2017



CINCO CONTOS DE MALBA TAHAN
(ADAPTAÇÃO E VERSOS DE WILLIAM LAGOS3-7/3/3017)

OS GANSOS DA PÁSCOA ... ... ... 3 MAR 17
O COLECIONADOR DE COINCIDÊNCIAS ... ... ... 4 MAR 17
OS COMEDORES DE REIS ... ... ... 5 MAR 17
a CIDADE PERDIDa ... ... ... 6 MAR 17
O ELEFANTE FURIOSO ... ... ... 7 MAR 17


(aldrava para porta)

OS GANSOS DA PÁSCOA I – 3 MAR 17

Em certa noite de Páscoa, Rogério de Teivar,
um barão espanhol bastante aquinhoado,
com doña Blanca, sua esposa, achava-se assentado
à sua mesa, com os quatro filhos a cear...

Dois rapazes e duas moças a brindar
por essa Páscoa, que enfim havia chegado,
carne comer novamente autorizado,
longa Quaresma a afetar seu paladar...

Por fora, caía chuva em tempestade,
mas dentro estavam todos abrigados,
tanto a família quanto os seus criados;

porém um outro som a casa invade:
alguém erguia e baixava a sua aldrava,
diante da porta da mansão alguém chegava!

Veio o mordomo, um tanto perturbado.
“Senhor Barão, apareceu um forasteiro
pedindo abrigo.  Vim indagar primeiro
o que deva fazer.  Parece-me educado.”

“Também se veste com certo cuidado,
não como camponês ou cavaleiro,
é mais como burguês...  Correu ligeiro,
mas pela chuva ficou todo encharcado!...”

“Ora, mande-o entrar e vir até aqui;
não vai ficar na chuva, mas vou ver
de que maneira ser tratado deverá.”

“Senhor Barão, por isso eu perquiri,
mas tem certeza de que o deva aqui trazer?
A sua ceia irá, por certo, perturbar!”

“Traga-o aqui.  Não irá nos perturbar,”
disse o barão.  O mordomo obedeceu
e logo um rapaz (até bonito) apareceu,
todo molhado, o piso a emporcalhar!...

Com educação se soube apresentar;
sem humildade nem orgulho respondeu:
“Eu sou Ramiro Fruela e aconteceu
que a tempestade não estava a esperar.”

“Sou mestre-escola na aldeia de Alcalá
e ao ver chegarem as férias de verão
(na Europa é invertida esta estação),

“com meus pais quis a Páscoa celebrar,
mas não consigo ainda hoje chegar lá,
depois que veio a tempestade a desabar...”
       
Mas o barão esqueceu as boas maneiras
e ao invés de convidá-lo a se assentar,
daquele pobre ensopado quis zombar:
“A Providência tem medidas bem certeiras!”

“Um mestre-escola as matemáticas ligeiras
tenho certeza de que sabe calcular...
Tenho um problema e sei que pode me ajudar,
pois já esgotamos as respostas mais rasteiras...”

“Senhor Barão, certamente o ajudarei,
desde que tenha a meu alcance a solução...”
“Como vê, em minha família somos seis...”

“Já o meu problema lhe apresentarei:
um de meus arrendatários na ocasião
trouxe-me seis gansos dignos de reis!...”

OS GANSOS DA PÁSCOA II

“Um está aqui, já servido na travessa,
os outros cinco estão no galinheiro
e por nós seis preciso dividir; primeiro
será este ganso cujo odor não cessa

“de fazer com que na boca a água cresça...
Depois, há os outros cinco no terreiro
a dividir por seis, meu cavalheiro...
Como fazer...?”  “Senhor, sois a cabeça

“desta família e também a sustentá-la.”
E tomando o trinchante, foi cortar
cabeça e costas para o prato do barão.

E a doña Blanca serviu, para agradá-la
todo o peito do ganso. “Cabe à mãe amamentar
seus filhos.  Eis, portanto, a sua porção!...”

“As duas filhas são belas e prendadas
e muito em breve terão seu casamento;
as asas lhes darei neste momento,
pois a voar a um novo lar são destinadas...”

“Aos dois rapazes estarão já preparadas
longas viagens do maior portento;
assim as pernas lhes darei em cumprimento
das excursões em suas muitas caminhadas!”

“E como eu mesmo sou jovem e modesto,
a minha valia sendo, é certo, bem menor
que a da família da qual estou no meio...”

Puxou a travessa para si, num veloz gesto:
“... eu me contento com a porção pior
e vou comer apenas o recheio!...”

Foi acolhido por uma vasta gargalhada!
Disse o barão ao mordomo surpreendido:
“O professor de frio está encolhido:
leve-o a trocar-se por roupa adequada...”

“E o traga de volta sem demora.  Preparada
já está a ceia inteira...”  Foi logo obedecido;
em seguida foi seu hóspede atendido,
da ceia inteira a partilhar ali mostrada...

Após tomar o vinho e a sobremesa,
o barão retomou o requerimento:
“E como vai nos dividir os cinco gansos?”

Disse Ramiro: “O estômago me pesa
após a ceia de tão bom sustento...
De três em três dividirei seus bichos mansos...”

“Mas como assim?  Dividir cinco por seis
criando grupos de três, todos iguais...?”
“O Barão e à Baronesa, por motivos naturais,
e mais um ganso formarão grupo de três!”

“Às suas filhos com outro ganso formareis
segundo par de três, assim no mais...
E seus filhos e outro ganso serão tais...
E eu faço três com outros dois, que me dareis!”

Novamente originou grande alegria
e o mestre-escola permaneceu bem hospedado,
tendo de adiar a visita a seus parentes...

Quando partiu, um bom cavalo dirigia,
com vinho e provisões bem equipado,
mais um bornal estufado de presentes!...

EPÍLOGO

Naturalmente, foram os gansos abatidos
e servidos em almoços e jantares:
não seriam no cavalo pendurados!...
Bem mais valiosos os presentes recebidos,
muito apreciados pelos familiares
aqueles seus engenhosos resultados!...

O COLECIONADOR DE COINCIDÊNCIAS I – 4/3/17

Certo dia, um matemático famoso
foi em seu escritório visitado
por um desconhecido inesperado,
cujo aspecto era um tanto misterioso...

O matemático indagou, meio curioso,
qual o motivo que o havia impulsionado
até seu escritório, sem querer ser perturbado,
por um motivo que não fosse prestimoso...

O homem era da máxima magreza
e ainda usava uns óculos cinzentos, (*)
com aros de tartaruga avermelhados.
(*) Não diga UM ÓCULOS.   Duas lentes formam par!..

“Não vim aqui explorá-lo, com certeza,
pois lhe farei os devidos pagamentos,
caso me atenda com seus gentis cuidados..”

“Pois muito bem.  E que problema será esse?”
“Veja bem: eu coleciono coincidências.
Não se espante.  Já escutou muitas tendências
dessas pessoas que um certo zelo aquece...”

“Pois selos colecionam e moedas; ainda há esse
que junta fósseis, pedras, conchas com frequências
muito acentuadas; quadros e jóias, se as potências
econômicas lhes permitem as caras messes...” (*)
(*) No sentido de conjuntos ou acervos.

“Já eu procuro ser bem mais original:
procuro coincidências nos jornais.
no rádio, em livros e na televisão

“e me esforço a comprovar, é natural,
que não me sejam inventadas, ademais,
mas que, de fato, ocorram na ocasião!”

“Trago em meu álbum as fotografias,
os recortes de jornal, depoimentos
que realmente confirmem tais portentos,
nunca aceitando criações ou fantasias.”

“Olha, entendi muito bem o que dizias,
mas o que tenho a ver?  Nestes momentos
não me ocorrem quaisquer desdobramentos...
Qual o motivo por que me consultarias?”

“Caro senhor, são as probabilidades!
Que me calcule matematicamente
de cada coincidência as raridades...”

“Ser algumas bem prováveis poderão,
enquanto outras são bem raras, realmente,
coisas que ocorram só uma vez em um milhão!”

“Sei que algumas são simples, realmente:
a gente telefona para alguém
e então descobre a intenção que tem
de nos ligar, quase simultaneamente...”

“Ou entramos em uma loja, calmamente,
e nosso nome escutar a gente vem
e então nós vamos responder, porém,
havia um tocaio bem próximo da gente!...”

“Já no outro dia, ocorreu um acidente:
um cidadão morreu atropelado,
um médico foi bem rápido chamado,

“depressa um guarda a ocorrência atende,
mais um repórter que surge de repente...
Todos se chamam José!  Não lhe surpreende?”

O COLECIONADOR DE COINCIDÊNCIAS II

“Sem dúvida,” disse o outro.  “É bem verdade
que esse nome, “José”, antigamente
era aplicado aos homens bem frequente;
mesmo assim, é inesperado, em realidade...”

“E desta outra, qual será a probabilidade?
Mil novecentos e dezenove. Um barco, realmente
Foi de Dover para a França... O surpreendente
é que era um barco cargueiro.  E a quantidade

“de passageiros era de quatro, apenas...
A dois, porém, faltava a perna esquerda!
E os outros dois não tinham a direita!...”

“Tenho na pasta fotografias dessas cenas...
Como explicar que cada um tivesse a perda
de igual membro e ali se achasse nessa feita?”

Pela resposta nem espera o visitante
e disse ainda: “Meço de altura um metro e setenta,
meu nome é Samuel Senna.  Que se apresente
outro Samuel, já será bem interessante

“coincidência, mas nada de importante;
porém se a altura que a esse outro atente
for justamente a minha?  Não se alente
um pouco mais a coincidência avante...?”

“Também sou médico e exerço a profissão;
e se descubro, em idêntica ocasião,
que esse outro é doutor em medicina?”

“Já mil vezes mais raras as coisas são!
E se o desconhecido se destina
tal como eu, a uma igual recepção...?”

“Não será coisa mais cem mil vezes rara?
E se então descubro que o desconhecido.
de quem jamais antes disso tinha ouvido,
tem o mesmo sobrenome?  Não dispara

“a imaginação a correr e já não para?
Só num milhão de vezes o ocorrido!
É isso que eu quero: ver estabelecido
um padrão que a raridade torne clara!”

“Fácil é probabilidades calcular,”
respondeu o matemático, sem pressa.
“Basta os Teoremas aplicar de Poincaré...” (*)
(*) Matemático francês.  Pronuncie “puancarê”.

“Bem facilmente nisso posso lhe ajudar,
mas é preciso que nunca se esqueça:
não coincide tudo aquilo que se lê...”

“Nesse caso do barco que citou,
não leu o amigo a notícia até o fim?
Durante a guerra perdem os quatro assim
cada membro inferior que lhe faltou...”

“E numa clínica da França se agendou:
ali suas próteses iam provar, enfim...
Não há qualquer coincidência para mim:
no mesmo barco o exército os mandou...”

“Não tenha dúvida, vou calcular o seu teorema.”
E o matemático da poltrona levantou:
tinham os dois exatamente a mesma altura....

“Como o senhor, eu me chamo Samuel Senna...
Também sou médico.  Meu diploma não notou
naquele quadro?  Eis coincidência pura!...”

OS COMEDORES DE REIS I – 5 MAR 17

Acusado de resistir a um policial,
foi um rapaz jogado na prisão,
junto a dois homens que ali já estão,
cumprimentos trocando mal e mal...

Um homem magro, de aspecto marcial,
falava ao outro, a mostrar desolação:
“Só consegui esta semana, meu irmão,
comer um rei. Tens mais sorte, é natural,

porque dois reis eu sei que já comeste!”
Falou o outro, com vasta barba preta:
“E da rainha, tão depressa te esqueceste?”

“Esta semana também uma devoraste!...”
Ficou o rapaz na maior tensão secreta:
Os dois são loucos! Melhor seria que me afaste!

Pediu em vão para trocar de cela,
nenhuma atenção lhe deu o carcereiro...
Não pretendo passar por ser cordeiro,
vou inventar loucura ainda mais bela!

“Estou aqui porque tive má estrela”,
começou a mentir, mais que ligeiro.
“Aqui me tendes por perfeito companheiro.
A cada vez que surgia uma procela,

eu penetrava no palácio de algum rei!...
Quatro comi tão só no ano passado:
o da Bulgária foi depressa devorado;

os da Grécia e da Sérvia eu já cacei;
o Rei da Albânia me deu indigestão:
comi-o inteiro, mesmo tendo um barrigão!”

Os outros dois o contemplaram com espanto,
até mesmo a demonstrar consternação...
Pois vou causar-lhes até mais admiração!
“Também comi uma rainha no seu canto,

“e a dez famílias reais já causei pranto:
sete princesas já comi em ocasião
e mais dois príncipes, de pouca nutrição,
o meu estômago forrando com seu manto!”

Viu que os outros dois estavam embasbacados
e o rapaz ainda falando prosseguiu:
“Tenham certeza, não estou mentindo,

“aos dois confesso realmente os meus pecados;
ninguém fazer-me confessar já conseguiu,
mas esse vício já percebo a nós unindo!...

E percebendo ainda haver certa descrença,
o rapaz, mais que depressa, improvisou:
“Pois desta vez a polícia me encontrou,
após comer o Arquiduque de Placença!...”

“Com o uniforme o devorei e mesmo a tensa
comenda de ouro que sempre ele ostentou;
já a sua espada mais esforço me tomou:
devia tê-la guardado na despensa!...”

“Mas comi tanto que nem pude fugir!
“Desci, é certo, o muro do castelo,
mas não pude cruzar o fosso a nado!”

“Assim a guarda me pôde descobrir;
a espada vomitei, perdido o zelo,
mas digeri tudo o que havia devorado!”

OS COMEDORES DE REIS II

“Esse rapaz é louco!...” – um exclamou.
“Com ele aqui já dormir não poderemos!
Com nossos cintos é preciso que o amarremos!”
E logo o par sobre ele se atirou!...

Foi o rapaz dominado e suplicou:
“Por favor, não me comam!  Tenho venenos
em minha carne, que comprei dos sarracenos, (*)
que irão matar a quem não me escutou!...”
(*) Nome dado antigamente aos muçulmanos.

“Você é louco mesmo!  Não queremos,
de forma alguma devorar você!...”
“É claro, não sou rei, sou só plebeu!...”

Eles riram. “Acho que não nos entendemos
não somos canibais...  É isso que crê?...”
Longa risada aos dois acometeu...

“Pobre idiota!... Nós somos jogadores
e aqui está o nosso tabuleiro!...
Um deles levantou um travesseiro
e uma tábua lhe mostrou, com marcadores,

em quadrados demarcando seus pendores.
“Faz tempo que aqui estamos, companheiro,
Xadrez jogamos e o tempo passa mais ligeiro,
é só das peças que nós somos comedores!...

“Nós as fazemos com miolo de pão
e o vencedor da partida come o rei
ou a rainha, quando ela é tomada...”

“O perdedor tem de usar a sua ração
para substituir a peça: é nossa lei
e o alimento já é bastante limitado!...”

“Tal qual verá, caso na cela se demore;
é muito pouca a comida que nos dão;
sacrificar mesmo um naco desse pão
é como se a nós mesmos o outro devore!”

“Quem tem as pretas ainda é preciso que decore
com a fuligem das paredes ou do chão
essa peça que perdeu... E com razão
é com as pretas que jogar a gente adore!”

“Sempre as brancas conservarão melhor sabor,
mas como aqui se passa muita fome,
também as outras, no final, se come!...”

“Mas o que vamos fazer, seu comedor,
que confessou-nos ser um canibal?
Denunciá-lo será preciso, no final!...”

“Não, por favor!... Confesso que menti:
pensei que fosse de vocês essa loucura!
E se achassem que eu era rei?  Qual a tortura
que eu sofreria?...  Nem há fogo por aqui!...”

De boa vontade, então o barbudo ri
e o desataram, até mesmo com ternura...
Ele indagou, em curiosidade pura:
“E as outras peças que na caixinha eu vi?”

“Vocês não comem todas essas também?”
“Quanto mais peças a gente for comer,
maior prejuízo se daria a quem as fez!...”

“Só uma partida por dia a gente tem!...
Por que não veio logo a ideia lhe ocorrer?
No fim das contas, estamos todos no xadrez!...”

A CIDADE PERDIDA I – 6 MAR 2017

Em um ponto hoje esquecido do deserto
havia um oásis com sete mil palmeiras,
junto do qual defendiam suas fronteiras
mil guerreiros de ânimo desperto!...

Muralhas ali ergueram, muito perto
de Shaarka-al-Ladam, hospitaleiras
para honestos mercadores as suas feiras,
para adversários a proteção por certo!

Contudo, os habitantes da cidade
eram só homens cruéis e salteadores,
assaltando os oásis ao redor,

trazendo ao lar riqueza em saciedade,
mais fileiras de escravos sofredores,
que então vendiam só por ter lucro maior!

Ao retornarem, após os seus combates,
eram sempre recebidos com festejos
das mulheres e filhos, com mil beijos
a repartir todo o botim dos açafates!

Raros morriam nesses tais embates:
sua má fama os precedia nos ensejos;
os invadidos rendiam-se sem pejos,
tudo entregando, poupando-se aos abates!

E foi assim aumentando a sua ambição;
com desgosto, olhava Alá a Shaarka-al-Ladam,
pensando, enfim, em punir-lhes a impiedade,

quando inspirou-lhes uma vasta expedição:
saquear a capital de uma região de Oman,
a sua cobiça incitando de verdade!...

Tendo escutado a voz dos mercadores
sobre as riquezas de Ras-al-Azir,
que calcular mal podiam conseguir,
mas era um povo, afinal, de saqueadores!

Até nos velhos despertaram-se os ardores,
furiosa tropa podendo então reunir,
para a cidade irem alegres destruir,
um vasto saque, depois de sangue e horrores!

E desta forma, só ficaram na cidade
os meninos menores e as mulheres,
sem de fato precisar de defensores;

todos temiam a sua ferocidade,
nenhuma tribo a ameaçar os seus haveres,
partindo todos, sem quaisquer temores!...

Mas desta vez, encontraram resistência,
pois em nada eram covardes os Aziritas,
enfrentando bravamente aos Ladamitas,
mesmo vencidos por sua maior potência...

Mas da derrota ao se tomar consciência,
sem submeter-se às suas ações malditas,
fez o sultão evacuar, em longas fitas,
os habitantes, na maior urgência!...

Indo às cavernas que possuíam nas montanhas
e retardando, através de escaramuças,
embora sempre em constante retiradas,

aos Ladamitas, com variadas artimanhas,
perdendo gente nas areias ruças,
mas garantindo as salvaguardas desejadas!

A CIDADE PERDIDA II

Os Ladamitas todos os seus bens saquearam,
mas não seu ouro, suas jóias ou diamantes,
Salvaguardados de tais cobiças delirantes
por suas famílias, que inteiras se salvaram!...

Mas quando os agressores retornaram,
com muito menos do que esperavam dantes,
Shaarka-al-Ladam sumira em tais instantes
e em tontos círculos no deserto a procuraram!...

Nem sequer seus alicerces encontraram,
chegando até de seu lugar a duvidar,
por duas semanas, em vão, a procurar

e logo os odres de água se gastaram,
os velhos e os feridos a morrer,
sequer do oásis a menor pista ter!...

Os Ladamitas foram tomados de horror.
Mas o que é isso?  Era o inverso de miragem,
ao invés de duplicar-se uma paisagem,
somente viam mais areias e calor!...

As mulheres e crianças com fervor,
mais do que tudo, procurando com coragem
e em vão pediam a Alá qualquer mensagem,
não mais podiam gozar do Seu favor!...

Então Kahled el-Azir, sábio sultão,
decidiu de sua derrota se cobrar
e após deixar os sobreviventes descansar,

partiu célere em sua perseguição!
O seu vizir ainda intentou o dissuadir,
sem o sultão os seus conselhos permitir...

“Agora eu sei que os poderei vencer:
os Ladamitas já perderam seu ardor,
não têm mais lares, nem filhos, nem amor,
nunca lutaram por só simples prazer!...”

“Queriam às tendas o seu botim trazer!
Estão sem forças, feridos pelo horror
desse castigo de Alá, o bom Senhor
que não permite aos infiéis remanescer!...”

E realmente, aos Ladamitas encontraram,
mal acampados, no meio do deserto,
que se deixaram matar sem resistência!

Muitos deles até se suicidaram,
largado o saque sob o céu aberto,
recuperado pelo dom da Providência!

Shaarka-al-Ladam nunca mais apareceu,
somente os ossos dos guerreiros no lugar,
mas caravanas por ali a atravessar,
viram vultos cavalgando sob um véu;

homens armados a fazer grande escarcéu,
mas que passavam por ali sem atacar,
sumindo logo sob os raios do luar...
E da cidade, a pouco e pouco, se esqueceu...

Embora a lembre algum velho mercador,
a lenda antiga repetindo com espanto:
“Ali havia maravilhosa feira!...”

“Deles Alá retirou todo o favor:
nada subsiste na ausência de seu manto!
Que vossa fé seja pura e verdadeira!...”

O ELEFANTE FURIOSO I – 7 MAR 2017

Havia na Índia, na região de Sariwar,
uma floresta de árvores pujantes
e à sombra de uma delas, viajantes
sempre notavam um asceta se assentar...

Os seus discípulos, com paciência, a ensinar
algumas lições de Jainismo transbordantes;
aos mais avançados, em notas mais brilhantes,
sua doutrina mais austera a analisar...

Brahma compõe o Universo inteiro,
sair de Sua presença é impossível;
desde o nascer até o instante derradeiro

é inconcebível Dele se afastar,
todas as coisas em seu peito inexaurível,
o Bem e o Mal, tudo Nele a se guardar!...

Para iniciantes, ele falava simplesmente,
que em tudo Brahma Deus se pode achar;
Ele se encontra em qualquer lugar,
nos animais, nas plantas e na gente...

E nada ocorre neste falso mundo ingente
que não venha a Sua vontade completar;
a vida e a morte deveis calmos aceitar,
que até na dor e na doença está presente!

Seguir a Ahimsa é, portanto, necessário: (*)
nem uma pulga devereis matar,
nela também podeis Brahma encontrar.
(*) Doutrina da não-violência: matar nunca!

Reside em tudo.  Todo e qualquer fadário
É Attakatha, um divino comentário
e assim deveis mesmo as folhas respeitar!

“Mas como iremos nos alimentar?”
Na Natureza existe o acolhimento;
parte aceita ser de outra o alimento:
quando morrerdes, ireis ao solo retornar...

A vossa carne irá as plantas conservar
e no louvor desse divino julgamento
os animais nutrirá, nesse portento...
Não há razão real para jejuar!...

Mas se matardes, pedi a permissão
e agradecei ao cordeiro vosso irmão!
E quando frutos para comer tomardes,

agradecei à árvore e à raiz,
pelo nutrir que vossa boca e alma quis:
não há razão para não vos alimentardes!

Tudo escutava Ajamil com atenção;
de seus discípulos o mais jovem e mais recente.
“E na Sansara não devo então ser crente?” (*)
Nunca se pode negar a reencarnação.
(*) A Roda das Encarnações; o Eterno Retorno.

Mas uns afirmam outra coisa, sem razão:
que retornar como animal seja frequente.
Não é assim.  Tão logo seja humana gente,
não perde a alma a sua humana condição.

Contudo, se o seu  karma não cumprir, (*)
deve outra vez passar por vida igual,
o mesmo bem e também o mesmo mal,
(*) Escolhas de uma missão para cada vida.

até aprender o seu destino a dirigir
e retornar depois, somente então,
para na Terra executar nova missão...

O ELEFANTE FURIOSO II

Foi Ajamil certo dia buscar lenha,
pedindo ao solo permissão para juntar
os galhos secos que havia de encontrar:
Que sempre a bênção de Vishnu contenha!

Que de Shiva a proteção sobre ti venha!
Eu te agradeço pelo que hoje vou queimar,
para assim preparar nosso jantar...
Que sempre a chuva do céu teu solo tenha!

E assim falando, um feixe sobraçou,
nem mais, nem menos do que precisava,
e para o Ashram do sábio retornou. (*)
(*) Acampamento, pequena aldeia.

Mas no caminho, encontrou um elefante,
que furioso, à sua frente trombeteava,
tudo que achava a derrubar por diante!

Inutilmente, procurava o condutor
com o seu ankus pontiagudo controlar,
a besta-fera que tudo estava a derrubar;
e o avisou, com o maior ardor!...

“Saia do caminho, jovem, por favor!...
Meu elefante talvez o vá matar
e esse dharma vai em mim se derramar! (*)
A sua morte me virá em desfavor!...”
(*) Responsabilidade dentro da Roda das Encarnações.

Ajamil só pensava, no entretanto:
Deus se encontra também no elefante.
Brahma é bom e jamais me fará mal!

Gritou de novo o condutor, já quase em pranto:
“Saia já deste caminho, neste instante!
Pode sofrer qualquer golpe mortal!...”

Ajamil, porém, em nada se afastou.
Deus está em mim e também nesse animal.
Para si mesmo, Deus não fará mal!...
Assim a ira do elefante ele arrostou!...

Mas quando a besta sua tromba levantou,
pela cintura o agarrou!  E, triunfal,
jogou o jovem contra o capinzal
e pela senda correndo continuou!...

O condutor, então, foi acudi-lo.
“Você é surdo?  Não me ouviu o aviso?”
“O paquiderme sobre a grama me jogou!”

“Por que motivo o animal me fez aquilo?
Sempre agradeço ao solo até que piso,
mas Brahma estava no elefante e me pisou!

O auriga até o ashram o conduziu
E seu saddhu cuidou dele com carinho. (*)
“Não quebrou nada,” falou o bom vizinho.
“É de espantar que tão pouco se feriu!...”
(*) Homem santo, anacoreta, asceta.

Ajamil pergunta ao mestre dirigiu:
“Vi o elefante, no meio do caminho,
não acreditei me machucasse o pobrezinho...
Deus está nele”...  O elefante não me viu?

Brahma se acha no elefante, certamente,
mas também nos seus olhos e ouvidos...
Por que ao condutor não escutou...?

Brahma se achava nesse homem, igualmente,
Pois não ouviu os seus gritos incontidos,
quando Deus, por meio dele, o avisou...?

William Lagos
Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com
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