segunda-feira, 15 de janeiro de 2018






COLEÓPTEROS I -- WILLIAM LAGOS

eu vou tomar um punhado de besouros
e fazer com todos eles batalhão:
na singeleza de meu coração,
serão soldados negros Perfilados...

e vou tomar alguns desses besouros,
fazer com eles contas de um colar:
vou perfurá-los e a meninas dar
esses colares de contas Quitinados...

tais como esses cascudos, eu conservo,
no mais secreto de minha alma pura,
milhares de besouros a Marchar...

sou general e sou também seu servo:
em sonhos negros a ilusão perdura
de que minha vida possa Melhorar...

COLEÓPTEROS II

Não sei como falecem os besouros
quando lançam os corpos tão redondos
contra o calor das lâmpadas, estrondos
tão leves quanto a perda de tesouros.

Estalam nos ouvidos, negros ouros,
pequenos seres de aspecto irreal,
criaturas de plástico, afinal,
cor-de-petróleo todos, bons agouros...

Posso entender que sintam atração
pelo fulgor da luz, que então os mata:
não é, afinal, o que fazemos nós...?

Porém suas capas forte proteção
lhes deveriam dar, na estranha data
em que se jogam à cor e morrem sós...

COLEÓPTEROS III

Quando se perde um tesouro verdadeiro,
mal se percebe -- não há uma ameaça,
desaparece num estalo, em traça,
quase traição -- e some por inteiro...

Já os falsos tesouros, num berreiro
de estardalhaço se vão, numa trapaça,
como algo de importante que se esfaça,
na quente bruma de incerto paradeiro...

É por isso que a gente desespera,
por ter perdido algo sem valor
e nem percebe quanto valor tem,

ou só percebe, depois de longa espera,
haver perdido o verdadeiro amor,
que como bruma se esvaiu também...

COLEÓPTEROS IV

Esses rostos de besouros me perseguem,
enquanto escuto fibrilarem suas antenas:
são cachos negros que percebo apenas
quando o dia está claro e que me seguem.

Durante a noite, porém, certo é que neguem
sua nítida visão.  Furtivas cenas,
em que somem criaturas tão pequenas:
são apenas duendes que me ceguem.

Eu vejo seus cabelos na alvorada,
no entardecer e em pleno meio-dia
e até o ponto em que a elétrica energia

me permita perceber sua revoada.
Mas chega a noite e as antenas dos cabelos
somente enchem meus sonhos de desvelos.

COLEÓPTEROS V

Quando eles vêm, já é no entardecer
e se acumulam às centenas contra as luzes,
escaravelhos e besouros, quebra-luzes,
todos em busca do próprio falecer...

São assim as meninas: vêm perder
os anos de sua infância nos induzes
das cintilantes luzes e desluzes:
rapidamente se veem envelhecer...

Talvez digam que sejam mariposas,
estas damas da noite os seus besouros,
os gordos cafetões que assim sustentam.

Mas eu digo: escaravelhos são tais rosas,
esmagados aos pés os seus tesouros
nas calçadas da cidade que frequentam.

COLEÓPTEROS VI

Os olhos negros desses coleópteros
me contemplam em parda zombaria:
suas asas pretas de quitina fria,
recobrem élitros iguais aos lepidópteros.

Seu sangue é verde, embora o dos quirópteros
seja vermelho e quente; e eu ficaria
bem melhor se a tais morcegos me daria,
ao invés de ter amor por arqueópteros...

Mas sou assim: eu vivo no passado;
não no meu próprio, é certo.  Eu amo é esse
sobre o qual li, amor de arqueologia.

E me sinto no presente reencarnado
nesse esforço febril em que a alma cresce
na construção de si mesma noite e dia.

COLEÓPTEROS VII

se soubéssemos viver na Escuridão,
como fazem os morcegos, em Ultra-som
vencendo os obstáculos, com o Dom
de tantas coisas saber onde é que Estão,

mesmo sem vê-las, só por Sibilação
de gemidos cristalinos, seria Bom;
mas mesmo ao emitirmos igual Tom,
mal saberíamos interpretar Verberação.

Nós somos todos muito mais besouros,
sempre em busca da luz ao fim do túnel,
esquecendo o calor de nossos trilhos.

E é por isso que se esvaem nossos tesouros,
nessa busca incessante pelo lúmen
que a humanidade contagia nos seus filhos.

COLEÓPTEROS VIII

É assim que contra lâmpadas queimamos
as nossas carnes mais desprotegidas
que aquelas dos besouros, revestidas
dessa quitina em que nos contemplamos.

À luz do sol os rostos que mostramos
se refletem em tais capas, coloridas
pelos olhos das amadas mais queridas:
nesses amores todos nos queimamos.

Mais do que a luz do sol, os olhos delas
é que nos cegam bem frequentemente
e nos deixamos queimar, sem resistir.

Nossos olhos adejam como velas
e torramos a esperança redolente,
somente pela flama de um sorrir.

COLEÓPTEROS IX

Meus olhos te acalentam, persistentes;
Teus olhos me acalentam, dadivosos;
Meus olhos te perseguem, monstruosos;
Teus olhos me naufragam, consistentes;

Meus olhos te refletem, reluzentes;
Teus olhos me refletem, quitinosos;
Meus olhos semi-voam de elitrosos;
Teus olhos já flutuam, fervescentes;

Na luz desses teus olhos transparentes
em me reflito em sonhos de vitória
e até queria me adonar desses tesouros.

Mas capturo só os insetos insistentes,
e vejo ante meus pés montes de escória:
amor que eu esmaguei feito besouros.

COLEÓPTEROS X

Não sei porque eu vejo escaravelhos
lançar-se contra a luz iridescente,
queimar-se contra a vela incandescente,
talvez queiram morrer sem ficar velhos.

E vejo os velhos buscando dar conselhos,
numa lição aos mais inexperientes,
apesar dos lastimáveis e frequentes
embates que projetam contra espelhos.

Como é comum na vida que busquemos,
ao invés de seus dons mais permanentes,
seus reflexos mesquinhos e pequenos!

E nos jogamos contra espelhos, crentes
até o momento em que morrer nos vemos
contra essas fontes de luz opalescentes.

COLEÓPTEROS XI

Tomo nas mãos a pequena criatura
que cessa de espernear e finge morta,
nessa esperança que o desalento entorte
de que, por morta, seja tida impura,

ressecada por dentro, a casca dura,
sem mais valor nutritivo dessa sorte,
vaga esperança que o mau destino corta
e se furta ao pesadelo da tortura.

Sou como um gato para tal inseto,
que pensa ser em breve devorado,
mas só depois de malvada brincadeira.

Nele me vejo refletido, igual afeto,
que em seu exoesqueleto apenas queira
enxergar o meu rosto duplicado!...

COLEÓPTEROS XII

Qual o besouro se desvanece em vela,
o poeta se queima à luz da lua:
idêntica sua busca, em ânsia nua
de misturar-se à luz que se revela.

para os olhos da amada, luz de estrela,
me precipito, sem sair à rua:
é mais dentro de mim que o amor estua
e é mais por não a ver que a sonho bela.

Bem fundo ao coração, minha alma é pura
por mais que frases pareçam maliciosas,
sou negro nessa dor que me perdura.

Duro por fora, de carnes saborosas,
sou besouro também e a casca escura

esconde as asas limpas e sedosas...

domingo, 14 de janeiro de 2018







ROMA E OS VOLSCOS -- 21-27/10/2017
NOVAS SÉRIES DE WILLIAM LAGOS

ROMA E OS VOLSCOS -- 21 OUT 2017
SONETO SETENTA E QUATRO -- 22 OUT 17
RESILIÊNCIA -- 23 OUT 2017
CONSEQUÊNCIA -- 24 OUT 2017
CASUÍSTICA -- 25 OUT 2017
REPENTE... -- 26 OUT 2017
GRAVIDADE -- 27 OUT 2017
DOCE ALÍVIO -- 21 ABR 2006

ROMA E OS VOLSCOS -- 21 OUT 2017

ROMA E OS VOLSCOS 1

Foram os Volscos antigos italianos,
a língua que falavam indo-europeia,
de aspecto físico não muito diferentes
do que se reconhece dos Romanos,
sua história a formar longa epopeia,
mais conhecida por travar guerras frequentes,
em que foram vencedores ou vencidos,
sendo por Roma, enfim, absorvidos.
De fato, só existe um documento,
com exceção de citações de historiadores,
a Tábula Vélitras, cujos caracteres
são justamente os do romano assento,
a qual descreve uma pena a infratores,
sem nada draconiano em seus dizeres. (*)
(*) Sem pena sanguinária ou violenta.

ROMA E OS VOLSCOS 2

Na verdade, mal se sabe, realmente,
quando teria sido iniciada a sua história,
que nos parece anterior à fundação
da cidade de Roma, hoje imponente,
mas um povoado de muito pouca glória,
com imigrantes de cada outra nação.
que no final raptaram as Sabinas,
dos Patrícias as origens femininas...
Contudo afirmam historiadores italianos
com base em achados arqueológicos
que poderiam Volscos ter sido poderosos,
se não tivessem pela frente esses Romanos,
talvez podendo, por motivos lógicos,
ter toda a Itália dominado, valorosos.

ROMA E OS VOLSCOS 3

Seus detratores afirmam que os Patrícios
descendiam de ladrões e prostitutas,
apesar de seus costumes bem austeros,
agricultores com muito poucos vícios
e ferozes combatentes em suas lutas,
suas leis justas a contrariar costumes feros,
que a pouco e pouco a península tomaram
e quase toda a Europa dominaram.
Quando Roma surgiu, a Itália era habitada
por muitos povos, chamados de Italiotas,
denominação que lhes foi dada por Helenos:
Apúlios e Mesápios, gente armada,
que contra os Gregos combateu, cortando as rotas,
durante décadas seus avanços bem pequenos.

ROMA E OS VOLSCOS 4

Foram os Romanos dos Etruscos descendentes,
que por sua vez descendiam dos Hititas
ou mais exatamente, dos Troianos,
que dominaram as terras existentes
desde os Gauleses até os Samnitas,
seu império durando por mil anos.
até por Roma serem absorvidos,
após por estes ser submetidos.
Os Mesápios habitavam o sudeste,
Umbros e Oscos na região central
e na Sicília também Cartagineses,
além dos Sículos e Sardos do noroeste,
povos antigos, língua e origem, afinal,
bem anterior à dos Celtas montanheses.

ROMA E OS VOLSCOS 5

Romulus e Remus seriam descendentes
da família real de uma cidade,
Alba Longa chamada, semente do deus Marte,
mas embora fossem Romanos bem valentes,
não puderam enfrentar a capacidade
bélica da Etrúria e seus reis, em parte,
pelo menos os três últimos, real fato,
foram Etruscos, razão de triste desacato.
Seria Reia Silvia a mãe dos dois,
uma virgem vestal, que enterrariam
ainda viva, por haver engravidado,
se o deus Mavorte, chamado Marte só depois,
à cuja voz eles obedeceriam,
não aparecesse, redimindo seu pecado.

ROMA E OS VOLSCOS 6

Por isso, uma República fundaram,
mas os Etruscos criam em profecia
que seu império duraria por mil anos,
que pelo ano de 600 a.C. se completaram;
em breve Roma sua nação dominaria,
de seu vasto território os soberanos,
embora ao sul e ao leste os Italiotas
dominassem os vales e suas rotas.
Ali habitavam os Sabinos e os Veientes,
os Hérnicos e os Équos ao redor,
de tal forma que Roma, inicialmente,
só se pôde expandir em estreitas frentes,
do Mar Tirreno em fértil corredor,
sempre premida por vizinho mais potente.

ROMA E OS VOLSCOS 7

Bem mais ao sul havia colônias Gregas,
a Magna Grécia, fundadas por Helenos,
mas como Graetia foi a primeira conquistada,
para os Romanos foram gregas as suas regas
e até hoje, pelo Ocidente, ao menos,
ainda é a Hélade como Grécia denominada,
sendo a península de Itália então chamada
pelos Helenos, em sua história registrada.
Durante um certo período, esses Helenos
importantes conquistas realizaram,
por seu Rei Priscos comandados com valor,
mas os Italiotas não faziam por menos:
"Outra vitória como esta," alguns narraram,
"e estarei perdido", teria dito o vencedor.

ROMA E OS VOLSCOS 8

Dos Volscos só sabemos, realmente,
através de seus combates com Romanos,
suas alianças, traições e rebeldias
apenas conhecemos pela gente
com que lutaram ao longo desses anos,
aliados aos Latinos em tais dias,
mas sendo os Volscos conhecidos, sobretudo
por tais embates, seu passado é mudo.
Mas é preciso dizer que historiadores,
tais como Titus Livius, os descreveram bem,
embora digam melhor ser sua rebelião
do que na guerra serem bravos lutadores
Dionysos de Halicarnasso os mencionou também
pelos combates que travou essa nação.

ROMA E OS VOLSCOS 9

Tinham os Volscos só cidades-estados,
tal qual fazia a maioria dos Latinos,
reis dominando só pequenos territórios,
sem vastos reinos enfim sendo formados,
sendo os Romanos gestores bem mais finos
cidadania a distribuir a tais empórios
que demonstrassem a Roma lealdade,
pouco a pouco a expandir romanidade.
Dominavam os Volscos desde Cora
e Narba, locais bem próximos de Roma,
até Antium, na região meridional,
hoje Anzio, conquistada noutra hora
pelos Aliados, nessa guerra que retoma
mais do que as outras, o nome de Mundial!

ROMA E OS VOLSCOS 10

Nessa inscrição que ainda existe conservada,
a Tábula Vélitras, determina-se o castigo
de alguém que cortou os galhos da floresta
consagrada a Decluna, à deusa Diana identificada:
um boi foi entregue ao sacrifício antigo
e mais dois Asses de cobre para a testa,
um destinado do vinho à aquisição
e outro aos cálices empregados na ocasião.
Os Volscos, no temor dessa expansão
dos Romanos aguerridos e ambiciosos
com os Équos fizeram aliança
ainda no tempo em que a novel nação
era um reino.  Mas os Hérnicos fogosos
emprestaram para Roma a forte lança.

ROMA E OS VOLSCOS 11

Essas guerras por décadas seguiram,
quase sempre a vitória dos Romanos,
mas os Volscos, em qualquer oportunidade,
rompias os tratados que assinaram,
até de novo submeter-se aos soberanos
da nova e nobilíssima cidade,
pensando de suas derrotas se cobrar
e assim fizeram até Romanos se tornar.
Já em 338 a.C., quando assinaram
esse tratado de paz definitivo,
quando foi Antium finalmente anexada.
Durante a guerra em que se separaram
patrícios e plebeus. o povo ativo,
tentou ver a forte Roma derrotada,

ROMA E OS VOLSCOS 12

Outra guerra ocorreu por ocasião
de uma pente que por Roma grassava,
porém sua tropa acabou contaminada,
os Volscos a partir em confusão
e quando Breno com os Gauleses atacava,
mais uma vez foi sua luta retomada,
sempre os Romanos acabando por vencer
e o território dos Volscos a encolher...,
No século quinto, Vergílio nos relata,
que foram comandados por Camilla,
sacerdotisa virgem e guerreira;
outro episódio igualmente se dilata,
depois que Roma a Coriolano exila,
as tribos volscas congregando em sua esteira.

ROMA E OS VOLSCOS 13

Nesse período foi Antium a capital,
porém Velitrium era a capital do norte,
onde encontraram essa inscrição famosa;
aqui surgiu a família Octavia original,
casa imperial depois tornada pela sorte,
Octavius Augustus, do Império o mais glorioso,
sendo Attina e Frasinone outras cidades,
Em Suessa Prométia e Sátrio quantidades
importantes de cereais se cultivaram;
Arpinum de Gaius Marius foi a terra
e da família de Cícero, o orador,
depois que todos se romanizaram.
Eregeia, Sera e Terracina sendo anexadas,
após serem noutras guerras conquistadas.

ROMA E OS VOLSCOS 14

Quando se aliaram à Liga Latina,
já foram por Octavius Maximillus derrotados;
e nessa disputa entre Patrícios e Plebeus,
mais uma vez a independência o povo atina.
sendo por Publius Servullus Priscos dominados,
perdendo novos territórios seus,
pelo Tratado de Ecetra que assinaram,
depois que os adversários triunfaram.
Camilla era filha de seu rei,
Métador e foi bem nessa ocasião
que Titus Livius redigiu a afirmação
de na revolta mostrar-se melhor grei
que nos combates; por mais que fosse devotada,
foi a guerreira por Tarquinius Superbus derrotada.

ROMA E OS VOLSCOS 15

Dessa feita, o rei romano conquistou
Suessa Prométia, a temporária capital,
com o vasto espólio mandando construir
o grande templo que a Júpiter consagrou,
do Capitólio na colina triunfal...
De novo o povo Volsco voltou a se insurgir,
sendo por Spurius Cassius derrotado,
forçada assim a assinar novo tratado...
que resultou em nova anexação,
os Volscos cada vez mais reduzidos
e provocados novamente à rebeldia,
nessas guerras de pequena duração,
por Gaius Martius de novo a ser vencidos,
que expugnou Coriolis nesse dia.

ROMA E OS VOLSCOS 16

Foi desta forma cognominado Coriolano,
porém sua fama veio a causar inveja
aos Tribunos da Plebe, que o exilaram;
com a injustiça enfureceu-se esse Romano,
que refugiou-se entre os Volscos, quando enseja
a mais feroz das guerras que travaram,
pois Coriolano assolou o Lácio inteiro,
de Roma às portas chegando bem ligeiro,
E só não conquistou a sua cidade
porque sua mãe, Vetúria e sua esposa,
chamada Volúmnia, com seus filhos,
implorar foram, cheias de humildade
em seu acampamento e a tropa airosa
retirou-se na conquista de outros trilhos.

ROMA E OS VOLSCOS 17

Coriolano ao rei Ansilios contrariou,
convencendo os Volscos a saquear
as granjas e as villas dos Romanos; (*)
porém dos Volscos o rei não o perdoou
e finalmente o mandou executar
pela traição; mas prodígios mais arcanos
impediram se realizasse a execução,
sendo exilado para sempre da região.
(*) Grandes propriedades rurais ou fazendas.
Também a Roma jamais pôde retornar,
acabando por viver entre os Helenos,
ali lutando como um mercenário;
noutra versão, se teria feito contratar
como estratego, seus êxitos pequenos, (*)
depois sua fama a obter renomes vários.
(*) Comandante de tropas.

ROMA E OS VOLSCOS 18

Finalmente o secular embate terminou,
com os Volscos em total submissão,
Posthumus Cominius Auruncus conquistando
Antium, a derradeira cidade que restou;
porem foi rápida sua romanização,
dos vencedores os costumes aceitando,
com eles a se aliar em casamentos,
cidadania a receber por documentos.
Como foi dito, foi de volsca origem
Octavius Augustus, o grande Imperador,
e Gaius Marius, que foi antes ditador,
a quem a culpa pelo Império alguns impingem;
também foi um Volsco o grande Cícero orador
e tantos outros Romanos de valor!

EPÍLOGO

Se por acaso tomei alguma liberdade,
venha perdoar-me agora, bom leitor,
que essa guerra foi, de fato, complicada,
e por deixá-la mais clarificada,
da liberdade poética senhor,
foi finalmente por mim simplificada.
Contudo, a seu propósito serviu,
sendo os Volscos antigos retirados
lá do passado para serem relembrados,
caso até este momento me seguiu!

O mapa maior representa tão somente
as iniciais conquistas dos Helenos,
que maiores territórios ocuparam
em todo o sul italiano realmente.
A parte oeste aos Samnitas atribuída
era a terra que os Volscos habitaram;
o menor mapa apresenta seus terrenos
antes de serem levados de vencida
pelos reis a dominarem a coisa pública
anteriormente à fundação de sua República.

SONETO SETENTA E QUATRO I -- 22 OUT 17

Espanto causa que eu já tenha escrito
setenta e quatro sonetos, não é verdade?
Não corresponde, porém, à atualidade,
embora o número acima esteja inscrito.

Setenta e quatro seria um número bendito,
mas se encontra muito aquém da realidade;
setecentos e quarenta uma possibilidade
bem maior dos resultados que hoje adito.

Não são, tampouco, setecentos e quarenta...
Quem sabe sejam sete mil e quatrocentos?
Não lhe parece um total mais fabuloso?

Mas quem deles completar a conta intenta,
examinando com paciência tais assentos,
verá que o número é bem mais portentoso!

SONETO SETENTA E QUATRO II

Quem sabe, sejam dezessete mil
e quatrocentos?  Chegamos bem mais perto,
mas novamente não há um real acerto...
Caberia então mais um zero nesse ardil?

Sendo setenta e quatro mil o seu perfil...
Não creio atingirei tantos, decerto;
Quarenta e sete mil é um alvo aberto,
mas não cheguei ainda neste atril...

Quarenta mil, já é certo, ultrapassei,
embora não tenha jamais todos contado,
basta pensar em vasto acervo acumulado,

que a limpo do passado não tirei,
mais os milhares que só datilografei,
antes de algum computador haver comprado.

SONETO SETENTA E QUATRO III

Por que, então, este número escolhido?
Na verdade, foi apenas brincadeira,
não por vaidade, nem zombaria certeira:
motivo houve e até bem definido...

É que neste 22 de Outubro foi cumprido
mais um ano desta já bem longa esteira;
setenta e quatro são os anos de minha jeira:
setenta e cinco já começa a ser perdido.

Podem dizer que aniversário é um ano a mais,
como se os anos se guardassem numa estante,
lado a lado, como livros ou CDs...

É um ano menos, na verdade, que jamais
saberei quantos ainda tenho por avante
se tu, destino, por acaso outros me dês...

SONETO SETENTA E QUATRO IV

Somente posso guardar as suas memórias,
meus dias bons e maus em sucessão,
anos passados em real lamentação,
que alijaria com prazer sobre as escórias...

Ou aqueles dias de pequenas glórias,
pelos quais tenho de ser grato obrigação
ou de milhares de outros dias, multidão
monótona, incômoda, sem histórias...

Não obstante, bons ou maus, todos se foram
e jamais os reverei no doravante
e aqui não mostro nem orgulho, nem tristeza,

tão só a espera dos outros que demoram,
de mágoas ou de luz em cada instante,
que os setenta e quatro já se foram, com certeza!

RESILIÊNCIA I -- 20 abril 06

Quanta vez se compara à mariposa
A paixão que avassala e que nos queima...
O amor que domina e que em nós reina
De forma irresistível, poderosa...

E quanta vez se diz que a mariposa,
Enamorada pela luz da vela,
Nas asas chamuscadas se revela
Não mais que uma idealista, que desposa
No amor da chama a frigidez da morte.

Existe amor, porém, mais resistente,
Palpita em asas de aço temperado,

Que resistem muito mais à dura sorte.
Seu amor pela  vela é  persistente,
Sem ser jamais por sua flama devorado. 

RESILIÊNCIA II -- 23 OUT 2017

O mais das vezes, a mariposa é macho;
mulher existe que rebrilha como vela;
adeja o inseto ao redor de sua donzela;
vêm outros mais, em expectante cacho...

Chega ao brilho um qualquer, usando pacho
que lhe limita a visão a uma janela,
pela qual somente enxerga a dama bela,
suas asas a queimar perante o facho.
por um instante, vê-se vaidade a rebrilhar,

sem que de fato ela deseje o pretendente.
que esperneia, agonizante, ao castiçal...

Persiste a chama, sem ao menos se importar,
somente o cheiro dos queimados permanente,
sem espantar outros que a buscam no final!

RESILIÊNCIA III

Por breve instante, um tal amor perturba,
na agitação das asas da paixão,
em seu probóscide beijos de fogo estão, (*)
asas sacode e no agitar se turba
(*) O bico dos insetos.

e enquanto as asas fremem e suplicam
à chama bruxuleante dessa vela,
mal compadecem por instantes a donzela:
não voam mais esses carvões que ficam
e logo a chama se reergue, autoritária,

paixões alheias não a fortificaram,
sua vaidade, por instantes só, lustrando.

Mas nem assim se torna solidária,
que consumir o seu pavio só ajudaram
e a cera desce, ao castiçal se acumulando... 

RESILIÊNCIA IV

Bem poucas vezes é a vela masculina
e por capricho, as fêmeas ali adejam,
competem entre si, mais que desejam
do tal dominador tornar-se a sina...

Não é por busca de valor que se destina,
mas porque outras a mesma chama beijam
e suas invejas mais ânsias ensejam,
umas às outras a mostrar fúria assassina,
também suas asas sendo assim queimadas,

mas bem mais rápido esgota-se o candeeiro,
muito depressa já perdida a sedução,

já alijada a multidão das namoradas,
já aleijado o longo círio bem ligeiro,
na longa dança sem motivo e sem razão...

CONSEQUÊNCIA I -- 21 abril 2006

Espero tenhas tido mil prazeres.
Eu realmente os tive, por te veres
tão incensada no meu corpo e beijos
voltados para ti, nestes quereres

que toda a alma infundem de carinho,
nessa centelha amarelada de azevinho,
ao ver maduro o fruto dos desejos,
que fora dantes rubro feito vinho

e agora é rosa negra, como a flor
que acende assim teus olhos de candor,
enquanto gozo eu dou, sem ter fruído.

tão infundido desse teu ardor,
que quatro e cinco vezes faça amor
na carne de outro amor... desiludido... 

CONSEQUÊNCIA II -- 24 OUT 17

Assim pensa o arpoador inconsequente,
que de outras vezes queimou-se, parcialmente,
no bombástico calor dessa outra vela,
apenas um nesse bando permanente...

Ele mesmo aspirando a redolente
e nauseabunda morte de um valente
que se deixou queimar por tal donzela,
qual dragão fêmea fosse, realmente...

E por maior que fosse a sua paixão,
envolvido em tal cruel competição,
depois de chamuscar-se, se afastou,

buscando apenas, dentro ao coração,
doravante só obter satisfação
para o orgulho que o desdém lhe sapecou.

CONSEQUÊNCIA III

Porém o fato de haver sobrevivido
e essa amarga experiência haver sofrido,
já o impulsiona para novas aventuras,
com numerosas parceiras envolvido.

A quem consegue, facilmente, seduzir,
real amor não esperando conseguir,
sem se importar se provoca desventuras,
o seu prazer desejando só fruir...

A negra rosa como fruto dos arpejos,
que lhe rasgaram, em parte, o coração,
só lancinando-se em tal consumação,

buscando a seu redor trazer adejos
que por sua vez ele possa chamuscar,
da própria dor novas dores a causar...

CONSEQUÊNCIA IV

Quem sabe um dia, entre as muitas que o quiseram,
essas quantas que iludiu e que o perderam,
possa de fato encontrar consolação;
na maioria porém dele já esqueceram...

Bem menos queima a vela masculina,
mais precavida a mulher que ali se inclina,
mais do que tudo a esperar conservação,
instinto forte que há na alma feminina!...

E a cada vez que ele obtém nova conquista,
conserva ainda no seu peito a amargura,
por não ter sido dessa única que quis.

E se derrete, então, sem que desista,
bem lá no fundo da alma a voz obscura
daquela vela que o faria mais feliz..

CASUÍSTICA I  [1981?]

Teu beijo foi meu destino, jogado no mesmo instante
Que o fado mui casualmente, que o fado tão zombeteiro  
Os dados sobre a roleta, da vida no tabuleiro
Lançou sem pensar em nada, vago, insípido, inconstante.

Apenas por desatino, apenas por desfastio,
Apenas porque desejo nos olhos nos descobriu
E fez-nos sentir do outro, no mesmo olhar que luziu
E aos dois nos colheu na rede, urdida de igual feitio.

Urdida dos desenganos, tecida de mil ensejos
Que nunca granjearam nada, que nunca viraram beijos,
Mesclados sempre de medo, no vazio da aceitação

De véu torpe e inacessível, véu de altar feito carinho,
Metade perdão completo, metade rancor mesquinho,
Que em visgo puro enlaçou-nos, nas cordas do coração. 

CASUÍSTICA II -- 25 OUT 17

Nesse espantoso momento, na armadilha da ilusão,
Um novo amor se oferece, como estertor derradeiro,
Conseguindo até ocultar o amor que foi primeiro,
Nesse ergástulo de amor, calabouço da paixão.

Não que se esqueça, é fato, mas na inicial impressão,
O amor antes sentido, esse amor mais seresteiro,
Que geme bem lá no fundo, em um breve esgar brejeiro:
"Se pensas que me esqueceste, é bem falsa tua emoção."

"Pois aqui me encontro dentro, qual lembrança desmaiada,
Qual lembrança indesejada, qual memória suspirando,
Trancada em compartimento, porém nunca descartada."

"Já que amor sentido um dia, surge sempre, sorrateiro,
Na alma muito integrado, perdurando toda a vida,
Nessa força misteriosa que conserva o amor primeiro!..."

CASUÍSTICA III

"Este amor de arrazoado, no teu peito achando abrigo,
Por mais ter sido desdém, por mais ter tido desprezo,
Que o coração pensa morto, no coração se acha preso,
E puxa a argola do tempo, a desvelar seu jazigo."

Esse meu amor primeiro tampouco esquecer consigo,
Por mais que um amor recente, esse amor que tanto prezo,
Que permanece comigo, novena que tanto rezo,
Não se impõe pela saudade, mas por cisma de inimigo.

Amor que é mais ameaça, mandando sempre mensagem:
"Eu jamais te livrarei, estou sempre de tocaia,
Qualquer novo amor que tenhas não passará de miragem!"

"Eu sou o amor corajoso, o sentimento mais bravo,
De mim não tens elogio, só escutarás minha vaia,
Pensando haver liberdade, não passas de meu escravo!"

CASUÍSTICA IV

A gente fica pensando, recolhido num consolo
Que nos envolve de calma, que nos dá tranquilidade,
Que amor novo é bem mais forte, amor de fraternidade,
Amor de terna confiança, amor sem sombra de dolo...

Pois de fato é bem melhor, amor que se sabe pô-lo
Na alma e no corpo inteiro, amor de sensualidade,
Amor de soma incessante, amor de fragilidade,
Mas que tanto se deseja permanente em nosso colo.

Mas o velho amor de visgo, artérias rubras correntes,
Aquele amor temeroso de tristezas imanentes,
Ainda se manifesta, considerando o rancor,

Portanto conclui de novo, no instante do devaneio
E me assalta num convite, a cada sonho em permeio,
Que ainda quer ser amado, que ainda quer ser amor!...

REPENTE... (I) -- 24/4/06

Queria que me escrevesses
sobre meu jeito de ser,
sobre toda essa inconstância
que reflete o meu viver...

Hoje quero estar sozinha,
amanhã acompanhada,
hoje tudo está tão bom,
depois não quero mais nada...

Hoje eu acho o mundo lindo,
vejo amanhã tudo horrível,
hoje até gosto de mim,
me sinto bela e sensível...

Amanhã são só defeitos,
nada gosto do que vejo,
sou feia, boba, inconstante,
nem sei mais o que desejo...

Me sinto cheia de fases,
transformada como a lua,
que hoje brilha no céu,
mostrando sua face nua...

Amanhã desaparece,
não dá luz a mais ninguém.
É assim que então me sinto,
não sirvo mais para quem

costuma me dar carinho...
Não dou sorriso sequer:
eu parei na adolescência,
nunca me tornei mulher...

REPENTE II -- 26 OUT 2017

Se bem me lembro, escrevi
em poético formato
a mensagem sem recato
que em tal dia eu recebi.

Não me interessa quem foi,
que a certeza nem mais tenho,
mas defrontar-me hoje venho,
memória que o tempo rói.

Não costumo estas quadrinhas
com frequência redigir,
mas vem o verso assumir
tais lembranças pequeninhas.

Foi alguém que consolei,
sem que o ombro lhe alcançasse,
mensagem puro repasse,
só meu olhar lhe emprestei.

Porém tantas já escutei,
gentil perante lamentos,
compartindo sentimentos
nos momentos que passei.

Foi mais por paternidade,
tendo a alma compassiva,
memória faz-se inativa
na lembrança da amizade.

E nesse saguão de espera,
sem que lágrima vertesse,
a vida fez que esquecesse:
tanto olvido o tempo gera!

REPENTE III

Julgo o registro, contudo
de bastante exatidão,
das letras em compulsão
no visor da tela mudo.

Creio na interpretação
das frases bem acurada,
qualquer delas transformada
por força da inspiração.

Serviu tudo de pretexto
na minha imaginação,
a prosa da confusão
para o poema que apresto.

O original não recordo,
a mensagem já apagada,
veio a mim em quase nada,
restou mágoa que ora abordo.

E que importância, afinal,
sendo apenas desabafo?
(Com esta frase me safo
de um compromisso real).

Porém essa indecisão
não foi de uma só menina:
muitas vezes vi tal sina
de mulher no coração.

E se soube responder,
tal lástima a registrar,
a alma soube entregar,
mesmo após tudo esquecer.

REPENTE IV

Mesmo não sendo indeciso,
sem ter segunda intenção,
eu lhe abri o coração
em momento compassivo.

Não lhe fui indiferente,
no ato da compreensão;
mesmo sem tocar-lhe a mão,
sua alma auscultei, paciente.

Contudo, me indago agora,
tantos anos já passados,
se de fato atribulados
foram seus sonhos de outrora.

Ou se foi só caprichosa,
para ser interessante,
talvez por levar avante
qualquer coisa mais formosa.

Será que não compreendi
e algo mais esperava
que as respostas que lhe dava
no momento em que escrevi?

No entretanto, a experiência
já revelou-me, outras vezes,
artifícios e revezes
da feminina existência.

Mas confesso a pretensão
de ter dado algum consolo,
sem qualquer sombra de dolo,
vaidoso de compaixão!

GRAVIDADE I -- 23 abril 06

Como é difícil lidar com a intermitência
da alma feminina, essa inconstância,
esse oscilar perene, essa frequência
de quem quer e não quer, essa fragrância

a despertar desejo e depois nada,
nem das narinas um fremir, apenas
indiferença, rodeios, uma estrada
que se bifurca tanto, falsas cenas

de quem nos ama hoje e então odeia,
sem ter motivo que se possa ver,
sem ter razão qualquer para entender.

E a gente sofre tanto... e sempre anseia
conhecer os motivos da mulher,
que quanto mais se estranha, mais se quer!

GRAVIDADE II - 27 OUT 17

Nunca um homem compreende totalmente
os desparelhos caminhos da mulher,
quando ela mesma mal sabe o quanto quer,
quando hoje anseia e amanhã é indiferente.

Existe um êxtase, contudo, eventualmente,
nesses lampejos com sabor de malmequer,
nesses luzeiros que nos vêm, sequer
sem indicar-nos sua razão nascente...

Um espocar de luz, só transitório,
quando camada de sua alma se permeia
e por momento a gente entende tudo,

até que gire outra vez o clerestório
quando outra vez a escuridão se ateia,
como a chama invertida de um veludo.

GRAVIDADE III

Como é sagrado usufruir desse lampejo,
alma na alma, mente contra mente,
peito no peito em seu bater fremente,
corpo no corpo em pegajoso ensejo...

Como é profundo, muito mais que simples beijo,
como nos unge, tal qual óleo transparente,
esse clarão de um clarão inconsequente,
um breve instante de perfurante adejo!

Quando parece que ela mesma se compreende
e uma fresta se abre na armadura,
até fechá-la no assomo de um momento,

inditosa em perceber que algo se entende
que preferia ainda esconder, mostrar-se pura.
sem revelar o seu interno julgamento!...

GRAVIDADE IV

Cem vezes houve que desvendei-lhe a armadura
por um instante, tão somente, de descuido,
fugaz percepção de um sentimento fluido,
transmogrifado na expressão mais pura.

Quantas vezes, porém, na minha loucura,
eu lhe falei do que avistara no seu peito,
para que então me repreendesse com despeito,
sua falsa máscara retirada da ternura...

A insistir na mais total puerilidade
das conclusões a que eu havia chegado,
até que, a largo custo, eu aprendi.

E quando hoje algo desvendo, sem maldade,
nada lhe digo do que foi assim mostrado,
sem ela própria confessar que estava ali...

DOCE ALÍVIO I -- Wm Lagos, 21 ABR 06
[Para Lacy da Silva Macedo] ¾ [I Samuel 16:23].

Samuel nos conta, nas Santas Escrituras
como Saul sofria e, quando a harpa
do pastorzinho ele escutava, a farpa
sendo afastada de tão cruéis torturas...

Assim, em nossas vidas, as agruras
que nos afligem tanto, esses remorsos
por falhas nossas, todos os esforços
que temos de fazer, nossas impuras

ânsias de ganho, as penas do desejo
que tanto nos afligem, tal fisgar
de angústia em nosso peito, essa incerteza,

quando Jesus nos toca, com certeza,
tudo se esvai, como afetuoso beijo:
nos molha a fronte no mais gentil cantar...

William Lagos
Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br
Blog:
www.wltradutorepoeta.blogspot.com
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