quarta-feira, 26 de novembro de 2014






O CÃO, A PULGA E O MALVADO
William Lagos, 16 out 2014
(Baseado em dois contos infantis escritos por Victor Hugo para seus netos.)

O CÃO, A PULGA E O MALVADO I

Era uma vez um malvado rapazinho
que a uma rica família pertencia
e até se tinha por senhor do mundo;
fugia da escola para o descaminho
e em todo tipo de travessura se metia,
causando aos pais um mal-estar profundo.

Por não saberem por onde ele vagava
os seus avós lhe deram um cãozinho
que, é natural, ao dono se apegou;
mas o menino ao pobre Cão judiava,
puxava o rabo e as orelhas do bichinho,
só por milagre é que não o enforcou!

Mesmo assim, o cãozinho o adulava
e o acompanhava sempre, fielmente,
a protegê-lo em todos os seus malfeitos;
porém o dono volta e meia o espancava...
Ele gania e sacudia a cola, humildemente:
cães ao instinto da alcateia são sujeitos...

Os pais insistiam que ele mesmo o alimentasse,
para manter sempre fiel o animal;
ele o fazia, de muito má-vontade;
e embora só ossos e restos lhe jogasse,
o outro comia, na gratidão mais natural,
tudo aceitando, sem a menor hostilidade.

O CÃO, A PULGA E O MALVADO II

Cresceu o Cão bem mais depressa que o rapaz:
(já são adultos os cachorros aos dois anos);
infelizmente, tinha o pelo muito feio
e mesmo a cara era mistura contumaz
de buldogue e de mastim, causando enganos:
os seus latidos a provocar receio...

Mas medo dele não tinha o rapazinho,
acostumado que estava a espancá-lo
e o cachorro aceitava, humildemente,
sempre tratado do jeito mais mesquinho,
porque era feio, sem ninguém admirá-lo,
pois seu aspecto até espantava a gente!

Ora, é claro que banho não tomava:
à higiene era seu dono indiferente
e ele mesmo só tomava, se obrigado...
Cheirando mal, ao Cão ele culpava
embora o bicho não pudesse, realmente,
ser de cachorro fedorento ser chamado...

Sem tomar banho, de pulgas ficou cheio
e atormentado, vivia a se coçar.
Ora, o rapaz também possuía as suas
e por elas culpava então o bicho feio;
tomando banho, o queria até espantar
e de varadas lhe marcava as costas nuas...

O CÃO, A PULGA E O MALVADO III

Mas de fato, as pulgas de algum cão
não são as mesmas a picar a gente:
são espécies diferentes, na verdade;
Pulex canis as do cachorro são;
Pulex irritans a nos picar frequente:
por nosso sangue têm afinidade...

Na verdade, são os cães tão só vetores,
ou seja, se tem pulgas uma pessoa,
elas podem em um cão tomar carona;
de dar pulos tais insetos são senhores
e assim que cheiram nova carne boa,
pulam do cão para outra melhor dona...

Mas as pulgas do cão ficam ali
e só de um bicho para outro passam:
outro cachorro, ou quem sabe, um gato,
nesse retoço que muitas vezes vi;
ou quando ao ar livre igualmente caçam,
podem pegar de qualquer bicho do mato.

Mas dessa forma, desenvolveu o pobre Cão
vasta colônia de hóspedes pulgares:
tinham casinhas, aldeias e até igrejas...
Mas pelo menos, não vivia em solidão,
porque os bichinhos lhe eram familiares:
“Nós te seguimos aonde quer que estejas!”

O CÃO, A PULGA E O MALVADO IV

Mas uma delas afeiçoou-se grandemente
e muitas vezes com ele conversava,
muito em particular durante as noites
e lhe indagava, mui curiosamente,
por que ele tantas torturas aceitava:
daquele humano as varadas e os açoites...

Respondia o Cão: “Ele é o chefe da alcateia
e tem direito, até, de me morder:
varaços e chicotadas não são nada...”
“Conta essa história para outra plateia;
de te picar só eu direito posso ter:
pelo teu sangue eu sou alimentada...”

“Já ele derrama teu sangue inutilmente,
em nada mais que um tolo desperdício:
não deverias deixar que te batesse!...”
Mas o Cão tudo aceitava, calmamente:
“Obedecer ao patrão é meu ofício;
não me daria atenção, se não batesse...”

O Cão era animal robusto e forte,
apesar de ser feio e malcheiroso,
e com seu sangue, ficou a Pulga vigorosa;
de muitas gerações ela assistiu a morte,
mas continuava em seu lombo poderoso:
era uma Pulga realmente portentosa!

O CÃO, A PULGA E O MALVADO V

Passou-se o tempo, foi crescendo o rapazinho
e foi forçado pelos pais a trabalhar,
já que o colégio frequentar se recusava;
com o dono o Cão só ficava então sozinho
nos fins de semana, quando estava a mandriar
e novamente, sem ter pena, ele o judiava.

Certo domingo, chegou à beira da lagoa
e começou a lhe arrojar pedrinhas,
na tentativa de fazer com que saltassem;
sua pontaria, porém, não era boa
e raramente fazia marrequinhas:
afundavam, tão logo ali chegassem...

E numa dessas, ele escorregou,
caindo dentro d’água, em lugar fundo;
já estava a ponto de quase se afogar,
mas o cachorro atrás dele saltou,
agarrou-o pela gola e num profundo
esforço ao dono conseguiu salvar!

Mas assim que se viu salvo na margem,
depois da água cuspir e vomitar,
ao invés de demonstrar-lhe gratidão,
lançou o Cão de volta na voragem:
“O meu gorro, bicho inútil, vai buscar!”
E ainda pedras lhe jogou nessa ocasião!

O CÃO, A PULGA E O MALVADO VI

A Pulga numa orelha se escondera,
cravando os dentes para se firmar;
e assim, quando o Cão se sacudiu
em seu poleiro, firme permanecera,
porém viu toda a família se afogar
e grande raiva pelo rapaz nutriu!...

Passado o tempo, um dia ele se deitou
para dormir, sob árvore da mata,
justamente onde havia uma colmeia;
atrás do mel, um urso se aproximou,
sem má intenção, só de alimento à cata,
porém o Cão por seu dono se arreceia!

Ele atacou o animal muito maior,
em confusão de garras e rosnados
e o dono, num susto, se acordou!
Vendo o homem, sentiu o urso temor,
virando as costas, fugiu para outros lados;
muito contente, o Cão se aproximou...

Mas o Malvado, ao invés de agradecer,
deu-lhe dois pontapés e umas varadas:
“Mas por que me acordaste, bicho imundo?”
Horrorizou-se a Pulga, ao perceber
tanta raiva e maldade demonstradas,
seu próprio ódio tornando mais profundo.

O CÃO, A PULGA E O MALVADO VII

“Por que não deixas esse humano ingrato?”
“Não, Pulga amiga, eu cumpro meu dever;
todos os cães aos amos obedecem...”
“Mesmo sofrendo constante desacato?”
“Pela matilha os cães podem morrer;
da lealdade, contudo, nunca esquecem!...”

Correram os anos e o rapaz cresceu,
ficando adulto.   Morreram seus avós
e seus pais faleceram igualmente.
Extensas terras ele recebeu,
os camponeses trabalhando sós,
para ele os lucros vindo, realmente.

Como escravos tratava os empregados,
gente humilde, que nem ao menos reclamava
(era uma época de grande desemprego),
A obedecer-lhe sempre acostumados,
pois com capangas ele sempre andava,
para a bondade e a justiça sempre cego.

Mas um dia discutiu com um vizinho,
afirmando ser o dono de um pomar
e o outro com arcabuz se defendeu!
O Cão, já velho, mas fiel em seu carinho,
atirou-se entre os dois, para levar
certeira bala que depressa o abateu...

O CÃO, A PULGA E O MALVADO VIII

Em vez de preocupar-se com o animal,
o Malvado fugiu, muito assustado,
quem enterrou o Cão foi seu vizinho;
somente a Pulga assistiu ao funeral,
chorando lágrimas de pulga do seu lado;
depois por faro encontrou o seu caminho.

Vários dias levou pula-pulando,
até chegar à fazenda, finalmente,
em que morara tanto tempo com o Cão;
do Malvado foi o quarto logo achando
e se meteu entre as cobertas, calmamente,
pensando em como lhe dar uma lição...

Escondida na barba do Malvado,
ela viu como aos camponeses maltratara
e logo um plano arquitetou para o castigo.
Nem toda pulga tem sentimento bem formado.
mas vivera muito aquela e se educara
com a bondade de seu Cão amigo...

Naquela noite, deitou-se o fazendeiro,
mas no momento em que ia a cochilar,
pespegou-lhe picada bem valente!
“Mas o que é isso?” gritou ele, num berreiro.
“Sou uma pulga e vim te castigar!”
Como alfinete, fincou-o bem contente!

O CÃO, A PULGA E O MALVADO IX

“Mas e por que esse teu atrevimento?”
“Porque foste malvado com teu Cão,
que o mês passado morreu em teu lugar!”
“Ah, o meu vizinho!  Espere só um momento!
Vou mandar-lhe um capanga com facão,
para que aprenda nunca mais a me ameaçar!”

“Vais castigá-lo pela morte do teu cão?”
“Que cão, que nada!  Já era tempo de morrer!
Eu quero mesmo é ficar com seu pomar!”
Deu-lhe a Pulga outro valente beliscão
e o Malvado começou a se bater,
sem conseguir a veloz Pulga alcançar!...

Então, ele acordou a sua mulher,
que a seu lado dormia calmamente:
“Ô mulher, vem esta pulga me tirar!
Lá da cozinha é que vieste me trazer!”
“Mas que pulga?” disse ela, ainda dormente.
“Esta maldita que está a me picar!...”

E o Malvado se coçava e se batia!...
A mulher toda a roupa lhe tirou,
a procurar a pulga à luz da vela...
(Luz elétrica naquele tempo não havia.)
Porém nem um só bicho ela encontrou;
foi sacudir-lhe a roupa na janela...

O CÃO, A PULGA E O MALVADO X

“Não há pulga nenhuma, tu sonhaste!’
O homem se vestiu e se deitou,
mas no momento em que ele cochilava,
a Pulga o ferroou: “Por que judiaste
do pobre Cão que tanto te agradou?”
Logo o Malvado da cama levantou...

Desta vez, foi sacudir o cobertor
e os lençóis.  A mulher, estremunhada,
“Não há pulga nenhuma!  Enlouqueceste?”
Mas era ele que sentia as dores:
com a Pulga em seu bigode aconchegada,
ele tossia e espirrava igual doente!...

E foi assim a noite toda.  Sua mulher
foi para sala, para poder dormir,
mas pregar olho ele não conseguiu!
Aos empregados não deixou dormir, sequer:
“Essa pulga vocês têm de repelir!”
Mas na casa a tal pulga ninguém viu!

Naquele tempo não havia inseticida;
eles encheram a casa de fumaça,
queimaram os tapetes e o colchão!
Mas a pulguinha estava bem escondida
Na barba longa e assim fugia à caça;
logo a seguir, lhe dava outro fisgão!...

O CÃO, A PULGA E O MALVADO XI

E a cada vez que num canto ele sentava,
na vã esperança de poder dormir,
novamente ela lhe dava uma mordida!
E o Malvado se coçava e se estapeava,
mas era o único que conseguia ouvir
a voz fininha da tal Pulga atrevida!

Logo pensaram que ele estava louco:
tirava a roupa e corria então pelado;
quem via pela frente, ele agredia;
mas até isso a Pulga achava pouco
e o acompanhava para qualquer lado,
porém apenas ele é que a sentia!...

Chamaram um médico para o atender
e viu que estava mesmo cheio de feridas
e de hematomas, porque se coçava
e se batia, sem poder se defender!
Passou-lhe o médico remédio nas mordidas
e sugeriu: “Por que não se raspava?”

Então mandaram chamar um barbeiro,
que lhe raspou bigode, barba e cabelos,
mas a Pulga se escondeu no seu nariz...
Indo o fígaro embora, bem ligeiro,
ela o picava, mesmo sem ter pelos
e ele gritava igual que um infeliz!...

O CÃO, A PULGA E O MALVADO XII

Então ouviu que estavam pretendendo
mandá-lo internar em um hospício!
Com a Pulga estava sempre a discutir!
“Mas o que queres?” – dizia ele, gemendo.
“Quero o castigo de teu terrível vício:
vai embora daqui, sem discutir!...”

“Mas como?  Queres que deixe minha fazenda?”
“Se é que pretendes escapar do manicômio...
Ficam as terras para tua mulher,
teus empregados terão bem melhor vivenda,
pois não mereces deles qualquer encômio:
a tua ausência não lamentarão sequer!...”

“Mas como?  Vou sair por aí pelado?”
“Não seja por isso... Podes te vestir
e encher os bolsos com moedas de ouro...
Mas no momento em que volveres a este lado
de te picar eu não vou desistir!
Nem um centímetro sobra no teu couro!”

Finalmente, o fazendeiro desistiu;
colocou as roupas e pegou dinheiro,
partindo então para um lugar distante;
seu paradeiro ninguém mais ouviu,
salvo a notícia de um estalajadeiro:
“Dormiu três dias, num ressonar constante!”

EPÍLOGO

Assim que a Pulga certeza adquiriu
de que o Malvado não mais retornaria,
foi pulando, até ao túmulo chegar
de seu amigo Cão e ali dormiu,
pois sua vingança inteira se cumpria
e finalmente ela podia descansar...

Quanto à fazenda, administrou-a a mulher,
até seus filhos crescerem o bastante
e a tarefa assumirem em seu lugar;
mas do Malvado não se soube mais qualquer
notícia de confiança, doravante:
temendo a Pulga, nunca quis voltar!...

Corre um rumor de que aonde vai
os cães põem-se a latir e o perseguem...
Ele foge e para outro lugar sai,
temendo que outra pulga lhe pespeguem!







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