segunda-feira, 4 de abril de 2011

LÁBIOS DE VENTO


LÁBIOS DE VENTO I   

O beijo que me deste, ou já foi tudo,
ou nada vale, depende da intenção:
pode ser beijo de amor ou gratidão
ou beijo de saudade, não me iludo.

Pode ser um começo, mas contudo,
pode ser fruto tão só da solidão:
pode ser um despertar do coração
ou despedida de um encontro mudo.

Um beijo não é nada, se não for
esse beijo de amor de quem espero
o beijo da esperança que me enseja

nesse ósculo de vento e de calor,
"que um beijo em si pode não ser sincero,
porém será, se quisermos que ele o seja." (*)

(*) Baseado em uma canção de Enya.


LÁBIOS DE VENTO II

Dos lábios a tua pele, que se enseja,
plena de alento, castiçal e rosa,
cheia de calidez, sonho de esposa
que seja amante, ao menos quando beija.

A pele contra a pele, que assim seja
um dom de maciez, língua arenosa,
contra minha língua quase dolorosa,
essa frescura que na boca adeja...

Quando me toca os lábios a tua boca
e sai a exalação pelo nariz,
esse perfume teu, de colibri,

percebo a vida inteira como pouca
para o prazer final que sempre quis,
que só busquei, porém nunca senti...


LÁBIOS DE VENTO III

O mundo que imagino como ideal
de fato, não seria diferente
do que este em que habito, normalmente,
quanto a termos de conforto material.

Amo livros e discos.   Como tal,
gosto de ter a meu redor, crescente
reserva que o futuro una ao presente,
do mesmo modo que o imenso cabedal

de selos arquivados nos armários...
Se bem que viajar queria, é certo,
contracenando com ruínas e museus...

Desde que unisse assim nossos fadários:
que te conservem de meu lado perto,
até o fim de meus dias, que são teus.


LÁBIOS DE VENTO IV

O beijo que não deste, mas chegou
pelas ondas do vento, virginal,
pelas ondas da teia, digital,
bem apressado meu coração tomou.

O beijo que não deste, rebrotou
somente no meu sonho natural:
que longe esteja o beijo, nem faz mal,
pois foi o vento que o ósculo assoprou.

E sinto assim, no vento matinal,
frígido vento, já que é quadra hibernal,
a maciez que de teus lábios brota...

E sinto assim, no vento em meio a tarde,
esse calor que no meu peito arde,
quando o sopra em meus lábios, gota a gota.

LÁBIOS DE VENTO V

O beijo vem da pele e se revela
em doce multidão de cor e luz:
o pólen de teus lábios me seduz
e a luz da cor é como som de estrela.

Contudo, nesse instante de procela,
quando a saliva nos lábios me reluz,
eu me sinto pregado como a cruz,
nessa atração de mariposa à vela.

Os lábios que se grudam, pele a pele,
e que, por um instante de surpresa,
nem sequer se conseguem separar

são como uma prisão que me congele
em tal calor, quimera de beleza,
desse veneno doce a me insuflar.


LÁBIOS DE VENTO VI

Nunca senti inveja como agora,
em que não tenho a quem eu mais desejo,
em que perdi a luz que me era o ensejo,
na busca multicor do meu outrora.

Redivivo nos sonhos desta hora,
quando em décadas atrás eu me revejo,
revestido de outro aroma, não de beijo,
mas do futuro que à fronte se alcandora.

Eu vejo essa mulher e reconheço
nela a potência que já tive um dia
e que nunca cumpri.  Percebo nela

esse poder que em mim jamais esqueço:
não que a queira possuir, mas que podia
rever o que não fui... mas vejo nela.

LÁBIOS DE VENTO VII

Eu pensei ter conseguido de minha mente
retirar a lembrança de teu vulto,
que amor de ti me concedesse indulto
e te apreciasse somente como à gente

que te cerca.  Pratico esta frequente
negação de ti, em canto e gesto estulto,
porque furtar-me assim desse teu culto,
somente indica o quanto está presente.

E eu já te esqueci tanto!   E permaneço
a te esquecer, enquanto os dias bebo,
enquanto o tempo, hora após hora, mói.

Que nem sequer te amar assim eu peço,
mas te lembro outra vez e então percebo:
te quero tanto, que a garganta dói!...


LÁBIOS DE VENTO VIII

E, contudo, conservado na lembrança,
por mais que seja apenas relembrado,
eu recordo o momento consagrado
desse primeiro beijo de bonança...

Beijo sutil, como mimosa trança,
que me prendeu em vento derramado
pelas mãos que me deixaram algemado
nessa translúcida pele de esperança...

Ai, quem me dera que toda a circunstância
se encaixasse ao redor do labirinto
e me fizesse encaixar-me no que sinto...

Nesse andor cristalino de elegância,
em que teus dedos beijo e amores pinto,
enquanto sopram sobre mim lábios de vento!


LÁBIOS DE VENTO IX

É o teu hálito puro que me prende:
essa carícia apenas pressentida,
essa saudade ainda não sofrida,
essa certeza que tanto me surpreende,

essa incerteza do que o destino intende,
esse cálice ainda não sorvido,
essa flor que no céu tem-me acolhido,
esse abraço que ainda me pretende...

Ai, como quero novamente o cheiro
que evola de teu corpo em minhas narinas!
Esse olor almiscarado de paixão,

deixado (e)terno no meu travesseiro,
mais perfumado que fragrâncias finas,
cheirando a amor jorrado em borbotão!


LÁBIOS DE VENTO X

Que seja o hálito, então, guardado em frasco
de cristal lapidado e tampa de marfim,
que o possa, às vezes, destampar e alfim
tomar nos dentes o olor que só eu masco.

Que seja o teu aroma, em sólido carmim,
reminiscência do coração que eu lasco,
um dote egoísta que eu somente tasco
e não reparto com ninguém, enfim...

Porque esse aroma, que só eu respiro,
metade está no frasco e a outra em mim:
só minhas narinas podem percebê-lo...

E se no ar certa fragrância eu giro,
ninguém perceberá um odor assim,
pois o tempero com a fome de meu zelo!


LÁBIOS DE VENTO XI

"Flor alada", murmurou-me ao pé do ouvido,
"é a borboleta..." -- nos laivos da agonia
que precede um orgasmo.  Pressentia
que de seu talo, qual botão fanado,

roubariam o lepidóptero que, escondido,
fugiu das mãos de quem o furtaria,
deixando pó de ouro em pedraria
sobre os olhos do autor de tal pecado.

Melhor destino tem o inseto no casulo
que a vida prende: mas se metamorfoseia...
Ou quando seca as asas no arrebol,

ao preparar-se para o incerto pulo
que o transporta a esse mundo que o incendeia
de puro afrodisíaco, aos beijos desse sol!...


LÁBIOS DE VENTO XII

Não sei se existe, afinal, mulher perfeita:
apenas penso em ti e te idealizo,
nesse fulgor opaco em que preciso
acreditar que ideal exista, não sujeito

às fraquezas humanas: que a mangra aceita
seja em ti acidental.  E que conciso
seja o conjunto dos dotes que, deciso,
favoreça-me o destino no seu leito.

Mas de minha vida sejas idônea companheira,
que em tudo apoiará, leal e sem reserva
em meu trabalho e vida e partilhe meu desejo.

É por isso que anseio, muito mais que por teu beijo,
que dê-me o que me falta, quem fé assim conserva
e que me feche os olhos na hora derradeira.

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